Carta aberta aos estivadores selvagens, II

Carta aberta aos estivadores selvagens, II

Caros estivadores selvagens,

Estou a escrever-vos novamente porque este é um momento especial.

Quando vos escrevi pela primeira vez, há quase 1 ano atrás, não pensei voltar a escrever-vos, pois o que dizia nessa carta era tudo o que tinha cá dentro e nada mais parecia haver a dizer a esse “vocês” colectivo. Nessa altura, e nos meses que se seguiram, viveram-se coisas que nos encheram o coração e de repente tantas pessoas se começaram a animar e a sentir que talvez, afinal, fôssemos capazes de qualquer coisa. Uma “qualquer coisa” que muitos não sabiam, nem sabemos ainda, o que é, mas que é completamente diferente do que vivemos no dia-a-dia. Algo totalmente diferente do tédio que sentimos com um jogo de computador, um programa de televisão ou uma manifestação que termina com discursos e música; totalmente diferente da miséria emocional na maior parte das nossas relações, totalmente diferente da obrigação do trabalho, do desespero do desemprego e da obsessão-compulsão dos tempos livres. Totalmente diferente da mesquinhez não só dos nossos governantes e eternos aspirantes a tal, mas também de todos os que os seguem como se de pastores se tratassem. Pensar que todo um quotidiano de merda se reduz aos problemas económicos e a uma sua solução política só pode ser reflexo de corações que deixaram de bater ao ritmo das emoções e passaram a bater ao ritmo do relógio.

A falta de dinheiro veio hoje, uma vez mais, somar-se à falta de alegria. Da mesma forma que numa sociedade onde todos tenhamos o dinheiro para comprar as coisas que precisamos para sobreviver é, ainda assim, possível perder toda a alegria de viver em actividades rituais ou impostas, nos momentos em que se luta por essa sociedade é também possível não sentirmos nada mais do que desânimo e frustração. A crise económica só é um problema porque vivemos numa constante crise relacional. Essa “qualquer coisa” de que falo é, mais do que o destino onde chegamos, o prazer da viagem até lá. “Contra o roubo das nossas vidas”, muito antes de ser aproveitada como mensagem publicitária do Bloco de Esquerda, reflectia um sentimento de rebelião contra a minha e a tua vidas serem decididas por outros que não eu nem tu. “Que as pessoas tenham a posse directa de todos os momentos da sua actividade” é um projecto que existe desde que existe a alienação das nossas vidas, a separação entre os nossos desejos e aquilo que fazemos.

Se estamos “todos” a ir ao fundo, então que nos alegremos durante o caminho! E assim foi, sorrisos que começaram a reaparecer nas manifestações, que se expandiram e partilharam, umas vezes timidamente, outras sem medo de se mostrarem. Ao que parece a noite de 14 de Novembro em Lisboa foi o momento colectivo mais bonito de que há memória. Nem o avanço policial nem as ameaças nos jornais aos suspeitos do costume conseguiram ocultar esse facto: aquilo foi uma festa! Era lógico que a defender a polícia e/ou a condenar os revoltosos tinha de haver uma resposta dos responsáveis deste estado das coisas; ninguém esperava ver responsáveis mediáticos, responsáveis políticos ou responsáveis pela segurança interna ter a irresponsábilidade de defender a insubmissão, certo? “Deus nos livre de ficarmos como a Grécia” - Cavaco Silva não estava a referir-se à pobreza, que já sentimos todos os dias, mas à resposta a ela. Até aqui tudo ia bem.

É improvável, também por uma questão lógica, que as dezenas de barricadas que ardiam simultaneamente nas ruas e avenidas em redor da Assembleia da República tenham sido obra de “meia dúzia de profissionais da desordem”. Talvez nelas se encontrassem pessoas que nunca até aí pensaram encontrar-se numa situação assim. Porque sou um cidadão cumpridor que não comete crimes, porque não gosto de confusões, porque é demasiado longínquo e improvável, porque só acontece noutros sítios e cá nunca ninguém faz nada, porque já estou velho, porque sou contra a violência, porque não muda nada façamos o que fizermos. De um momento para o outro, todas as nossas crenças podem ser fustigadas por um acontecimento fora do normal. Diga-se o que se dizer, sejamos quem formos, nesse dia milhares de pessoas impediram que a polícia detivesse fosse quem fosse, e nessa noite milhares de pessoas estavam nas fogueiras que por alguma razão não eram apagadas.

E como chegamos até aqui? Como chegamos a esta carta? Porque a partir dessa noite em que Lisboa perdeu a virgindade tudo pode ter mudado, e ninguém sabe de que maneira. Será possível que a maior alegria colectiva vivida pela única vez até hoje se torne também o maior golpe ao que levou a ela? Será possível que um acontecimento fora do normal que despoletou tantos sorrisos seja a seguir fustigado pelo medo de sorrir?

As ameaças nos jornais não apagam o passado, simplesmente o moldam e condicionam o futuro. Afinal, acusar publicamente pessoas em específico de serem responsáveis por algumas zonas de Lisboa terem finalmente parado tem de dar os seus resultados, independentemente da verdade das coisas. Que as pessoas que saem à rua, que saíram no passado ou que saiam no futuro, tenham medo umas das outras – eis o que se pretende.

Na manifestação internacional contra a nova lei portuária, de 29 de Novembro, preparada ao pormenor não só pelos sindicatos mas também pela PSP e pelos jornais, algo de novo aconteceu nas manifestações extra-CGTP. A separação entre manifestantes estivadores e manifestantes não-estivadores feita pelo serviço de ordem do SETC reproduziu, pela primeira vez, a separação entre manifestantes “comunitários” e manifestantes “extra-comunitários” feita pelo serviço de ordem da CGTP. Que essa manobra seja fruto de um clima de ameaça repressiva que pairava nos jornais não retira aos estivadores a responsabilidade de fazerem o mesmo aos não-estivadores aquilo que a CGTP vos fez várias vezes: isolá-los. E mesmo que pareça que só “os outros” foram banidos, vocês próprios foram alvo desse controlo: os repetidos apelos/avisos presentes na convocatória do SECT para a manifestação, assim como a sua teimosia em pôr a música do carro de som mais alta do que os gritos e os petardos de quem ali estava. Se o petardo é a voz dos estivadores, frente ao parlamento os Xutos falaram mais alto. O medo dos outros faz-nos ter comportamentos paranóicos, recuar para posições de segurança, não abraçar desconhecidos, abafar gritos e cânticos, acusar de infiltrado qualquer um fora do grupo... Nenhum fetiche de adoração dos estivadores que hoje em dia reina servirá para amenizar uma atitude que mais do que ter o efeito contrário do esperado (os não estivadores serem empurrados para a traseira significa que à frente os estivadores ficaram sozinhos), poderá afectar toda a luta contra a economia que se estava a trilhar colectivamente, nas ruas.

A primeira carta que vos escrevi não era uma vénia, e não me passou pela cabeça que mais tarde tantos se começassem a curvar perante vocês (bom, à excepção de quem só quer é pôr a mercadoria a circular). Quero pensar, além do mais, que mesmo vocês não acham muita piada a uma série de gente vos ter colocado num pedestal e andar sempre a dar palmadinhas nas costas, independentemente do que aconteça. Essa carta foi mais como um “brutal estarem a fazer as coisas assim!”, e uma tentativa de comunicação que, felizmente, encontrou eco. E da mesma forma o estou a fazer agora, a falar-vos (e também aos outros) do coração, porque as relações que vamos criando só valem a pena se baseadas na horizontalidade e na honestidade.

Ninguém sabe o que virá a seguir, mas muitos sentimos que a beleza da resistência se vive quando as barreiras entre as pessoas são quebradas e estas se juntam a experimentar algo novo, criado por si. Separarmo-nos em grupos sociais, classes profissionais, claques desportivas, habitantes deste ou daquele bairro, nacionalidades, géneros ou outra categoria qualquer reproduzida nos jornais e nas bocas da polícia e dos políticos é muito mais do que entrarmos no seu jogo: é perdermos o nosso.

A beleza do que vocês têm feito, levando a cabo uma greve que se prolonga há meses e percorre uma ténue linha entre o protesto convencional e a greve selvagem, parando de facto parte da economia, participando em todas as manifestações de braços abertos, levando para a rua uma atitude de desafio e divertimento que tem inspirado tanta gente... peço-vos que não esqueçam a beleza desse caminho, mesmo que o ponto de chegada venha a ser, pragmaticamente, um fracasso. É como se esse ponto de chegada acabasse por não ter tanta importância, se estivermos atentos à beleza da viagem.

Que idependentemente das lutas particulares de cada um saibamos dar valor à presença lado a lado uns dos outros. Sem nos anularmos uns aos outros, e também sem nos anularmos a nós próprios. Esta é a única maneira de termos alguma alegria no que aí vem, porque inexistentes, separados e isolados já nós estamos na normalidade do dia-a-dia; e, quem sabe, talvez agindo assim se abrirão janelas que nos permitem vislumbrar soluções que antes não estavam lá. Não é que o mundo se tornasse perfeito, é só que acontecesse o que acontecesse tudo seria menos triste se fôssemos mais selvagens.

Um qualquer

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