A importância da desobediência civil e o sucesso do Verde Eufémia

Publicado em http://ingenea.gualter.net

Na sociedade portuguesa, a desobediência civil e a acção directa não-violenta continuam a ser um tabu e, pior que tudo, são vistas como um sinónimo de acções violentas perpetradas por qualquer bandos de vândalos. Esta semana, o Sol contribuiu com mais uma peça do abundante jornalismo de manipulação que está a anteceder esta cimeira da NATO. No artigo, mete no mesmo saco a campanha internacional Bombspotting, os War Resisters International e os Black Block (que refere como um grupo, quando nem sequer existe tal grupo). O artigo refere não só que estes "grupos" se preparam para transformar Lisboa num campo de batalha, como também que vão aproveitar as manifestações legais (e como tal, pressupõe-se, ordeiras) para "apedrejar as forças de segurança e arremessar cocktails molotov".

É certo que a desobediência civil e a acção directa não-violenta são acções confrontativas e, como tal, com potencial de alterarem a ordem instaurada. É, aliás, com o objectivo de desobedecer a um Estado que não respeita os interesses dos seus cidadãos, que se realiza desobediência civil, conforme descreveu Thoreau há quase dois séculos. Contudo, o jornalismo que mistura no mesmo saco acções não-violentas, tais como bloqueios ou invasões pacíficas de bases militares com armamento nuclear, com o lançamento de cocktails molotov, não é tão inocente quanto se possa supor. Este jornalismo vem inserido numa estratégia clara e deliberada de manipulação da opinião pública. Numa lógica de guerra preventiva, procuram deslegitimar e transferir o contexto de acções com um enorme potencial político. Neste caso, o alvo são, essencialmente, as acções de desobediência civil anunciadas pela PAGAN em contestação à cimeira e políticas da NATO.

Igual estratégia de desinformação mediática já havia tido lugar aquando da acção de ceifa de menos de 1 ha de um campo de transgénicos em Silves, pelo Movimento Verde Eufémia. Políticos de direita, como Pacheco Pereira, editores de jornais como o Expresso, ou mesmo o Ministro da Administração Interna Rui Pereira, não hesitaram em classificar uma acção de desobediência civil publicamente anunciada e executada à luz do dia, como um acto de ecoterrorismo. Também o relatório da Europol de 2008 sobre a situação e tendências de terrorismo, classificou a acção do Verde Eufémia como um acto de terrorismo, o único de causas ecológicas em toda a Europa. Mais tarde, a já famosa agente de contra-informação da polícia, perdão, jornalista, Valentina Marcelino, no DN de 17 de Janeiro de 2008 (relacionado com este artigo, mas apenas disponível num destaque da edição impressa), conseguiu enfiar no mesmo saco o Verde Eufémia, os anarquistas do 25 de Abril de 2007 e, aí vem a cereja em cima do bolo, os No Name Boys, essa claque famosa pelas suas fortes ligações à esquerda radical!

A forma como a acção foi transposta pela comunicação social conduziu a generalidade da opinião pública, mesmo a que então se encontrava contra os transgénicos, a julgar negativamente a acção, considerando-a contraproducente para a causa. Tal foi a reacção que o próprio Bloco de Esquerda (inicialmente com algumas expressões favoráveis, como a de Miguel Portas) amedrontou-se, sugerindo-me que eu abdicasse da minha participação no Socialismo 2007, iniciativa para a qual me haviam convidado para falar de transgénicos meses antes (soube depois, por companheiras presentes, que disseram publicamente que eu é que tinha cancelado a minha participação...).

Apesar de todo o ruído mediático e político, ao nível de uma verdadeira inquisição, continuei a insistir que, independentemente do que a comunicação social escrevesse, o resultado final desta acção tinha sido muito positivo, trazendo a debate um tema que os governos, ao serviço da agro-indústria (em particular no seio do Ministério da Agricultura), procuravam evitar. Esta semana, uma sondagem deu razão ao que vinha defendendo e marcou a vitória da acção de desobediência civil do Movimento Verde Eufémia: enquanto que, em 2005, 65% dos portugueses estavam a favor dos alimentos geneticamente modificados (valor da tabela 3 de Eurobarómetro 2005), o Eurobarómetro sobre os Europeus e a Biotecnologia de 2010 indica que esse valor baixou para apenas 37%!

Ao contrário dos desfiles de massas, ordeiros e previsíveis, em que a CGTP e PCP/CPPC tipicamente "encarneiram" a dissidência (ainda que considere tais mobilizações também importantes numa lógica de unidade na diversidade, como referi num artigo anterior), os governos e poderes instituídos temem a expressão criativa, plural e fortemente perturbadora da desobediência civil. No entanto, temem, acima de tudo, uma resistência activa que é não violenta - o que Gandhi designou por satyagraha. A linguagem das autoridades é a da violência, pelo que é na sua expressão não-violenta que a acção radical mais intimida os poderes estabelecidos. E, como prova a acção do Verde Eufémia, têm razão para temer, não só pela afronta directa aos poderes e lobbies instituídos, como pelo seu potencial de gerar debates e transformar de forma drástica a opinião pública em temas até então perfeitamente controlados pela hegemonia.

Até num país de "brandos costumes", em que tudo o que sai da ordem estabelecida (por quem, é coisa que pouco se questiona) é condenável, a desobediência civil foi capaz de alargar o debate dos transgénicos, ao levantar questões que antes não haviam sido colocadas, desta forma contribuindo para uma sociedade mais participada, plural e democrática. Tal como ninguém se sente bem em comer transgénicos quando a própria ciência tem dúvidas , também ninguém tem interesse em participar em guerras desumanas e que são pagas pelos nossos bolsos.

Sejamos, então, satyagrahis sem medo dos ecos deturpados pela comunicação social corporativa e declaremos:

Satyagraha contra a NATO e as suas guerras!

Satyagraha contra a destruição e apropriação do nosso sistema alimentar por meia dúzia de multinacionais!

Satyagraha contra os poderes capitalistas e a sua imprensa, que tentam fazer-nos aceitar que a crise afecta a todos, quando afinal só afecta a alguns!

Saiamos às ruas em desobediência contra a cimeira da violência e da guerra! Façamos uma greve geral perturbadora no dia 24! Rejeitemos a apropriação do nosso património agrícola e alimentar!

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Comentários

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Many thanks for your good publish. I'll take the notes you've written.

sejamos raposas

não importa se peri-urbanas, se do deserto...
sejamos raposas, dando combate, sem armas mas com um objectivo; salver o nosso território da predação de um punhado de loucos fratricidas... esses mesmos que esbanjam rios de dinheiro no momento em que a cidadania é VIOLENTAMENTE sangrada com mais impostos, com menos assistência social, com um quotidiano de miséria e violência.
Pelos nossos! pelos filhos e netos, por nós!
É preciso as pessoas subirem rapidamente de um patamar para outro.
Deixarem o patamar do individualismo e ascenderem ao patamar da solidariedade,

Amor e Raiva
MB

Solidariamente

Sim, sejamos raposas ou lobos....

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