O tabu da violência

de Luís Raínha
http://www.ionline.pt/opiniao/tabu-da-violencia

Salazar ficcionou a cómoda brandura dos nossos costumes. Franco, camarada ibérico de barbárie, resumiu-nos como uma nação de cobardes. Governo após governo apostaram no comodismo que nos levaria a preferir o resmungo clandestino às dores e ao sangue do confronto; ideia arriscada, face a um povo que tem por tradição enfrentar touros de mãos nuas.

No dia 14, a aposta começou a esgarçar-se sob uma chuva de fogo, pedras e fúria. A resposta policial foi vista pelo bom senso do costume como inevitável, exemplar até. Sempre ordeiras, as almas consensuais tranquilizaram-nos: trata-se apenas de “uma dúzia” de de-sordeiros; malta sombria, estranha, talvez estrangeira, anarquistas, quiçá criminosos comuns, de cadastro e tudo. Haja obediência, respeitinho. O monopólio estatal da violência é coisa a venerar, pilar da ponte que vai de quem manda a quem obedece. E quando os violentos começarem a ser dezenas, milhares? E se andar por aí um rastilho subterrâneo a arder, rumo ao coração de multidões, atiçado por cada novo sopro de insensibilidade, de “ai aguentas”, de desvergonha autoritária?

Até Gandhi cartografou as fronteiras entre a cobardia e a autodefesa: “Arriscaria mil vezes a violência antes de arriscar a castração de uma raça.” E a Constituição garante-nos o direito “de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública”. Se esta se couraça e arma até aos dentes com a fúria cega de feras fardadas e bem treinadas, resta o quê?

Comentários

Não é com manifestações...

Libertario disse...

Não é com manifestações como as como temos visto, nem no contexto social em que vivemos, que alguém pode esperar tomar um mítico Palácio de Inverno ou, mais modestamente, invadir o ex-convento de S. Bento, muito menos pela íngreme escadaria principal, quando existem ruas de acesso mais cómodas...
Gritar “Juntem-se a nós” dirigido a um corpo de polícia especializado na repressão de manifestações é um processo mimético dos sonhos soviéticos de alguns, que nem sequer compreendem que não estão mais perante soldados mobilizados à força e fartos da guerra. Estas são as ilusões ingénuas de algumas vanguardas.

As manifestações esgotam-se ao fim de uma horas ante uma escadaria inacessível e perante uma força policial previsivelmente preparada e equipada para enfrentar este tipo de situações por períodos longos mesmo numa aparente inferioridade numérica. Aparente porque o número daqueles que pareciam decididos a enfrentar um confronto aberto não tem sido certamente superior ao da força de choque da polícia. Uma guerra de posições - é preciso recordar que a guerra de trincheiras acabou em 1918 - termina pela derrota e cansaço do grupo mais fraco, menos preparado, que não consegue sequer repor as suas forças. E aí ao invés do desafio verbal, ou da pequena provocação sem grandes consequências, o que poderia ser uma demonstração de força dos manifestantes era impedir a actuação dos agentes policiais à paisana, e seus provocadores, já que agem isolados, ou numa posição de inferioridade, no meio da multidão sendo por isso viável os manifestantes impedirem activamente as prisões. Para levar à letra o "direito constitucional" referido.

29 de Novembro de 2012 23:27

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