O Caso Rúben

Ruben está neste momento a ser velado dentro de um caixão branco fechado.

À sua volta há jovens como ele que não entendem o que é morrer com 18 anos às mãos da brutalidade policial.
Ruben dentro do caixão está tão revoltado como os jovens que incendeiam as ruas e lhes queima a alma
Ruben é o quinto jovem que morre na bela vista por intervenção policial.

“Mais valia construírem aqui cemitérios” disse uma moradora hoje da Bela Vista ao Correio da Manhã.

O que essa moradora não sabe é que os bairros sociais como a Bela Vista são cemitérios de pessoas vivas dadas como mortas para a saúde, educação, habitação; feitas “presas” de caçadores fardados de azul.

Bairros play-ground de violência policial.

Ruben tinha sido detido no dia anterior pela polícia dessa esquadra que o perseguiu no dia em que o fez morrer.
Ruben foi detido e identificado. Era bem conhecido pela polícia.

No dia seguinte andava de mota sem capacete e dizem os polícias passou um sinal vermelho e por isso seguiram-no disparando balas de borracha DIZEM.

E assim Ruben, em velocidade fugindo ruas afora, entrou numa rua sem saída, subiu o passeio e, “fugindo ou apanhado por uma bala atirada para o ar”, dirá a sentença do tribunal despistou-se, caiu sobre caixa de electricidade, morreu e viu-se a sua morte num pequeno filme no youtube.

18 anos de vida findaram numa perseguição policial com balas.

Robinho, como é conhecido, abriu mais um inquérito na inspecção-geral da administração interna que se vai esforçar por se proteger assim como os polícias agora se esforçam por proteger a esquadra da avenida da Bela Vista.

Esta esquadra tem 46 agentes e nenhum morador deste bairro se sente seguro por lá tê-los.

Têm morto jovens estes agentes, 5 jovens nos últimos anos.
Ruben deixa agora de brilhar nos olhos da sua mãe que recupera de um cancro.

O decreto-lei nº 457/99 diz no artigo 2º diz que o recurso à arma de fogo pelo agente policial ”so é permitido em caso de absoluta necessidade, como medida extrema”. Acrescenta-se a medida extrema provocada com a necessidade de matar “jovens problemáticos” de “bairros problemáticos”.

A justiça vai perdoar dizendo que não se provou a culpa da morte.

Os jovens vão incendiando as ruas mostrando que têm a injustiça nas mortes que carregam.

Ruben é mais um nome da revolta pela brutalidade policial que a comunicação social não diz.

3 anos será a pena máxima caso se comprove que houve uso indevido da arma pelos agentes.

Quantos anos leva a deixar de sentir a falta de um amigo?
quantos anos levará a mãe de Ruben a voltar a sorrir?
Quantos anos mais serão precisos para proteger os jovens dos bairros sociais dos polícias problemáticos?
Quando se explodirão as esquadras que existem nos bairros?

A Plataforma Gueto sente mais esta revolta!

Plataforma Gueto – Setubal

Comentários

o caso rúben é um assassinato

de Diogo Duarte:

"Imaginemos que a polícia não tinha disparado um só tiro contra o Rúben, o jovem que morreu ontem junto à Bela Vista, em Setúbal. Se a única coisa a ter acontecido tivesse sido a perseguição policial a um miúdo sem capacete, e precisamente porque seguia sem capacete, isso, só por si, já seria um acto suficientemente irresponsável e criminoso. Consegue ser isso tudo e, ao mesmo tempo, absurdo. Se juntarmos à história os tiros, tenham sido disparados para o ar, para o chão ou para o caixote do lixo, deixa de haver palavras para falar do assunto. É completamente irrelevante saber se acertou na mota ou se foi três metros ao lado. Não passa dum pormenor. Foi um assassinato. Considerar que em tudo isto há alguma coisa de acidental, como conta a versão da polícia, é, no mínimo, repugnante. Só falta dizer que foi suicídio.

Perante isto, seria até escusado lembrar que o Rúben morava num “bairro social”, pois o juízo que se possa fazer sobre o homicídio policial é independente dessa circunstância e o que se sabe sobre o caso fala por si. Mas, ainda assim, é oportuno fazê-lo. Até porque se alguém sem capacete estivesse a circular na zona onde eu cresci e desobedecesse a uma ordem policial para parar (algo que não teria nada de estranho caso acontecesse), a polícia nunca dispararia um tiro. Nem sequer para o ar. Questionem-se porquê.
Se acharem que a melhor resposta para isso está no facto de esses serem sítios violentos, “problemáticos, “sem ordem”, “indomáveis”, “selvagens”, entre toda uma variante de classificações que se lhes aplicam regularmente, perguntem-se por que é que, sendo assim, essa gente não decide partir tudo nestas circunstâncias, especialmente perante um caso de homicídio tão flagrante em que sabem que o mais provável é nunca verem justiça ser feita. Perguntem-se por que é que se ficam por atirar umas pedras à polícia, queimar uns caixotes do lixo… Perante o que seria legítimo e compreensível fazer, tudo isso me parece pouco.

Tenhamos ainda em consideração que aquilo que para nós é uma novidade chocante e revoltante (“a crise”, “a austeridade”, “o atropelo aos direitos mais básicos”), é parte da vida quotidiana desses bairros há décadas. A taxa de desemprego do país que hoje nos escandaliza parece o sinal de um qualquer paraíso perdido se comparada com a desses locais. Nem as previsões futuras mais catastrofistas se aproximam dos números que aí existem agora. Aquela espécie de clima de guerra de que agora se fala e que se sente – motivado por todo o tipo de agressões, perseguições e intimidações feitas pelas autoridades e dirigidas a cada vez mais pessoas independentemente da sua condição social (a pretexto de manifestações políticas ou não) – está instalado nesses sítios há muito tempo, a uma escala que nem imaginamos: é uma guerra quotidiana, silenciosa, invisível, em que as piores armas nem são as que agridem fisicamente. Futuro, aí, já não é sequer uma palavra.

Junte-se a isto, e para terminar, o facto de não haver memória, na Bela Vista, de um só polícia ter sido condenado por um assassinato que tenha cometido, quando houve casos mais do que suficientes para que isso acontecesse (o mais mediático terá sido o assassínio de Tony, em 2002, durante o dia e em pleno bairro). Juntem-se a isso tantos outros casos semelhantes que aconteceram noutros “bairros sociais” pelo país fora, como o da recente absolvição do polícia que matou “Kuku”, um miúdo de 14 anos, com um tiro disparado directamente para a cabeça a escassos centímetros de distância.

Dizer, como acabei de ouvir agora na televisão, que os tumultos se deveram a um ajuste de contas por parte dum gang do qual o Rúben fazia parte, dá uma dimensão do desplante com que se fala sobre estes sítios e, ao mesmo tempo, expõe o desconhecimento arrogante sobre o que ali se vive.
Desenganem-se, por tudo isto, se pensam que “a situação está controlada” ou que “as coisas ficaram por ali”."

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