A batalha pelas ocupações em Atenas

A luta contra o despejo das casas ocupadas na Grécia intensifica-se, à medida que mais ocupações são atacadas e dezenas de pessoas são detidas. Por Thrasybulus

As dúvidas relativamente ao considerável e sustentado ataque do Estado grego contra as casas ocupadas e o movimento anarquista em geral parecem agora dissipar-se. Nas últimas semanas, para além de Villa Amalias, duas outras ocupas [ocupações] do centro de Atenas foram atacadas por forças policiais, no que poderá constituir o início de uma operação mais ampla. Um relatório oficial (veja aqui) então divulgado indicia um plano policial de ataque a 40 ocupas em todo o país. Contudo, após os acontecimentos dos últimos dias, restam igualmente poucas dúvidas sobre as batalhas que a polícia terá que travar por cada edifício, caso o plano venha a ser executado.

O despejo de uma das mais antigas ocupas de Atenas, a Villa Amalias, no dia 20 de Dezembro, constituiu o primeiro ataque, seguido, pouco tempo depois, por um assalto a um outro prédio ocupado, conhecido como ASOEE. Após a tentativa de reocupação de Villa Amalias, a 9 de Janeiro, a ação da polícia visou a ocupa Skaramanga.

Um relatório oficial divulgado pelos meios de comunicação social [mídia] gregos sugere que a próxima etapa desta operação teria como alvo cerca de 40 edifícios ocupados em todo o país. O ataque à Skaramanga estaria planeado para uma data posterior, tendo sido antecipado como forma de retaliação contra a reocupação de Villa Amalias. Ao invés de assaltos isolados, os acontecimentos da semana passada parecem fazer parte de uma estratégia de repressão contra o movimento anarquista na Grécia.

A inquietação social desencadeada pelas contínuas medidas de austeridade levou, nos últimos anos, a um incremento das ideias e das ações de resistência no país. Ao longo dos últimos meses, as táticas repressivas contra qualquer fração da sociedade que dê mínimos sinais de resistência têm sofrido um claro aumento: ataques contra trabalhadores em greve, prisão de jornalistas responsáveis por denúncia de corrupção, 60 000 detidos em rusgas anti-imigração e a mobilização de novas armas, como canhões de água, por exemplo. Os últimos ataques evidenciam as ocupações como o novo alvo da repressão estatal.

Perante tal, as pessoas não têm demonstrado passividade, fazendo frente na defesa das ocupações e das suas comunidades. Os acontecimentos de 9 de Janeiro foram, definitivamente, os mais dramáticos e impressionantes. Na madrugada, apesar da presença policial, dezenas de pessoas conseguiram reentrar no edifício, numa ousada tentativa de reocupação de Villa Amalias. Contudo, o rápido envio de substanciais reforços policiais conduziu a uma nova invasão do edifício, tendo cerca de 100 pessoas sido detidas e dirigidas para a sede da polícia. Ao longo da operação, a palavra de ordem «A paixão pela liberdade é mais forte do que as prisões» não deixou de ser ouvida. Num comunicado escrito pelos detidos, a sua determinação e insistência face à repressão é claramente manifesta:
“Reocupámos a Villa Amalias com a consciência de que seríamos atacados e, como é óbvio, detidos. Faremos tudo de novo, quantas vezes forem precisas, por este ou por qualquer outro espaço social de resistência sob ataque. Repetimos incessantemente: nem as suas armas nem as suas calúnias nos assustam».

À medida que se espalhavam as notícias sobre o ataque da polícia às ocupações, diversas ações tiveram lugar por toda a cidade. Os escritórios do partido do governo DIMAR foram temporariamente ocupados em solidariedade, tendo a resposta policial provocado 40 detenções. Os protestos deslocaram-se então para o centro de Atenas, aonde gás lacrimogéneo foi disparado com o objetivo de retirar pessoas do edifício do Ministério das Finanças. Nessa altura, a ocupação Skaramanga sofria um novo assalto, responsável por mais 8 detenções. Ao longo do dia, decorreram vários protestos, concentrações e assembleias em solidariedade com as ocupações e com os detidos. No final da noite, a polícia viria ainda a invadir o bairro do Exarchia, encarado como uma espécie de espaço autónomo. O número total de detidos alcança os 150, o maior número de anarquistas presos num só dia nos últimos 15 anos. Muitos deles enfrentam processos judiciais, inclusive os 92 da Vila Amalias que no momento da publicação ainda estão detidos nos quartéis policiais.

Parece assim confirmar-se o início de um novo e perigoso ciclo. O Estado selecionou o seu novo alvo, levando as pessoas a imaginar quem será o próximo a ser atacado. No entanto, ao invés de medo, a resposta tem sido audaz, acompanhada por mais fortes laços de solidariedade. Os acontecimentos do dia 9 de Janeiro demonstram como as pessoas não estão a baixar a sua cabeça, mas sim a resistir de forma coletiva. A comunidade de Villa Amalias não foi destruída. À luz destes eventos, o plano policial de ataque a dezenas de outras ocupações parece ser, de repente, bastante ambicioso, uma vez que vão ter que lutar por cada uma delas. Nas palavras dos detidos (veja aqui):

«Contra o furação da repressão, lancemos uma tempestade de solidariedade!».

Com arranjos do colectivo editorial do cmi-pt (a nível de links) a partir de publicação livre

Actualizações constantes (em português) em http://pt.contrainfo.espiv.net/

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