Advogado de um dos detidos frente ao Parlamento fala em "ilegalidades"

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O presidente do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados, Vasco Marques Correia, diz que foram cometidas "ilegalidades que não são próprias de um Estado de Direito" nas detenções feitas na quarta-feira, na sequência dos distúrbios em frente ao Parlamento.

Marques Correia falava aos jornalistas à entrada do Campus de Justiça, no Parque das Nações, em Lisboa, onde chegou por volta das 10h10 para acompanhar o seu constituinte, um dos nove detidos na quarta-feira à noite pelos crimes de resistência e coação, desobediência e posse de arma proibida, após a manifestação convocada pela CGTP.

A audiência estava marcada para as 10h no Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa, num julgamento sumário, mas às 16h ainda não tinha começado.

"Fui chamado à 1h30, porque ocorreram ilegalidades que não são próprias de um Estado de Direito", sublinhou Marques Correia, que representa um homem com cerca de 20 anos, estudante, que estava pela primeira vez numa manifestação. Segundo o advogado, o homem esteve detido "ilegalmente" entre as 19h de quarta-feira e as 8h desta quinta-feira, no Hospital de S. José, onde foi "sujeito a internamento hospitalar devido à gravidade das lesões".

De acordo com Marques Correia, o homem esteve sempre acompanhado por um agente policial, que não o deixou sair do hospital, nem depois de lhe ter sido dada alta. Uma vez que o período máximo para este tipo de detenções é de seis horas, o advogado diz que a detenção foi "ilegal". E acrescenta: "Não sabemos sequer os factos que lhe são imputados".

O advogado deslocou-se durante a madrugada à esquadra da PSP no Calvário, para perceber o que se tinha passado com o seu cliente, mas foi-lhe barrada a entrada na esquadra. Aos jornalistas, Vasco Marques Correia disse que houve uma "pressão de policias" no Hospital de S. José. "Os polícias que lá estavam tiveram, do ponto de vista cívico, uma intervenção absolutamente irrepreensível. Agora a situação objectiva é esta: houve uma pessoa que esteve 13 horas detida no hospital. E quando cheguei à esquadra do Calvário barraram-me num primeiro momento a entrada, não obstante estar identificado. É inadmissível", afirmou o advogado.

A PSP também identificou um menor, que só não foi detido por lhe faltarem 14 dias para completar os 16 anos. Também irá responder pelos crimes de resistência e coação, desobediência e posse de arma proibida, mas será presente ao Tribunal de Família e Menores.

A PSP identificou mais 20 pessoas, suspeitas de terem participado nos distúrbios em frente à Assembleia da República, em dia de greve geral promovida pela central sindical CGTP. Estes manifestantes terão atirado pedras contra o contingente policial ali montado e incendiado caixotes do lixo, o que motivou uma carga policial.

A polícia está a procurar imagens e testemunhos que possam identificar os autores dos distúrbios, para proceder depois à constituição como arguidos. Dos confrontos resultaram 48 feridos, entre manifestantes e polícias.

Detidos têm entre 20 e 65 anos
Os detidos são acusados de arremessar pedras e garrafas contra a polícia. Alguns admitem-no, dizem que aparecem nas imagens recolhidas pela polícia. Outros garantem que não participaram nos actos de violência. É o caso de um estudante de 23 anos que prefere não se identificar. Enquanto reconstitui aqueles momentos em frente à Assembleia da República, vai repetindo que esteve o tempo todo a filmar o protesto e a polícia a carregar nos manifestantes. Até que um polícia lhe fez cair o telemóvel das mãos.

Detiveram-no. "Depois disseram que tinha estado a atirar pedras." Já na esquadra, algemado, puseram-lhe a mascara dos Anonymous que tinha na manifestação para a fotografia, contou ao PÚBLICO enquanto aguardava pela audiência.

Outro jovem, de 21 anos, não tira os óculos escuros que escondem um hematoma num olho. Só depois de sair da esquadra, às 2h, é que pôde ir ao hospital. Todos repetem a sua história: quando foi detido em frente ao Parlamento pediu gelo, disseram-lhe para esperar e não voltaram. Todos contam também que foi agredido na esquadra. "Despiram-me por causa de uma moeda de 20 cêntimos, eu disse que não tinha mais nada nos bolsos." Foi na casa de banho, ninguém assistiu. "Depois bateram-me nos rins, na nuca... estavam furiosos comigo, apareci muito nas filmagens, a atirar pedras."Entre os detidos, que têm entre 20 e 65 anos, está um homem de 64 anos, antigo jardineiro da Câmara de Loures, agora reformado. Diz sem problemas que foi detido porque estava a atirar pedras, "como bolas de pingue-pongue". Antes dos tumultos tinha estado no piquete de greve, com "outros camaradas". Quando foi detido já o colete da CGTP estava na mochila, diz. Não se esquece do que lhe disse um agente pouco depois, que reproduz: "Você tem idade para ser meu avô. Da minha parte está perdoado, mas se fosse mais novo já estava arreado."

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