"Mas porque é que tu é assim, Vilela? Não vês que assim alienas as pessoas?"

"Mas porque é que tu é assim, Vilela? Não vês que assim alienas as pessoas?". Eu explico porque é que sou assim em meia dúzia de linhas, para traçar um esquiço biográfico que começa quando acabei de estudar.

Depois de uma breve passagem por uma empresa de estudos de mercado que acho que nem uma semana durou, dei aulas três anos numa escola profisssional. Era a recibo verde e eu recebia um salário de três em três meses (o Setembro em Janeiro, o Outubro em Março, etc.), sem que as finanças e a segurança social se apiedassem de mim por isso.

Quando, ao fim de três anos, a escola em questão decidiu passar-me guia de marcha, fiquei sem emprego, nem subsídio de desemprego, nem nenhum apoio social durante dois penosos anos de quase completa inatividade. Digo quase completa porque, apesar de tudo, fui fazendo coisas: dei explicações, fiz vendas porta-a-porta, até ajudante de cozinha fui. Pude conhecer todo o repertório de esquemas que a burguesia (pequena, média, ou grande, conheci toda, e é toda igual nesse ponto) inventou para pagar menos, para pagar nada, para poder despachar funcionários quando lhe apetece.

Vim então para Lisboa, onde tenho circulado de call center em call center, de empresa de trabalho temporário em empresa de trabalho temporário. Trago permanentemente a sensação de que tudo pode acabar, de que posso não ter um salário no fim do mês, de que a minha vida depende do humor de um chefezinho, das contas de um managerzito, da maior ou menor amizade de um superiorzeco. É uma sensação que oprime e enraivece. É uma sensação de que me quero livrar quanto antes. É uma sensação que não entendo, isso sim, como não a partilhas.

Por isso, sim, tenho pressa de me livrar desta merda. De fazer voar pela janela os patrões, e os chefezinhos, e os burocratas, os comentadores à la Medina Carreira, que sustentam isto tudo na ideologia, e os bófias #ACAB, que sustentam isto tudo de bastão em punho. E percebo que, da tua casinha aprazível, da tua vidinha agradável, da tua satisfaçãozinha com pouco ou da tua aquiescência a que façam de ti gato-sapato, te pareça chato haver quem tenha pressa de se livrar deste regime que no fim de contas nem te tratou assim tão mal, e onde não prevês nenhuma quebra clamorosa da tua condição de vida. Percebo que o que eu te digo te aliene a ti. Já ao tipo que concorda contigo e passa todos os dias pela mesma coisa que eu com a tua amorfia, com a tua passividade, com a tua credulidade nas instituições, com a tua calma para processos graduais, lentos, processionais, arrastados, não o entendo e vou sempre chamar-lhe o Pai Tomás que é. Não consigo, não sei fazer de conta que não sei, que a passividade dele é a minha desgraça.

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