Aborto e obscurantismo

A respeito do obscurantismo que trava a plena legalização do aborto no Brasil e submete a questão - que é de saúde pública - ao pseudo-moralismo religioso:

Existe uma evidente relação de proporção inversa entre o nível de conhecimento científico de uma sociedade e o nível de autoritarismo.

Os discursos anti-aborto apelam à moral cristã na condenação do que chamam de "assassinato" e quem os utiliza tenta submeter a vontade alheia à sua crença, que, para todos os efeitos, é uma ideologia. Toda a imposição ideológica é essencialmente tirânica. Neste caso, ela é convenientemente patriarcal (se os homens engravidassem o aborto nunca teria sido criminalizado).

Além disso, considerar o mero achismo (infestado de crendices) tão válido quanto o estudo sério é uma forma de analfabetismo científico que se alimenta na tal "celebração da ignorância" a que Carl Sagan tanto se referiu.

Essa "celebração da ignorância" se dissemina livremente pela sociedade e muitas vezes é encorajada, exercendo amplo domínio da vida pública. Ela pode produzir efeitos perigosos em assuntos ligados à liberdade individual. Basta imaginar a quantidade de mulheres reprimidas ou que morrem fazendo abortos clandestinos devido à proibição com base em crendices. Noutros casos, ela pode apenas alimentar o obscurantismo difuso que molda sociedades inteiras a partir de crenças (ideologias) autoritárias. Hoje pela manhã, enquanto aguardava a minha vez na sala de espera do dentista, passei mais de meia hora assistindo uma charlatã explorando a emoção de telespectadores no programa de astrologia A Vida Nas Cartas, na emissora SIC. Pensei na ironia de ver a difusão de charlatanismo e superstição barata dentro de um espaço médico e, portanto, científico.

O exemplo pode parecer inofensivo, mas é a partir dele que o obscurantismo se dissemina. Acreditar em signos não é menos obscurantista do que acreditar que o aborto é um assassinato. Em ambos os casos há celebração da ignorância quando a racionalidade é preterida em nome da crença, e é isso que faz com que todas as formas de superstição dialoguem entre si e colaborem para o emburrecimento e o autoritarismo da sociedade.

Delas surge o charlatanismo, a impostura, o sexismo, a homofobia, o racismo, o delírio coletivo, o autoritarismo, a tirania, a violência…

Em contrapartida, a Ciência é a luz mais forte do conhecimento humano e da própria harmonia social. Ela é o antídoto ao obscurantismo. Onde há Ciência, há esperança de superação da espécie humana e da sua própria redenção perante o planeta e toda a biodiversidade. Por isso, só faz sentido falar de assuntos como o aborto de um ponto de vista científico, entendendo que é uma questão de saúde pública. Todo o resto é contaminação ideológica autoritária e quando entramos no campo das ideologias espero que o pensamento libertário predomine sempre, porque ele é o que mais procura o embasamento científico. Discursos autoritários estão geralmente atrelados às tradições do passado e ao conservadorismo que se agarra a anacronismos muitas vezes por motivações chauvinistas.

Sobretudo, é preciso combater a ignorância, para que a implacável autoridade do achismo se dilua. Porque o achismo como argumento em questões que requerem conhecimento e raciocínio lógico tem causado muitos estragos e atrasos.

por Juliano Mattos
em http://vforvinegar.blogspot.pt

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