Nato: Uma lança em África

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O Trident Juncture 2015 é um exercício militar da Nato de alta intensidade e alta visibilidade que se iniciou a 28 de Setembro e se prolonga até 6 de Novembro. Divide-se em duas fases. Uma, chamada CPX (Command Post Exercise), que se resume a gabinetes. Outra, de nome LIVEX (Live Exercise), que se desenrolará no terreno, com ensaio de várias operações navais, aéreas e terrestres, de desembarques a acções em ambiente urbano. Esta fase contará com 200 aeronaves, 50 navios de guerra e cerca de 36.000 efectivos de 28 estados da Nato e 5 nações parceiras e decorrerá em Espanha, Itália, Portugal, Mediterrâneo, Oceano Atlântico e também Canadá, Noruega, Alemanha, Bélgica e Holanda. Trata-se, de acordo com o Estado-Maior-General das Forças Armadas, do “maior exercício da história da NATO pós Guerra Fria e o evento de maior visibilidade realizado em 2015, envolvendo toda a estrutura de comando da Aliança” (1).
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Trident Juncture 2015

Este exercício é o corolário de anos de preparação baseada no conceito estratégico aprovado em Lisboa, em 2010, onde a Nato deixou oficialmente de ser uma aliança meramente defensiva. A cimeira de Chicago, em 2012, instarou a Connected Force Initiative (CFI). Dois anos mais tarde, em Gales, o Readiness Action Plan instituiu a Força de Intervenção Rápida (força de 5.000 efectivos capazes de, em 48 horas, se mobilizarem para responder a situações de crise a Leste e a Sul da Nato) e decretou seis medidas-chave dentro da CFI. Uma delas era a realização das manobras Trident Juncture 2015.

O cenário deste jogo de guerra é um conflito entre dois países fictícios por causa de questões relacionadas com água. Na disputa, um dos países invade outro e, pela lógica da Nato, é altura de intervir. Em nenhum momento é levantada a hipótese da nação invadida ser membro da Aliança Atlântica. Apesar disso, Aguiar Branco não se inibe de afirmar que o “cenário do exercício demonstra uma natureza defensiva das actividades da Aliança” (2).

Uma mistificação que nem sequer está presente nas palavras da própria Nato, que afirma que o cenário permite uma “Operação de Resposta a Crises fora da área, não Artigo 5 [artigo que instaura a resposta militar da Aliança em caso de agressão a qualquer estado membro – N.T.], para parar uma guerra fronteiriça antes que se expanda a toda a região.” (3) No mesmo texto, também se pode ler que se pretende confrontar as forças da Nato com um “espectro amplo de ameaças convencionais e não convencionais, incluindo a guerra híbrida”.

Guerra total

“Guerra híbrida” é um conceito escorregadio. Tão escorregadio que tende a resvalar para um outro, o de guerra total, que se alastra a todos os aspectos da sociedade. As referências a “ambientes urbanos” nos documentos do Trident Juncture 2015 deixam antever que também se treina a presença do exército nas ruas, fora e dentro dos países da própria Nato para quando a polícia, eventualmente, deixar de ser suficiente para conter multidões.

Um conceito escorregadio que inclui, como parte do exercício, uma batalha de narrativas, ou seja, “trabalhar num ambiente informativo arriscado tanto nos países da Nato como na região em que a intervenção terá lugar” (4). O convite a várias ONGs (5) para participarem deve ser visto a essa luz. Com o objectivo afirmado de melhorar a interacção entre a Nato e actores civis essenciais, trata-se, afinal, duma espécie de botox pacifista que pretende legitimar uma prática imperialista, aproveitando para integrar algumas instituições na sua estratégia militar, impondo-lhes a sua lógica.

Um treino militar com uma visibilidade que se pretende dissuasora. Com um enfoque em intervenções fora do espaço da Aliança. Com cuidados de relações públicas. E com “um cenário artificial e fictício que tem lugar em SOROTAN, que é algo como uma parte de África”, nas palavras do general Hans-Lothar Domröse (6).

Objectivo: África

De facto, mais do que demonstrar força perante a Rússia e de treinar conjuntamente forças da Nato e da Ucrânia (que participa neste exercício), é de África que se trata. O continente rico. O continente que o Ocidente está a perder economicamente para a China e que pretende dominar militarmente. O continente com mais potencial de exploração. Em que as guerras pelos recursos se tornarão ainda mais inevitáveis depois disto. E em que as alterações climáticas serão razão de migrações e conflitos, desafio a que a Nato decidiu dar atenção pelo menos a partir da cimeira de Lisboa (7).

Ou seja, o objectivo central destes exercícios é treinar intervenções militares no continente africano. Para promover uma escalada militar que mais não fará do que potenciar novos conflitos e garantir uma fatia de leão na exploração de recursos para as empresas ocidentais. Recursos esses que não são de desprezar. África tem, por exemplo, um terço das reservas mundiais de minérios. Para além disso, apenas 12 das 54 nações africanas não têm hidrocarbonetos, havendo ainda zonas quase inexploradas. Mesmo nos locais considerados maduros há uma vastidão enorme de território que ainda promete esconder recursos.

O alegado voltar de atenções para Sul poder-nos-ia fazer pensar unicamente no norte de África. A realidade vai mais longe. De acordo com o general Breedlove, citado por Manilo Dinucci (8), “os membros da NATO desenvolverão um grande papel no Norte de África, no Sahel e na África Subsahariana”. Com o mundo ocidental a cuidar de dar uma resposta policial e militar ao que chama “crise de refugiados”, não nos espantemos de, em breve, ver a Nato em acção no afastamento dos requerentes de asilo para longe da vista dos europeus, contendo os fluxos migratórios na origem ou, pelo menos, em locais ainda não visíveis a partir de dentro da fortaleza.

Como habitualmente, os discursos oficiais chegam tão carregados de pacifismo que nem parecem ter origem no maior e mais agressivo exército mundial. De qualquer forma, não se esconde que se pretende fazer treino militar para testar a CFI e, sobretudo, a Força de Intervenção Rápida. E ninguém com alguma independência poderá deixar de notar que a mensagem central se mantém: é possível fazer a paz através da guerra. Uma mensagem que não cabe na imagem que o Ocidente quer dar de si próprio quando anuncia treinos de invasão ao mesmo tempo os varre para debaixo do tapete da retórica da “defesa colectiva”.

O papel de Portugal

Para além de ser território em que estes jogos de guerra se vão desenrolar, Portugal tem tido e continuará a ter um papel fundamental no Trident Juncture 2015. Com os objectivos declarados no despacho do primeiro-ministro em Diário da República (despacho nº 5472/2015, de 5 de Maio). Por exemplo o de “sedimentar a imagem externa de Portugal e, no âmbito do Fórum da Indústria da OTAN que decorrerá em paralelo ao exercício, promover a internacionalização das empresas nacionais e criar um ambiente favorável à atração dos agentes económicos estrangeiros pelo mercado português”.

Nas diferentes fases de preparação do exercício já decorreram diversas actividades em Portugal, algumas de grande dimensão como uma reunião em Maio último de 291 representantes de 28 países, onde o desenho militar desta operação começou a ser definido. É preciso ainda notar que foi a diplomacia conjunta de Portugal, Espanha e Itália que acabou por determinar a estrutura final do Trident Juncture e a sua localização na bacia mediterrânica.

A participação no terreno é ambiciosa, de acordo com um comunicado do governo, de 2 de Julho, onde se afirma que “além dos militares que participam diretamente no exercício (940 integrados na Força de Reação da NATO 2016 e 2220 nos meios complementares), Portugal disponibilizará ainda mais 3000 militares que funcionarão como forças de apoio, totalizando em cerca de 6000 os efetivos portugueses envolvidos neste exercício. Em Portugal, o exercício (…) mobilizará mais de 10 mil efetivos de 14 países participantes.”

As operações aéreas concentrar-se-ão em Itália e as terrestres em Espanha. Em Portugal (9) decorrerá maioritariamente a componente marítima. Com bases em Santa Margarida/Tancos/Alter do Chão, Pinheiro da Cruz/Tróia, Base Aérea n.º 11 de Beja e o porto de Setúbal como placa fundamental. De acordo com o Correio da Manhã (10), o “exercício inclui ainda três dias compostos por cerimónias que contam com a presença de vários visitantes. O primeiro dos quais terá lugar em Itália, a 19 de outubro, e o segundo a 04 de novembro, em Espanha. Portugal receberá o dia dos visitantes ilustres a 05 de novembro, que juntará chefes militares da NATO e chefes militares portugueses”.

Um empenho impressionante que não se esgota em jogos de guerra. Antes se estende para o tabuleiro dos negócios, promovendo um fórum onde empresas que lucram com a guerra podem apresentar as suas novidades e discutir formas de criar novos nichos de mercado para as suas novas ferramentas repressivas. Fórum (11) que decorrerá no Hotel Pestana Palace, em Lisboa, nos dias 19 e 20 de Outubro.

Resistência

As manobras Trident Juncture 2015 são o reflexo das prioridades do mundo rico. E não podem deixar de ser contestadas por quem pugna por um planeta de paz. Nesse sentido, as movimentações da Nato não passarão sem contestação. Um documento (12) conjunto da Alternativa Antimilitarista.MOC e da Rede Antimilitarista y Noviolenta de Andalucía, convida a acções descentralizadas e promete desobediência civil para Barbate, de 30 de Outubro a 3 de Novembro (em frente ao Campo de Treino Anfíbio da Serra do Retín), e actos de protesto para Saragoça de 3 a 6 de Novembro (“o Campo de San Gregorio será de novo o protagonista da barbárie militarista”). Também em Itália há um mês de protestos contra a Nato e um apelo (13) a uma coordenação internacional de acções.

Em Portugal, apesar de toda a importância que a estrutura militar e política lhes dá, as manobras da Nato não despertaram mobilizações visíveis. Apenas o Conselho Português para a Paz e Cooperação tem feito algum trabalho de oposição, tornando público um documento onde expressa o seu “mais expressivo repúdio” pelas Trident Juncture 2015, organizando debates e recolhendo assinaturas num abaixo assinado onde se exige a “dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança coletiva, com vista à criação de uma nova ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos”.

Notas:

1 goo.gl/n82o8l ↩
2 goo.gl/sqXnTU ↩
3 goo.gl/tbuLx9 ↩
4 goo.gl/tbuLx9 ↩
5 Por exemplo, Comité Internacional da Cruz Vermelha, Save the Children, Assistência Médica Internacional, Human Rights Watch. ↩
6 goo.gl/YS4DcM ↩
7 goo.gl/FwXA0q ↩
8 goo.gl/7bh4Ei ↩
9 Para uma ideia das actividades em Portugal, ver: goo.gl/NMJ9xu ↩
10 goo.gl/dTqy2P ↩
11 goo.gl/LlQ4R2 ↩
12 goo.gl/LlQ4R2 ↩
13 goo.gl/v4SqL0 ↩

Nato: Uma lança em África

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