9 anos de Indymedia no Brasil

Retirado de Passa Palavra
http://passapalavra.info/?p=16807

A experiência de comunicação praticada pela rede Indymedia e pelo Centro de Mídia Independente (CMI-BR) foi, e continua sendo, sem dúvidas, um marco dentro daquilo que é chamado de mídia alternativa. No mês passado foram comemorados 10 anos de existência da rede e 9 do experimento brasileiro. Aproveitando a ocasião, a pedido do Passa Palavra - site que como muitos outros se inspirou no projeto - voluntários e ex-voluntários do CMI-BR refletem, contam experiências, fazem um balanço e falam dos novos desafios para a mídia independente.

Segundo Pablo Ortellado, um dos fundadores do CMI no Brasil e hoje ex-colaborador, a rede Indymedia teve sua origem estreitamente vinculada a um movimento específico e inédito, que era o movimento antiglobalização, iniciado já em 1997 e 1998 e que atingiu seu auge nas manifestações de Seattle [EUA] em 1999. Como conta camarada d., de Florianópolis (SC), outro ex-voluntário do CMI, “os coletivos, movimentos, usavam o site para articular protestos, campanhas e para discutir o caráter destas atividades. No Brasil, o CMI também iniciou suas atividades com foco na organização e cobertura de lutas dentro desta esfera da luta antiglobalização, como a campanha contra a ALCA [Acordo de Livre Comércio das Américas].”

Todos concordam que uma importante novidade trazida por esta experiência foi a de se integrar ao processo de inovação tecnológica de então; característica que ainda hoje é mencionada como um elemento fundamental do coletivo. Na opinião de Flecha, um dos atuais colaboradores de São Paulo (SP), foi isto que o atraíra bastante desde o início de sua participação. Nas oficinas técnicas realizadas entre os membros, cada colaborador trazia sua experiência e gostos pessoais sobre o tema, permitindo que houvesse uma “troca intensa” de conhecimento entre todos. “Isso foi uma coisa que o CMI trouxe [o conhecimento técnico] que eu não sei se eu teria se eu não tivesse participando. Ou pelo menos seria muito mais demorado.”

O papel do CMI enquanto instrumento de memória dos movimentos anticapitalistas mais recentes é o ingrediente destacado pelo colaborador, hoje de Goiânia (GO), Dedeco. Para ele, o CMI teria contribuído enormemente com as lutas sociais, em particular com a das organizações independentes (isto é, desvinculadas de partidos, governos, empresas), na medida em que forma uma geração de militantes que é capaz de produzir o seu próprio registro, “uma visão própria da realidade”.

Do ponto de vista tecnológico, três aspectos mais significativos do CMI são destacados por Pablo: “Ele difundiu o conceito de comunicação aberta”; também transformou o conceito de licença livre, derivado da concepção de software livre, o que significava proibir qualquer tipo de exploração comercial dos conteúdos veiculados; e criou a “transparência editorial”, pois os métodos de construção e aprovação dos destaques editoriais funcionavam de forma aberta.

De acordo com ele, o êxito desta nova experiência comunicacional residira no fato de ela estar em consonância e ter sido a expressão de anseios dos novos movimentos sociais que, organizando-se pelas bases, começavam a questionar o avanço do processo de liberalização da economia mundial. Vivia-se um momento de ascensão e renovação do caráter das lutas sociais, os levantes de Seattle simbolizavam isto: a convergência de causas ambientais, feministas, sindicais, urbanas, etc., contra um inimigo único.

Num sentido bem parecido, Guile, hoje colaborador de Tefé (AM), diz que “o CMI possibilitou uma grande ampliação das práticas de ação direta na informação”. Isso significa dizer que esta ferramenta se colocava não apenas como um meio difusor de notícias de interesses específicos, mas como um recurso que permitia aos movimentos e grupos oprimidos elaborarem suas estratégias próprias de comunicação. “Isso é especialmente importante no caso dos movimentos libertários e que procuram formas de organização horizontal, pois então a livre comunicação corresponde em grande parte à própria estrutura organizativa dos movimentos.”

Aliás, para o camarada d., a iniciativa do Indymedia tem, antes do mais, uma luta própria, que é “a luta pela democratização da informação em níveis mais diretos.” Segundo ele, a atitude revolucionária do CMI foi a de abolir na prática o tradicional papel do elemento mediador, que obsta à relação direta entre o emissor e o receptor da mensagem; uma radicalização tanto na forma quanto no conteúdo. E, tudo isso, feito com base em um princípio muito simples: “reunir num site informações sobre as mais variadas lutas, aproximando-as, dando ênfase (ainda que um pouco sutil) à idéia de que todas as lutas estão integradas, ou deveriam estar, e são parte de um mesmo processo de emancipação, de superação do capitalismo”.

Contudo, na opinião de Pablo, do ponto de vista tecnológico, é possível afirmar que o CMI “foi ultrapassado pelas ferramentas comerciais, como twitter, youtube, que conseguiram radicalizar este processo de democratização da comunicação”. Embora, ressalta ele: “Radicalizaram, mas ao mesmo tempo trouxeram estas ferramentas de democratização para o controle dentro de uma plataforma empresarial.” A esta conclusão chegou também camarada d., após a onda de protestos contra o aumento das tarifas de ônibus em Florianópolis, em 2006. Ele nota que, neste ano, os mesmos manifestantes que haviam usado o site como veículo de informação principal nas revoltas de 2004 e 2005 na cidade, optaram por usar o youtube ou outros sites de publicação de fotos. “Hoje, com o twitter e outros sites de relacionamento,” – reflete ele - “a coisa fica ainda mais dramática.”

No que diz respeito aos aspectos políticos, Pablo verifica que com o descenso dos movimentos antiglobalização o CMI teria perdido um pouco a sua orientação. Após 2004, o CMI haveria iniciado sua busca por uma reaproximação dos movimentos sociais; o que aconteceu com maior ou menor eficiência conforme as inúmeras experiências concretas que se desenvolveram. Positivamente, ele lembra os casos do México, junto aos zapatistas e, depois, à luta em Oaxaca; da Argentina, ao lado dos piqueteros; e do Brasil, com o movimento dos sem teto e com a luta pelo passe livre.

Flecha, por exemplo, tomou conhecimento da existência do CMI em 2005, quando ainda morava em Manaus. No ano seguinte passou a integrar o coletivo, quando veio morar em São Paulo. Ele lembra que, durante esta época, o pessoal estava envolvido com a realização do Dôssie do Fórum Centro Vivo. Conta que, entre 2006 e 2007, viveria o que considera um dos momentos mais marcantes de sua experiência: a luta contra o aumento da tarifa de ônibus. Mas foi na ocupação da reitoria da USP, de maio a julho de 2007, que ele se entusiasmou com a possibilidade de ajudar um movimento social com as questões tecnológicas e de segurança na Internet, uma preocupação particular do CMI.

Porém, Flecha adverte: “A gente não pode restringir o ativismo político ao ativismo cibernético. Ele [o CMI] é uma forma de comunicação que serve para você se levantar da sua cadeira e ir pra rua!”

Esta passividade de que fala Flecha não consiste em um problema específico do CMI. Na sua visão, este seria um problema generalizado que geraria efeitos não só na mídia alternativa como um todo, mas em todos os movimentos sociais. “Se os movimentos sociais estão com problemas, a gente também está com problemas”, resume.

A perda desta proximidade mais orgânica com os movimentos sociais Pablo atribui à própria “natureza da sua plataforma”, que, segundo ele, não é apropriada para movimentos que têm uma organização não horizontal. “Para publicar release que é feito pela direção dos movimentos você não precisa do CMI, basta um blog. Portanto, não faz o menor sentido a publicação aberta para estes movimentos. Eles publicam no site oficial estas notas e o CMI é simplesmente mais um meio de comunicação daquela nota que foi para a grande imprensa.”

Guile, porém, faz uma leitura diferente do momento político que vive o CMI-Brasil. Ele entende que a experiência foi progressivamente se espalhando por diferentes regiões e grupos sociais do país. Este processo teria acrescido a necessidade das “esferas virtuais e nacionais” de comunicação e, ao mesmo tempo, enfraquecido o papel dos coletivos locais; o que ele avalia como sendo algo muito positivo, já que contribuiu para que houvesse uma flexibilização das regras de funcionamento e de tomada de decisão. Além disso, lembra ele, esta difusão de coletivos estaria produzindo organizações híbridas ao permitir o contato com populações e movimentos diversificados, havendo uma “tendência de que grande parte dessas práticas não seja mais rotulada como estando no âmbito do que chamamos CMI”.

Os novos desafios

Mesmo com as contradições colocadas hoje pelo avanço da tecnologia, Pablo ainda acredita que a comunicação alternativa, através dos meios digitais, tem um potencial de democratização sem precedentes na história. De acordo com ele, os dilemas atravessados por esta experiência são comuns a todos os meios de publicação aberta, mesmo os não ligados a movimentos sociais, casos como o da Wikipédia, dos blogs, dos fóruns de internet, etc.: “estes espaços são tomados por chatos, por propagandas, por pregações religiosas, por sabotagens.” O problema, na sua impressão, é que o CMI não soube dar respostas inteligentes a estas formas inadequadas de uso do espaço sem precisar retroceder no processo de publicação aberta. Isto explicaria o fato da famosa coluna da direita - a sua grande novidade e essência - vir sendo progressivamente abandonada ou desvalorizada. Estaria aí o seu grande desafio para o futuro.

Já na concepção de Flecha, um coletivo do tipo do CMI vive ciclicamente um movimento de avanço e recuo. Isso porque, toda vez que um colaborador mais antigo deixa o coletivo, uma série de tarefas cotidianas importantes deixam de ser feitas; o que, no entanto, é contrabalanceado pelo fôlego e entusiasmo de que se enche o grupo sempre que um novo membro passa a fazer parte, querendo aprender e ajudar nas tarefas. “A gente tem que fazer o ciclo de adesão de novos voluntários quebrar este ciclo de passividade em que vivemos.”

Sobre a situação atual do CMI e as conseqüentes tarefas que lhe são colocadas, Guile é enfático: “Atualmente o CMI não é mais tão importante quanto antes, e isso é bom, pois se deve à diversificação de mídias alternativas atualmente em ação. Ainda assim, como o CMI começou na internet e na imprensa escrita, e a internet e a escrita começaram nas elites nacionais, permanece o desafio de se chegar cada vez mais aos grupos mais oprimidos, estabelecendo com eles relações cada vez mais dialógicas e colaborativas”.

Camarada d. afirma que o caminho a ser trilhado por qualquer mídia alternativa é o de acompanhar os movimentos de base, levando adiante o princípio elementar de que “todo mundo é capaz de se expressar sobre suas necessidades, suas lutas”. Preocupação parecida com a levantada por Dedeco, para quem o CMI é constantemente submetido a tentativas de cooptação, especialmente intensificadas durante este período de governos petistas. Nas suas próprias palavras: “manter a independência do CMI, hoje, significa aprofundar o compromisso com a apropriação real dos meios de comunicação pelas classes e grupos sociais explorados e oprimidos da sociedade.”

Por Passa Palavra, colaboradores e ex-colaboradores do CMI-BR

CMI Brasil: http://www.midiaindependente.org/

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