Além da sociedade produtora de mercadorias

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Breve análise do artigo “Além da conjuntura” de André Lara Resende*

Rall

O artigo do economista André Lara Resende, com o título "Além da conjuntura", publicado no Jornal Valor Econômico de 21/12/2012, merece considerações por tratar de uma questão que é tabu entre os articulistas e os formuladores de política econômica: o fim do crescimento nos países do centro do capitalismo. Apesar da erudição do analista, que busca a fundamentação em velhas e novas teorias, principalmente no estudo de Robert J Gordon, "Is U.S. Growth Over? Faltering Innovation Confronts the Six Headwinds". Gordon, subdivide o período de rápido crescimento em três "revoluções tecnológicas", de 1750 a 1830, marcada pelo motor a vapor e as estradas de ferro; de 1870 a1900, pela introdução da eletricidade, da água encanada e do motor a combustão; de 1960 até hoje, marcada pelas tecnologias de informática.

A partir da subdivisão de Gordon do período de rápido crescimento dos últimos 250 anos, Lara Resende escreve sobre as diferenças do impacto transformador das "revoluções tecnológicas" na produtividade e crescimento, quando comparado às duas primeiras com a última: "O ponto central do argumento de Gordon é que, a partir dos anos 70, quando os efeitos transformadores das duas primeiras revoluções tecnológicas finalmente se esgotaram, houve uma significativa redução do ritmo de crescimento da produtividade. A terceira revolução, a da informática e da internet, que tem início nos anos 60 e atinge o seu auge na última década do, século passado, não teve o mesmo impacto sobre a produtividade. Grandes partes de seus benefícios, a substituição do trabalho burocrático rotineiro pelo computador, esteve concentrada nas décadas de 70 e 80. Desde então deixaram de ter efeito transformador sobre economia." e mais na frente ... "A dificuldade de crescer das economias centrais não é circunstancial, mas resulta de uma desaceleração tecnológica estrutural"... "As economias avançadas vão crescer muito menos daqui para frente". "A boa notícia é que, com a desaceleração das economias centrais, o processo de convergência das demais será mais rápido. As economias em desenvolvimento, que forem capazes de manter altas taxas de poupança e investimento, deverão alcançar em breve as economias avançadas. A má notícia é que, uma vez alcançada a fronteira tecnológicas das economias avançadas, o crescimento vai desacelerar significativamente." E ainda: "A resposta mais plausível à pergunta de porque se busca sempre mais riqueza, mesmo quando muito além do necessário para satisfazer os desejos mais estapafúrdios, é que não é a riqueza absoluta, mas a riqueza relativa que importa. Não nos basta ser apenas ricos, mas, sim, mas ricos que os nossos pares." Ficamos por aqui pois é o que nos interessa.

É preciso ver algumas destas afirmações com cuidado. Claro, as duas primeiras "revoluções tecnológicas", marcadas pela introdução das estradas de ferro, do motor a vapor, da eletricidade, da água encanada e do motor combustão, segundo Gordon, e por outras tecnologias de produção e gestão do trabalho, estavam levando o básico às populações, necessário a um conforto mínimo, como água e esgoto para as residências, transportes mais rápidos e mais potentes, meios de comunicação, cultivo do campo dirigido para abastecer as cidades. Gradativamente, chegava a era do consumo em massa de produtos e serviços, antes restritos a muitos poucos, barateados com as novas formas de produção e aumento de produtividade, mas que ainda incorporavam contingentes significativos de trabalhadores à produção capitalista, quando comparado ao capital constante utilizado.

A terceira revolução na divisão de Gordon, relacionada com a informática, teve um caráter mais racionalizador da força de trabalho. A criação de riqueza e ampliação do consumo não ocorreu na mesma velocidade das duas primeiras. As empresas competindo entre si, tendem investir em tecnologia para aumentar a produtividade. Num primeiro momento vantagens competitivas se estabelecem, favorecendo a empresa que fez os investimentos por ter conseguido aumentar a produtividade e vender a preços mais baixos, ampliando o mercado para seus produtos. Mas a tendência são as demais investirem também, restabelecendo o equilíbrio. Esses momentos: concorrência, investimento em tecnologia, produtividade, tende a se repetir e as empresas que não o acompanham cai fora do mercado. Por outro lado, a automação dos processos tende a fechar postos de trabalho, interferindo na formação do valor, fazendo cair a rentabilidade total. A escassez de trabalhadores, que em determinados setores e situações pode pressionar pela adoção de novas tecnologias, não está desacoplada da concorrência global. Em fim, os capitais individuais, confrontando-se no mercado, estão sempre prontos a reduzir os custos da mercadoria força de trabalho através de investimento em capital fixo, máquinas e equipamentos, e redução das despesas com salários. Se considerarmos a produtividade do trabalho como a quantidade de produtos produzidos na fração de tempo, é difícil negar o grande salto na indústria e no campo com a intensificação da cientifização da produção neste período.

A tendência para estagnação dos investimentos na economia real, relacionado com o fraco retorno como afirmado, está diretamente ligado ao recuo do trabalho produtivo, gerador de mais-valia, pelo efeito da revolução científica, principalmente da informática incorporada à produção. Observa-se ainda, a ampliação relativa do trabalho improdutivo que consome e não produz mais-valia. A queda da taxa de lucro e dos investimentos produtivos na economia como um todo, resultado desses dois movimentos, são manifestações da crise de "valorização do valor” (Marx), aprofundada pela rápida automação em decorrência da terceira revolução industrial da microeletrônica e a consequente expulsão da produção da força de trabalho geradora de mais-valia. Não se pode por na conta da queda da natalidade e do envelhecimento da população, como sugerem alguns, a tendência à estagnação dos países do centro, quando se observa um desemprego extremamente alto e crescente entre os jovens e a intolerância à imigração.

A paralisia no crescimento e a ladeira abaixo dos retornos, não conhecide com as possibilidades abertas pela revolução tecnológica na produção de bens e serviços. Com o crescimento do capital fixo e o aumento da produtividade, o impasse entre os investimentos em novas unidades e a baixa rentabilidade, não pode ser resolvido pela “vontade política dos governantes”. Um sintoma disso é que, em significativos setores industriais americanos, as empresas guardam dinheiro em caixa, mas não investem, apesar do apoio fiscal e financeiro. Mantendo o estado atual, o baixo retorno tende agravar a concorrência global e aumentar a centralização do capital, obrigando as empresa que queiram sobreviver, investir pesado em capital fixo visando à produtividade, aprofundando mais ainda a crise do trabalho, do valor e do dinheiro. Por outro lado, há sinais de que empresas de alguns setores industriais dos países desenvolvidos, principalmente nos EUA, estão investindo, com o apoio dos governos, grandes somas em tecnologia na tentativa de repatriar a produção e o emprego, perdidos para países como a China. Porém, prevalecendo a dinâmica cega, a tendência global é a ampliação do desemprego e o recuo da produção apesar do aumento da produtividade. O efeito transformador da tecnologia sobre economias não rentáveis é assimétrico e poderá ser inclusive negativo.

Há grandes evidências de que a dinâmica capitalista chegou ao seu "limite interno lógico" (Kurz). A crise desencadeada em 2007/2008 não foi "um acidente de percurso", mas um desdobramento lógico-histórico da “autocontradição interna” do capitalismo e de sua incapacidade de crescer infinitamente. Ao atingir este limite, estabeleceu-se uma crise crônica, com momentos agudos que se manifestam em espasmos destrutivos (crises financeiras e de crédito e seus desdobramentos), pois a condição para acumulação do capital é o crescimento econômico agora travado. Ou melhor: a condição para o crescimento econômico é a valorização do capital, só possível pela expansão da força de trabalho. Como sem a valorização não há crescimento, então não se pode falar em “normalidade” nem em crises cíclicas do capitalismo se a tendência estabelecida é da não acumulação.

Para se manter as aparências de funcionamento normal das coisas, estabeleceu-se a partir de mecanismos inventados pelo mercado e Estado, a geração sem precedente de capital fictício, transformando a economia real estagnada em um apêndice deste. O capital fictício, antes fortuito e restrito, purgado nas crises cíclicas, transformou-se em "determinante" da economia real, pondo-a em aparente movimento. A crise financeira e de crédito de 2007/2008 mostrou, apesar de não ter sido a primeira com característica diferente das crises cíclicas, que se persistem nesse caminho como saída, outras crises virão em tempo mais curto e em proporções superiores, sem, no entanto, resolver o problema da acumulação real que só tende a se agravar. Se esses mecanismos de geração de capital fictício entrar em colapso como tudo indica, a economia real mostrará a sua real condição de moribunda. Hoje, um número enorme de empresas ao redor do mundo só não operam em vermelho pelos aportes financeiros dos governos e pela utilização de artifícios contábeis, incorporando em seus balanços os chamados ganhos financeiros, mas já deixaram de ser rentáveis há muito tempo quando considerado o que de fato produzem.

O crescimento das economias periféricas não está dissociado do comportamento das economias centrais, como desejam alguns otimistas. Na verdade, estas, como parte de uma cadeia global de produção de mercadorias, são fornecedoras de produtos e serviços baratos para os países do centro, a partir, muitas vezes, de empresas destes últimos aí instaladas, atraídas pelos baixos salários e incentivos fiscais. O mercado interno nos países periféricos, geralmente dependentes dos recursos das exportações, tem um peso relativo como mostra a perda de dinamismo dessas economias com o declínio dos "circuitos deficitários" que as beneficiavam com superávits. Portanto, "o espaço para o crescimento das economias periféricas que não alcançaram a produtividade das economias avançadas", de tal forma que se aproximem em tecnologia e produtividade destas, como afirmado no artigo, é duvidoso se não impossível a longo prazo, num contexto de crise global e crônica do capitalismo, e porque a dinâmica das economias que detém o conhecimento científico aplicável à produção não permitiria.

Tem razão o articulista quando afirma Keynes errou ao prever um mundo capitalista onde se pudesse trabalhar menos. O “trabalho abstrato” foi de tal forma introjetado nos corações e mentes, que mesmo aqueles que tenham o suficiente para não precisar trabalhar para poder sobreviver, o não-trabalho aparece como algo inaceitável do ponto de vista social, e insuportável do ponto de vista pessoal. A “socialização econômica negativa da modernidade” (Kurz) impõe-se com força, mesmo estando o trabalho em crise. Com a redução da rentabilidade, as empresas pressionam os indivíduos que conseguem manter-se no emprego, a estender a jornada sem reclamos. O alongamento do tempo de trabalho é também uma forma das empresas aumentarem a produtividade do trabalho sem investir em tecnologia, em situação de excesso de capacidade instalada, como mostrou o comportamento da produtividade nos EUA imediatamente após ter se iniciado a crise. Aí pesa, principalmente, o espectro do desemprego estrutural vigente, a resistência do movimento social e sindical, e as políticas de governo.

Essa obsessão pela riqueza, mesmo que supérflua, e o movimento estonteante do dinheiro para fazer mais dinheiro, é imanente ao capitalismo. Ou seja, o capital não existe sem a "valorização do valor", sem a extração de mais-valia, o lucro ou meios que simulem esses mecanismos. Os indivíduos, ao lançarem-se ao mercado, carregam consigo essa lógica introjetada pela socialização negativa, a partir de todos os espaços da sociedade e ciclos de vida. Agem automaticamente sem reflexões ou contestação, pois o valor, naturalizado, torna-se parte de seu ser. "Obsessão por um consumo conspícuo", "ser mais ricos do que nossos pares", são decorrências do agir do "sujeito automático" (Marx). O sujeito, burguês ou proletário, como parte da engrenagem da acumulação, não tem plena consciência do absurdo do processo repetitivo e vazio de conteúdo a que estão subordinados. Portanto, não são capazes de fazer outra opção que não seja ir em frente "cumprindo" as determinações do capital. Se ele assim não o fizer, geralmente por motivos que lhes fogem ao controle como desemprego, falência etc., são expulsos do sistema como "não-rentáveis" (Kurz). E aí cai a cortina que esconde o sentido da liberdade na sociedade burguesa, que restringe os movimentos dos indivíduos aos ditames do mercado, previamente determinados, independentes das vontades.

Realmente, tudo leva a crer que estamos no fim de uma era de crescimento impulsionado pelo progresso tecnológico e a tendência é o agravamento desse quadro se todos os movimentos realizados para superar a crise, forem feitos nos limites das fronteiras da sociedade baseada na produção de mercadorias. O que se observa não é o surgimento de uma nova tecnologia capaz de alavancar o desenvolvimento econômico, incorporando em ondas crescentes o trabalho humano à produção, sem o qual não há acumulação, mas ao contrário, movida pela concorrência, observa-se a intensificação da utilização das inovações da microeletrônica na produção e o encerramento de postos de trabalho pela automação, impactando negativamente na rentabilidade global. No capitalismo crescer ou não crescer não é uma questão de consciência, mas um problema lógico-histórico. Vivemos um momento do capitalismo em que a estagnação, em movimento para regressão e aprofundamento da barbárie, já não pode mais ser escondida. A saída pela via do capital fictício, imprimindo-se moeda, expandindo-se o crédito ao infinito facilitando o endividamento e gerando bolhas especulativas no mercado, tem mostrado frágeis pés de barro, produzindo estragos cada vez maiores, em tempos cada vez mais curtos, frustrando expectativas quando desabam.

Mas, sabendo disso, por que os agentes do mercado e os estados insistem nesse caminho que parece suicida? Porque, conscientes dos limites da economia real, a forma de mantê-la morta/viva (economia zumbi), é injetar altas doses de dinheiro sem substância com as chamadas rodadas de "expansão quantitativa", juros negativos e bolhas, deixando o dinheiro circulante descolado da produção de bens e serviços (no padrão-ouro, dizia-se dinheiro sem lastro, quando o valor circulante ultrapassava os estoques em ouro), mesmo sabendo-se que mais na frente outros desastres virão, catalisados agora por essa política aparentemente salvadora no curto prazo, inclusive o excessivo endividamento dos estados. Do ponto de vista da lógica do capital não se podia esperar outras medidas sem um risco de um colapso mais rápido. A moribunda economia já não consegue resistir sem as doses letais de capital fictício potencialmente inflacionário.

Enquanto os movimentos por mudanças não acordarem do torpor fetichista e não tomarem consciência de que a sociedade capitalista com sua lógica destrutiva tem uma história, que estamos chegando ao fim de uma era fundamentada no patriarcalismo, no "trabalho abstrato", no valor, na forma-mercadoria, na forma-dinheiro e outras categorias do capital; enquanto não se buscar caminhos que não da produção de mercadoria, o que veremos é o agravamento desse estado de coisa, turbinado pela concorrência feroz e predatória, intensificada à medida que a crise econômica e social se agrava pela racionalização crescente da força de trabalho e pela crise ecológica que pode ganhar dimensões catastróficas.

*Além da conjuntura, Jornal Valor Econômico 21.12.2012

24.01.2013

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