“A resistência improvável, a ocupação impossível”

Reportagem na Palestina, por Renato Teixeira, em Jornalismo de Causas

São semanas confusas as que se vivem, por estes dias, no Médio Oriente, um território que tem pago caro as aventuras das potências que aí jogam, sem nenhum pudor, os seus interesses, à custa de elementares direitos humanos. Aqui todos sabem bem que ao aumento da confusão corresponde mais sangue derramado, sempre por aqueles que menos condições têm para se defender. O povo palestiniano vive desde o início da Nakba – tragédia; expulsão e extermínio dos palestinianos para a fundação e aprofundamento do Estado de Israel – uma violência sem paralelo, numa desproporção obscena relativamente a quem é vitima e agressor, levada a cabo por um projecto colonial já com 70 anos, e que se transformou numa das feridas que mantém todo o Médio Oriente em carne viva. Os palestinianos defendem-se levando a revolta a todas as esferas da vida onde o colonialismo israelita, sem memória e sem misericórdia, avança. Para embaraço dos poucos judeus que se mantêm verticais contra o que Israel tem feito, a verdade é que a sua estrutura política e militar sempre preferiu aprofundar a ocupação a partir o relatório do general das SS, Jürgen Stroop, que comandou a destruição do Gueto de Varsóvia, do que das teorias socialistas dos que alimentaram a ilusão de era possível construir uma sociedade justa por dentro do contexto de uma ocupação, numa coexistência que não implicasse a transformação do dia-a-dia dos palestinianos num pesadelo, como se veio a verificar. A mais violeta ocupação que sobra ao colonialismo enfrenta a mais abnegada das resistências, pelo que fica evidente que a revolta só terá fim quando terminarem as razões que a alimentam.

A noite cai em Jerusalém ao som das sirenes das ambulâncias, do latir generalizado dos cães, que nunca se habituam ao alvoroço dos disparos ocasionais dos militares. O dia acorda da mesmíssima maneira. Aqui e ali, do caminho que faço a pé ao longo da estrada de Damasco até à cidade velha, um palestiniano é revistado pela polícia, duas ambulâncias passam, mas pouco a pouco os sobressaltos vão dando lugar ao som da cidade. O eterno barril de pólvora parece mais cheio que nunca e isso sente-se no ar em cada esquina, desde que se aterra no Aeroporto Internacional de Telavive, uma das poucas passagens para quem quer chegar à Palestina.

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