Comunicado Colectivo Matéria Bruta

Comunicado explicando o porquê de ocupar uma casa e servir sopa num dia de greve geral e em época de crise.
Publicado em http://gaia.org.pt/node/15780

"Cria e semeia, viverás com alegria!"
Provérbio popular.

Por quê neste dia de greve geral

Ao encetarmos esta iniciativa neste dia, pretendemos mostrar-nos solidári@s com toda a gente que luta por uma melhor qualidade de vida. Contudo temos uma proposta que, mais do que o acto de pedir algo a um terceiro, se constitui já como uma satisfação da nossa necessidade. Não pedimos nem ao patrão nem ao governo aquilo de que necessitamos, mas organizamo-nos com os nossos companheiros e as nossas companheiras de forma a sermos senhores e senhoras das nossas vidas.

Propomos a tod@s que se organizem e tomem nas suas mãos, o peso mas também o fruto do trabalho colectivo. Como incentivo poder-se-ão dar exemplos de várias iniciativas de trabalhadores e trabalhadoras que assumiram nas suas mãos a gestão do respectivo trabalho, desde o norte de Portugal até à Argentina.

Por quê sopa

A sopa é desde sempre uma base da alimentação humana, feita a partir de ingredientes simples que podem ser cultivados em qualquer espaço, desde o quintal das traseiras até aos espaços verdes públicos. Como tal é uma solução simples, barata e acessível, para muita gente que começa a sentir dificuldade até para se alimentar.

No nosso caso iremos oferecer sopa a qualquer pessoa que a deseje e que apareça neste espaço que agora se recupera, numa perspectiva de partilha humana de recursos, solidariedade e construção comunitária de alternativas, seja económica seja social.

Por quê ocupar

Em Portugal existem mais de 300.000 fogos vazios. Lisboa tem 4.600 fogos vazios considerados devolutos e que, se estivessem ocupados, dariam para acolher mais de 25 mil pessoas, muitos dos quais pertencem à Câmara Municipal de Lisboa ou à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Ao mesmo tempo que passamos por estes fogos nas ruas, encontramos milhares de pessoas com dificuldades em juntar o dinheiro necessário para comer satisfatoriamente, cruzamo-nos com um número crescente de pessoas sem-abrigo e tomamos conhecimento de pessoas, colectivos ou associações que desejam realizar trabalho ou iniciativas sociais, culturais ou ecológicas sem que tenham um espaço para isso.

A habitação existe para satisfazer a necessidade humana de abrigo. É um local
privilegiado para nos reunirmos durante as refeições, repousarmos, convivermos, debatermos e aprendermos em conjunto. A existência simultânea de milhares de fogos devolutos e de pessoas com vontade de realizar iniciativas com interesse para a comunidade sem que encontrem um espaço para tal, revela que a habitação não está a desempenhar o papel social que lhe cabe.

Sendo esta uma situação que se arrasta há largos anos, chegou o momento de alterar esta situação. Ocupamos um edifício da CML para recriar nele valor social, oferecendo sopa quente neste dia de greve fria.

Autogestão Já!

Colectivo Matéria Bruta

Comentários

companheiros não podemos

companheiros não podemos perder mais tempo ... luta armada já . temos de começar a fazer algo para que a militancia anarquista não seja uma fase de crescimento .

Desde quando a greve e a luta

Desde quando a greve e a luta dos trabalhadores é pedir? No capitalismo a satisfação de necessidades faz-se para a maioria através do salário. Este é objecto de disputa. Imagino que, apesar de tudo, ser assalariado parece condição bem melhor que ser assistido, mesmo que por grupos de gente bem intencionada. E eu pergunto, alimentar os outros a sopa é satisfazer que necessidade? A de ser alimentador dos outros? Ou então, se a perspectiva é auto-alimentar-nos, é melhor comer sopa que comer qualquer outra coisa paga com o salário?

Concordo que se devem tomar várias iniciativas que fomentem a solidariedade e resolvam necessidades básicas, mas a oposição que me pareceu ser feita no início entre esta autogestão da miséria e as lutas dos trabalhadores como entre satisfazer por nós mesmos as nossas necessidades e pedir a terceiros é uma treta. Até porque sendo as ocupações ilegais também vão ter que "pedir" a terceiros.

okupas lutam com a polícia pela posse duma casa. traduzido na vossa linguagem: okupas pedem a terceiros poder ocupar um espaço.

exigir segurança social, é parte da luta para satisfazer as nossas necessidades básicas.

a autogestão das empresas é autogestão da auto-exploração. é uma medida temporária para garantir a sobrevivência dos implicados e não nenhum objectivo de longo prazo ou ideal.

Não comento o resto mas não

Não comento o resto mas não posso deixar de perguntar que diabo quer dizer «a autogestão das empresas é autogestão da auto-exploração.»? Se o fruto do trabalho é dividido em partes iguais pelos trabalhadores em iguais circunstâncias, como é isso auto-exploração? Se os usufrutuários desse sistema abdicassem de todo o rendimento acima de determinado montante para o entregar a outrém, isso seria auto-exploração, mas é um absurdo. Em Espanha há uma empresa em regime de auto-gestão (a Mondragón) e não se tem notícia de que se auto-explorem. Esta empresa também tem história suficientemente longa para desmentir a asserção de que a auto-gestão «é uma medida temporária para garantir a sobrevivência dos implicados e não nenhum objectivo de longo prazo ou ideal.»

Portanto pode inferir-se destas duas frases que o seu autor é ou stalinista ou capitalista keynesiano, uma vez que refere a segurança social. Não pretendo sugerir a proibição ou anatemização dessa(s) opção(ões) política(s), mas também não aceito a simplificação abusiva do conceito de auto-gestão. Para discutir conceitos há que fazê-lo com honestidade intelectual. Senão estaremos simplesmente a discutir ideologias dictatoriais ou a fazer birra de criança mimada.

por segurança social

por segurança social refiro-me sobretudo ao salário social, parte necessária para a reprodução da força de trabalho, como despesas de saúde e educação, por exemplo, mas também pagamento àqueles que ficam desempregados, etc. o termo não foi o mais correcto. essa parte se não for uma despesa estatal é uma despesa que os próprios trabalhadores têm que fazer. deve ser objecto de disputa por parte dos trabalhadores e não ser simplesmente considerada uma coisa que se pode negligenciar em favor duma sopa dos pobres promovidas por um movimento activista minúsculo em condições de fragmentação da classe e portanto de inexistência de laços sólidos de solidariedade ou mesmo de actividade colectiva. disputar isso não é ser nem keynesiano nem estalinista. além disso refiro esse item como objecto de disputa no capitalismo e não como componente duma sociedade diferente. pois se é assim que se entende isto, devo pensar que o colectivo matéria bruta é puramente reaccionario porque sugeriria como ideal de sociedade sopas dos pobres e ocupaçõe de casa velhas e empresas auto-geridas a produzir para um mercado.

A empresa produz para o

A empresa produz para o mercado. Tem que produzir nas mesmas condições que as restantes senão vai à falência. Os trabalhadores têm que trabalhar mais se for preciso para acompanhar isso em troca do mesmo tipo de remunerações e deixar de lado uma parte para um investimento para relançar a produção em condições de competitividade. Os trabalhadores nessas empresas têm, que se auto-disciplinar para cumprir objectivos que não determinam mas são impostos pelo mercado. E quando essas empresas são deixadas aos trabalhadores é porque não estão à partida em grandes condições.

O objectivo a longo prazo deve ser a abolição da empresa enquanto unidade jurídica separada. Deve ser o fim da produção de mercadorias e da troca mercantil. Se a sociedade fosse constituída por empresas em auto-gestão recriava-se todos os pesadelos do capitalismo, através da concorrência, ampliavam-se as desigualdades iniciais e seria necessário um estado para regular os antagonismos emergentes.

leia-se por exemplo:
http://www.reocities.com/autonomiabvr/autoges.html

Des prolétaires – Contre le

Des prolétaires – Contre le mythe autogestionnaire
http://mai68.org/spip/IMG/pdf/mythe_autogestionnaire_rotation.pdf

Em frente!

Abraço de luta!

Parabéns

Parabéns, companheiros. Há que fazer algo para que estas iniciativas não parem!

Parabéns

Tomei a iniciativa de publicar o texto no meu Blog.
Foi um bom dia de protesto e a terminar com o maior exemplo de "a todos o que é de todos"
Parabéns

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