Desconstruir a propaganda miserabilista e mesquinha contra os ‪refugiados

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As histórias que nos chegam das pessoas que fogem da guerra na Síria são trágicas, cheias de horrores e mortes. Mas não contam tudo e criou-se um espaço para espalhar boatos, mentiras e medos injustificados.

REFUGIADOS RECUSARAM AJUDA DA CRUZ VERMELHA POR MOTIVOS RELIGOSOS
O próprio autor das filmagens já veio opor-se à interpretação feita por guerreiros do teclado de que a recusa tinha por base motivos religiosos. Este relata que os refugiados tinham passado três dias em terra de ninguém na fronteira entre a Macedónia e Grécia. Á hora da filmagem, haviam passado duas horas debaixo de chuva torrencial sem que a polícia Macedónia permitisse a passagem. Quando a Cruz Vermelha trouxe comida e água, os refugiados recusaram como forma de resistência passiva. Este relato também foi confirmado pela Cruz Vermelha, que diz que em situações normais, as ajudas são aceites sem problemas
http://bit.ly/1KAeBwe | http://bit.ly/1KAeBwe

ENTRE OS REFUGIADOS ESTÃO TERRORISTAS INFILTRADOS
Esta teoria baseia-se nas declarações de um dos governos Líbios (lembrando que de momento a Líbia é um Estado falhado que está dividido em dois governos em conflito, cortesia da NATO, o que exacerba o problema dos refugiados), assim como de outros governos regionais como o Egípcio e Tunísio - todos eles governos com interesse em receber mais apoios para as suas lutas locais contra elementos islamistas e portanto com tendências imaginativas no que toca a perigos de segurança. Este artigo da BBC é particularmente elucidativo da fiabilidade deste mito, ao relatar que os militantes do ISIS se misturam com os refugiados, e uns parágrafos abaixo indicar que estes afinal não se misturam com os refugiados.

Na verdade, o ISIS teve até agora a capacidade de recrutar dentro da Europa, importando combatentes para as suas lutas no Médio Oriente e Norte de África. Essas lutas estão a correr pior do que há uns meses atrás, pelo que fica a interrogação do porque o ISIS decidir agora inverter o fluxo de combatentes para terreno hostil onde não terão apoio logístico quando já dispunha de carne para canhão em terreno europeu e na hora em que mais precisa deles. Os últimos números específicos que conseguimos encontrar (e portanto apontam para baixo) são de 30 de Agosto de 2014 e indicam que 2.260 potenciais combatentes tinham partido de países europeus. Fora da Europa, a maior parte veio da Tunísia (3.000) e alguns também da Líbia (556) e Egipto (358), os tais países com interesse em empolgar a ameaça.

Este argumento também revela profunda ignorância sobre as origens dos refugiados. A Síria era um estado secular em que 28% da população era de outras denominações que não muçulmana sunita e fogem à destruição causada pelos selvagens da ISIS. Pensar que estes acolheriam no seu seio o ovo da serpente é risível.

EUA FINANCIAM A IMIGRAÇÃO MACIÇA PARA A EUROPA
De onde vem esta informação? O artigo original é assinado por sujeito chamado Pierre-Alain Depauw. Pierre-Alain Depauw é o pseudónimo de um padre fundamentalista católico, anti-semita, anti-comunista e de extrema-direita que escreve regularmente num site chamado medias-presse.info. Outros dos seus tópicos recorrentes: expor conspirações para tornar os rapazes europeus gays e contos sobre muçulmanos emigrantes negros que violam mulheres brancas
http://bit.ly/1UwQEKS

DEFENDEM OS REFUGIADOS MAS NÃO DEFENDEM X E Y
Também se tornou moda partilhar posts miserabilistas que criam uma falsa escolha entre ajudar refugiados e ajudar portugueses que caíram na desgraça com a crise. Muitos destes posts, a que não vamos dignar links, são veiculados por fontes de extrema direita que pretendem criar a ideia de que há que escolher entre os “nossos” e os “outros” e que quem não ajuda os nacionais também não tem direito a falar em ajudar os estrangeiros. Isto ignora o facto de que muitas vezes as mesmas pessoas que procuram ajudar os refugiados também lutam longa e arduamente por ajudar todos os portugueses em dificuldades, sendo aliás essa a norma e não a excepção. Ao contrário dos guerreiros do teclado, cuja única contribuição regular é postar merda hipócrita no Facebook.

De facto, todos os portugueses que sofrem têm mais em causa com os refugiados do que com qualquer “nação” e os seus líderes. Pois não foram os mesmos responsáveis pela crise os responsáveis por destruírem as regiões de onde agora fogem os refugiados? Agora é muito conveniente virar as vítimas umas contra as outras. Até já têm intenções de usar o pretexto de defender os refugiados como desculpa para novas intervenções militares (porque as primeiras, que criaram todo este drama, correram tão bem).

PORQUE TEMOS DE RECEBER REFUGIADOS QUANDO PAÍS X E Y NÃO O FAZEM?
Se estamos a falar dos países ricos do Golfo (Arábia Saudita, Qatar, etc.), a resposta é simples: são eles que pagam as contas do ISIS para que ataquem Estados que se lhes opõem na região, pelo que não é de espantar que também se estejam a borrifar para os danos colaterais na forma de vidas destruídas.

Mas vamos aos números: total de refugiados - 4.088.099, dos quais 348.540 pediram asilo na Europa.

A ‪Turquia‬ abriga 1,9 milhões de refugiados, o seu produto interno bruto é de 799 mil milhões de dólares, o rendimento per capita é de 10.850 dólares.

O ‪‎Líbano‬ abriga 1,2 milhões de refugiados, o seu produto interno bruto é de 45 mil milhões de dólares, o rendimento per capita é de 9.880 dólares.

A ‪‎Jordânia‬ abriga 650 mil refugiados, o seu produto interno bruto é de 35 mil milhões de dólares, o rendimento per capita é de 5.160 dólares.

O ‪‎Iraque‬ abriga 249 mil refugiados, o seu produto interno bruto é de 220 mil milhões de dólares, o rendimento per capita é de 6.410 dólares.

O ‪‎Egipto‬ abriga 132 mil refugiados, o seu produto interno bruto é de 286 mil milhões de dólares, o rendimento per capita é de 3.280 dólares.

‪‎Portugal‬ abriga 0 refugiados, o seu produto interno bruto é de 229 mil milhões de dólares, o rendimento per capita é de 21.320 dólares.

http://bit.ly/1jsBiUu | http://bit.ly/1NRhG8l | http://bit.ly/1KvPB9p | http://bit.ly/1eRbn2E | http://bit.ly/1K0Nzrh

Como podemos ver, há bastantes países pobres que já receberam muitos mais refugiados que a Europa inteira se propõe a deixar entrar. O argumento económico é peta. Se há gente pobre na Europa, a culpa deve ser colocada aos pés do capitalismo, não de refugiados desesperados a fugir de guerras.

Refugees Welcome - Acções no Porto, Lisboa, Faro, Coimbra a 12 de Setembro

25 OUT - bomPorto - concerto para os refugiados - Hard Club

O que se passa nos países de onde saem as pessoas que chegam à Europa

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Comentários

10 razões para não querer refugiados sírios em Portugal

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