Encontro internacional junta três mil anarquistas na Suíça

Mais de três mil anarquistas de todo o mundo encontraram-se de 8 a 12 de Agosto em Saint Imier, Suíça, para o encontro internacional do anarquismo e aquele que terá sido o maior encontro das últimas décadas. O evento marcou os 140 anos do primeiro congresso anti autoritário, que tornou Saint Imier num dos berços do movimento anarquista.

Cinco dias de debates, exposições, filmes, concertos, workshops, que cobriram temas como anarco-sindicalismo, squats e centros sociais autogeridos, violência e não-violência, decrescimento, direitos dos animais, feminismo, imigração, desporto, o 15m... Debates que por vezes, de tanto encherem as salas disponíveis, tiveram de tomar as ruas.

Os participantes vieram dos cinco continentes, e tal se espelhou na geografia dos debates: desde a história e actualidade do anarquismo no Chile aos protestos anti nucleares no Japão. Muitos companheiros aproveitaram o encontro para uma partilha de experiencias de luta nos países eurpeus mais afectados pela austeridade capitalista e estatal, como Portugal, Espanha e Grécia.

Partilhou-se muita informação sobre a história e a actualidade do anarquismo no brasil (como no Rio de Janeiro e em São Paulo, 1 e 2), com muitos companheiros brasileiros a marcarem presença, e na américa latina.

A par da conferencia decorreu o congresso da Internacional das Federações Anarquistas , que contou também com a presença de companheiros da secção portuguesa da Associação Internacional d@s Trabalhad@res.

**
Em St Imier, várias placas informativas referem os momentos em que história da localidade se cruzou com a história do movimento anarquista, e na rua principal, desde os anos 80, o Espace Noir, centro social e cultural anarquista com bar, cinema e exposiçoes, tornou-se um espaço incontornável.

Os milhares de participantes, de todas as idades e aparências, foram bem recebidos pela população da pacata localidade, onde a imigração portuguesa – a dos anos 70 como a de agora mesmo – está bem presente. Dezenas de jornalistas de meios de comunicação comerciais suiços e europeus cobriram de forma positiva o evento.

Várias cozinhas autogeridas, vindas da Holanda e da Alemanha, onde todos davam uma mão, proporcionaram milhares de refeições veganas, para as quais cada um contribuia com donativos segundo as suas possibilidades. Uma enorme feira do livro expunha milhares de publicações em várias línguas.

Se o comité organizador, que tornou todo o evento possível, era demasiado fechado e até hierárquico para alguns, e propunha um formato clássico de conferência, foi notável como a espontaneidade e autogestão tomaram também conta do evento. Surgiram acampamentos e cozinhas alternativos autogeridos, dezenas debates e conversas à margem do programa oficial, traduções espontâneas para várias línguas na grande maioria dos debates, uma “awereness team” e um espaço seguro para pessoas vítimas de descriminação, e até uma acção directa que travou a venda de carne no espaço principal do evento, e que, se indignou muitos dos participantes, também fez muitos dos anarquistas serem confrontados pela primeira vez com a questão dos direitos dos animais.

A repressão policial a que tantos participantes estão habituados não marcou presença. O espaço era de encontro e partilha e não houve acções durante o evento, a polícia manteve-se afastada de Saint Imier e todos os problemas foram resolvidos internamente. No entanto, ao regressarem do encontro, dois companheiros foram detidos em Inglaterra e sujeitos à repressão da polícia contra-terrorista .

**
Este "Mundial do Anarquismo" foi uma comemoração referente à primeira Internacional Antiautoritária, organizada em 1872 em resposta à Internacional Marxista. Após a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) em 1864, várias seções foram criadas no Jura suíço, região que recebe uma visita de Bakunin em 1869. A convergência de ideias irá tornar a Federação do Jura o pólo libertário da AIT, que se opôs à ala marxista. Marx fez o possível para eliminar esta corrente e, em 1872, no Congresso de Haia, conseguiu que se votasse a exclusão permanente de Bakunin e James Guillaume. As secções de tendência antiautoritária da AIT, notadamente Espanha, Itália, França, Bélgica, Estados Unidos, organizaram então um Congresso em St. Imier, onde foram tiradas resoluções claramente libertárias. A AIT antiautoritária sobreviveria ao impacto marxista até o final do século.

140 anos depois, história e actualidade, teoria e prática, cruzaram-se em Saint Imier. Numa altura em que as populações da europa sofrem sob as medidas de austeridade e a catástrofe ambiental segue inalterável, os anarquistas afirmam que o capitalismo e o estado são a própria crise, e mostram a actualidade gritante das suas lutas e ideias.

Algumas fotos do evento

Encontro internacional junta três mil anarquistas na Suíça
PublicarMelodias