“Uma revolução real é uma massa de contradições”: entrevista com um voluntário em Rojava

A revolução está avançando mediante formas de democracia popular, libertação das mulheres e algum tipo de economia solidária. A vida em Rojava é melhor para mais pessoas do que na maior parte do Oriente Médio. Plan C entrevista Peter Loo

Em outubro de 2016 Peter Loo chegou a Rojava [1] para trabalhar voluntariamente como professor de inglês e participar do cotidiano daquela sociedade – era o resultado de mais de 14 meses de organização pelo Grupo de Solidariedade a Rojava do Plan C [2]. Atualmente ele está trabalhando na campanha do SYPG [Instituto pela Solidariedade e Unidade dos Povos, na sigla em curdo] em Qamishlo. Além de oferecer as suas habilidades diretamente, Peter tem viajado a vários lugares em Rojava e conversado com muitas pessoas sobre o quanto o futuro da região e de toda a Síria segue indefinido. Esta entrevista ocorreu em dezembro de 2016.

Grupo de Solidariedade à Rojava (GS): Olá, Peter. Temos muitas perguntas sobre suas experiências até agora, mas talvez você possa explicar um pouco a história para os leitores que não conheçam os detalhes.

Peter Loo (PL): Bem, devemos começar falando brevemente das origens da revolução. Muitos pulam essa parte, mas ela é fundamental para se entender a dinâmica da revolução como um todo. O Partido da Unidade Democrática (PYD, na sigla em curdo), que liderou a revolução, tem atuado no norte da Síria / Curdistão Ocidental (Rojava é o nome curdo para Oeste) desde 2003. Antes dele, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, na sigla em curdo), a quem o PYD é filiado, tinha sido autorizado pelo regime a utilizar a região como base de organização contra o Estado turco, até a sua expulsão em 1998.

O primeiro protesto contra Assad ocorreu no início de 2011 e, na primavera, o PYD começou a concentrar esforços na organização da comunidade curda, formando comitês locais e unidades armadas de autodefesa (as precursoras do YPG e das forças femininas do YPJ). Essa deveria ser a base social da revolução. Em meados de julho de 2012, quando a luta social contra Assad transformou-se num conflito militar sangrento, que envolvia diversos poderes internacionais, aquelas unidades de autodefesa, reforçadas por guerrilheiros treinados pelo PKK, expulsaram as forças do regime de várias cidades no norte do país. As unidades de defesa do PYD tomaram o controle das principais estradas e expulsaram as forças do regime de lugares-chave com poucos confrontos e baixas.

A revolta teve uma geografia diferente: áreas de população predominantemente curda, onde o PYD estave se organizando, foram aquelas em que houve levante e expulsão das forças do regime. Em áreas sem maioria esmagadora curda, as forças de Assad conseguiram manter sua presença. Aqui em Qamishlo, onde estima-se 20% de apoio da população ao regime, ocorreram alguns duros combates mas o regime conseguiu manter o controle de muitos prédios públicos. Julho de 2012 marca o aparecimento de Rojava como uma força distinta no conflito sírio. Os cantões que se formaram declararam oposição a Assad (argumentando, no entanto, que ele deveria ser removido do cargo através de eleições, e não pela força), não como parte da constelação rapidamente fragmentada dos Rebeldes Sírios. É complicada a relação entre Rojava e o Exército Livre da Síria (FSA, na sigla em inglês) – as forças militares inicialmente formadas pelos rebeldes – havendo exemplos tanto de cooperação quanto de conflito entre Rojava e diferentes parcelas do FSA desde o início da revolução.

Este relato das origens da revolução como insurreição popular é contestado pelos mais críticos da Revolução de Rojava, que se recusam em juntar-se a uma revolta mais ampla contra Assad. No Reino Unido, de modo mais explícito, entre estes críticos estão Robin Yassin-Kassab e Leila al-Shami, autores de Burning Country. Neste livro, que só toca no tema de Rojava brevemente, os autores argumentam que a retirada das forças de Assad foi “aparentemente coordenada” com o PYD, cuja chegada ao poder já era um fato consumado, sendo acordado de antemão com o regime a liberação de tropas para o combate contra os rebeldes em outros lugares. Estas duas narrativas (fato consumado ou insurreição bem-sucedida) são conflitantes e eu não tenho uma resposta definitiva – talvez as coisas fiquem mais claras em poucos meses, à medida que for se delineando o futuro do relacionamento entre Rojava e o regime. No entanto, a tese do fato consumado não explica por que houve baixas militares nos primeiros dias, nem por que as hostilidades continuam acontecendo esporadicamente. Uma conspiração não parece provável. Em vez disso, [é provável que] ao reconhecer que a realidade política de Rojava havia se transformado com a insurreição, Assad renegociou sua posição política em relação a esta parte da Síria, possivelmente mantendo abertas as suas alternativas a longo prazo.

A partir deste início a revolução se expandiu geograficamente – dois dos três cantões estão diretamente conectados (Kobane e Cizire), e segue a luta para conectá-los ao cantão de Efrin – como também se expandiu socialmente. Foi instituído um sistema político baseado na descentralização (o confederalismo) e na construção das “comunas” em nível local, um sistema econômico que prioriza cooperativas e assegura localmente as necessidades básicas das pessoas, e uma gigantesca transformação das relações de gênero em curso. Esta é uma das mais empolgantes lutas políticas que têm ocorrido no mundo atualmente, tanto em termos de escala quanto de conteúdo, ainda mais impressionante tendo em conta o conflito que continua a se desenrolar na Síria e a hostilidade vinda dos países vizinhos.

GS: Depois retomaremos o tema da relação entre a revolução e o regime. Então a revolução começou como um movimento liderado pelo PYD, apoiado principalmente por curdos?

PL: Exatamente. Depois do que podemos chamar de fase insurrecional da revolução – eliminando o regime do controle efetivo – a fase seguinte foi a de uma consolidação política e da implementação de um programa político. Este programa tem três eixos centrais: um sistema de democracia de base (que se dá numa relação com partidos políticos formais e uma forma de sistema representativo), conhecido por confederalismo democrático; uma revolução feminina; e um programa ecológico (de longe o aspecto menos desenvolvido até o momento). Conseguir apoio a este programa, para além do PYD e da comunidade curda, foram as tarefas imediatas da revolução.

Muitos pequenos partidos políticos formam agora uma parte ativa da revolução, trabalhando juntos no interior do Movimento por uma Sociedade Democrática (TEV-DEM, na sigla curda). Obviamente, nem todos apoiam esse processo. O Conselho Nacional Curdo (ENKS), uma coalizão de 16 partidos dominada por Massoud Barzani, presidente do Governo Regional Curdo (KRG) do Iraque, tem sido um declarado opositor de muitos dos desenvolvimentos em Rojava. Barzani não compartilha da visão política do PYD, modelando o KRG no rumo de Estado petroleiro, a exemplo de Dubai, e implementa atualmente um embargo total a Rojava, em cooperação com o seu aliado, a Turquia, o que tem gerado todo o tipo de problema. Em função destas tensões, Carl Drott, da Universidade de Oxford, disse que “às vezes parece que a única política consistente do Conselho Nacional Curdo [ENKS] é opor-se a qualquer coisa que o PYD faça”.

Ainda mais importante é que a revolução tem priorizado a conquista da confiança e do apoio de todas as comunidades aqui em Rojava. Estas comunidades (árabe, síria, chechena, armênia, turcomana, etc.) estão cada vez mais participando, em maior número, conforme o tempo vai passando, e veem as ideias de revolução – e seus benefícios – sendo postas em prática, tanto quanto veem que não há um retorno do regime. As razões para apoiar a revolução variam dos mais motivados politicamente, que desejam um Curdistão livre ou a crença nas políticas de Öcalan [o líder do PKK, preso na Turquia] e sua visão de confederalismo, ao desejo menos abstrato de paz, segurança e garantia de serviços básicos, que a revolução está proporcionando. Todos aqui amam profundamente o YPG e o YPJ e esse apoio se estendeu à aliança militar – as Forças Democráticas Sírias – que eles construíram com outras milícias progressistas (de diferentes etnias) da região.

A revolução começou dentro da comunidade curda e a conquista de apoio no interior de outras comunidades é uma prioridade central. Isso inclui trabalhar com milhares de refugiados árabes que fogem do conflito por toda a Síria e que estão sendo impedidos pela Turquia de viajar para a Europa. Parte do meu trabalho aqui com o TEV-DEM gira em torno da construção desse apoio entre as comunidades. A comunidade assíria [também chamada de siríaca], por exemplo, está fortemente dividida entre o regime e a revolução, sendo que cada facção tem as suas próprias unidades militares e policiais. Atravessando os bairros assírios estas divisões são bastante nítidas, uma rua cheia de retratos de Assad e bandeiras do regime, a seguinte com pontos de controle pró-revolução com slogans revolucionários nos muros.

GS: Vamos abordar a espinhosa questão da relação entre o regime e o PYD. Resumindo, o que está acontecendo?

PL: Bem, como eu disse antes, a revolução não expulsou o regime em todos os lugares. Aqui em Qamishlo, o regime ainda tem uma presença. Por exemplo, quando Aleppo foi “liberada” recentemente, em alguns bairros foram estrondosas as celebrações pela vitória de Assad, e o regime ainda paga os salários de alguns funcionários públicos, como os professores. Ocasionalmente surgem conflitos nas cidades em que o regime ainda se faz presente, como Qamishlo e Hasseke.

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