A contemporaneidade zapatista num fim do mundo

Os tempos são novos já sabemos. Sentimo-lo. Mas os tempos são velhos também, diz-nos o anjo da história de Walter Benjamin. Conhecemos as nossas vitórias e as nossas derrotas. Podemos viajar no tempo até às barricadas, aos motins, às ruas, terras e fábricas ocupadas, discutir com este ou aquele cadáver os detalhes do seu pensamento e do seu desejo de viver livre. Se há coisa que não podemos hoje é invocar ingenuidade, afirmar que não estamos preparados, que não sabemos o que aí vem.

O tempo passa e a história desdobra. Há dez anos, talvez há vinte ou mesmo trinta, que é anunciada uma crise na acumulação do capital. Nos últimos anos a crise ganhou um certo tipo de realismo: os patrões deixaram de querer pagar salários, o estado social é considerado desnecessário e a polícia voltou a disparar. Há dez anos, talvez há vinte, começaram a acontecer coisas interessantes: os zapatistas puseram um passa-montanhas que não mais saiu das ruas. Não foi o reaparecimento da fatigada guerrilha, antes o ressurgimento da dissidência e negação.

Quando vemos agora, no dia marcado para o fim do mundo, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) depois de anos mais silenciosos voltar à rua de cara tapada com 40 mil homens, mulheres e crianças dispostos em colunas, para uma marcha silenciosa, e lançando um lacónico e brevíssimo comunicado - “Escutaram? É o som do mundo deles desmoronando. E do nosso ressurgindo” – não podemos senão sorrir.

Um exército que significa sobretudo a organização de uma comunidade, um programa político que é a construção da autonomia na selva e nas aldeias dentro dessa selva, uma narrativa sobre o mundo, a democracia, liberdade e justiça que chega a todos os cantos desse mundo e define a resistência contemporânea. Meios que são já os fins. O sucesso de uma estratégia de auto-organização de base e a crítica implícita à impotente esquerda representativa e institucional.

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