"Dons e disciplinas do corpo feminino"

Data: 
Sat, 29/04/2017 - 17:30
Local: 
Pólo Zero - Rua de São Filipe de Nery, 87 - Porto

O livro "Dons e disciplinas do corpo feminino" de Inês Brasão será apresentado no Sábado, 29 de Abril de 2017 às 17:30, no Pólo Zero ( R. de São Filipe de Nery, 4050-070 Porto), no âmbito da Feira do Livro Vozes de Mulheres, organizada pela Confraria Vermelha Livraria de Mulheres e pela SdDUP.

DONS E DISCIPLINAS
DO CORPO FEMININO
Num tempo em que o corpo parece ter voltado ao centro da política, este é um livro
que recupera o conjunto de sentidos produzidos em torno do corpo da mulher no regime do «Estado Novo». Agora em edição revista, escrutinamos o discurso oficial e as tensões trazidas ao de cima pela luta de uma imagem da condição feminina conforme e resignada, mas também espelho de uma nova ordem. Sobre ele todas as autoridades vieram à cena prescrever, corrigir e aperfeiçoar, num diálogo constante entre a casa e a vida pública que acabou por tutelar o papel da mulher portuguesa, ainda hoje bem vivo na memória e no quotidiano da sociedade portuguesa.

Autora: Inês Brasão

Edição: Deriva e Outro Modo, Le Monde diplomatique – edição portuguesa
série LEITURAS |2017 | Preço: 11,50€ (10% de desconto para assinantes)

(QUASE XX ANOS DEPOIS)
NOTA DA AUTORA

O que mudou, afinal, passada esta vintena de anos? O corpo passou para o
centro da política. É, a nível global, o motivo de incontáveis artigos de imprensa e
intervenções nas redes sociais. Na academia, ganham peso – e bem - estudos
centrados na construção da identidade, acompanhados de um ganho do estatuto da
imagem como fonte e prova de fracturas na constituição dessas identidades, presente
nos estudos culturais e pós-coloniais, entre outros. O corpo constitui o núcleo de
alguns dos mais recentes debates gerados na esfera pública portuguesa. A partir dele
se constituem manifestos de poder e resistência contra a formatação de identidades.
Assume-se que o território de poder está no corpo e é ele o elemento que se considera
o principal argumento de afronta ao poder do Estado, à lei e à moral. O encontro de
respostas para o problema da desigualdade tem vindo a ser recentrado na biopolítica,
tal como para o problema da violência. Atravessamos um tempo em que um conjunto
de forças sociais, reivindicando novos sistemas políticos, ou até mesmo a ausência de
um sistema, pensa a transformação e as novas utopias a partir de uma equação em
que o corpo enquanto propriedade do indivíduo não é alienado pelo Estado.

Para além do debate que esta nova linha de reivindicações pode e deve suscitar
– em concreto, o efeito provocado por uma parte da mobilização ideológica e social
dos indivíduos ter vindo a perder terreno na luta de classes e direitos do trabalho,
ganhando nos direitos do corpo – este livro permite pensar que o processo de
governabilidade das identidades individuais assimilada à governabilidade do Estado
está longe de ser linear. Também no passado o corpo esteve no centro do discurso de
uma classe dominante, assumindo a construção do papel de género como fundamental para uma ideia de nação e, na altura, elidindo a existência de um país cuja composição social era terrivelmente desigual e afastado entre si. O corpo está, neste sentido, directamente ligado à política e, hoje como no passado, com razões e implicações sobre as quais é urgente reflectir, associa o nascimento de uma nova ordem física a uma nova ordem política e social.

O machismo e a violência de género nos comportamentos de homens e
mulheres portugueses é resultante de forças perenes de inculcação dos modos de ser
homem e mulher guiados pelas estruturas discursivas do poder. Depois da leitura
deste livro, espero que não restem dúvidas acerca das raízes de uma ideologia
perfeitamente devastadora em relação ao papel de cão de guarda atribuído à mulher,
nada mais, nada menos que uma mulher-ser-silêncio. Essa ideologia não esteve – em
absoluto – centrada no Estado. Foi promovida por muitos outros sectores da sociedade
e contou com uma forte regulação intra-género, mas onde é possível encontrar
resistência também a partir do Estado. Se dos sistemas de vigilância do corpo fazem
parte as políticas de assistência e saúde, é impossível negar o papel de determinadas
políticas na prestação de cuidados de saúde, higiene e conhecimento de si, debelando
assimetrias na probabilidade de sobrevivência e na discriminação sobre
comportamentos moralmente sancionados, também neste período.

O Estado Novo travou, e atrasou, a formação de uma relação do eu para com o
seu corpo. Às boas mulheres boas portuguesas pugnou que guardassem o sexo,
disciplinassem o sexo e silenciassem o sexo, mas consentindo o machismo adúltero e a
mulher- mercadoria. Ainda hoje teremos uma noção pouco esclarecida do impacto
causado por estas formas de repressão da sexualidade na formação das mentalidades.
O mesmo se pode dizer sobre a ideologia de cercamento da mulher ao espaço privado,
negando-lhe o acesso ao trabalho. O corpo da mulher trabalhadora é visto como um
corpo contra-natura e as mulheres operárias descritas como as que vestem com um
“alentinho pobre” e desalinhadas. Talvez tenha sido este um dos aspectos da violência
histórica e social sobre as mulheres portuguesas com maior influência sobre a minha
formação enquanto sujeito político, tal como a confinamento da mulher ao espaço da
maternidade e do cuidado de outros. Não deixa de ser oportuno citar aqui a obra de
Maria Archer pela resistência persistente ao figurino da mulher-esposa-mãe-prenda do
lar, durante os anos da ditadura.

Conhecer os discursos sobre o corpo feminino produzidos no contexto do
Estado Novo é também tomar consciência do quanto este agiu eficazmente na
produção da diferença e da distinção social. A educação das boas maneiras serviu
novas necessidades de diferenciação das elites (letradas, aristocráticas, burguesas) em
relação a outras classes, operando no sentido de uma maior contenção e repressão e
da expressão pública de certas funções físicas. A construção desta ética corporal
operou uma nova economia afectiva dominante, fracturando internamente o género,
e tornando mais claros os sistemas de classificação e identificação de classe.