Apoio Mútuo anti Fracking!

roubado de http://www.jornalmapa.pt/2017/05/20/apoio_mutuo_antifracking/

Para uma colaboração Ibérica contra as petrolíferas!

No dia 6 de Maio, o movimento libertário, pelas mãos da BOESG (1), trouxe novamente à discussão a exploração de gás e petróleo em Portugal. Como convidados para a sessão “Contra os Técnicos e o seu Mundo!” estiveram membros da Asembela Vecinal Urbel-Rudron, em representação da Asemblea contra la Factura Hidráulica de Burgos, o que tornou o evento numa acção ibérica.

A BOESG, na apresentação do evento, lança um olhar sobre a tecnologia e os técnicos, sem dúvida um debate de grande importância para analisar e poder decidir o futuro da Natureza, onde estamos incluídos como seres-humanos:

“Assistimos com amargura e impotência à transformação de um mundo em que a Técnica se tornou religião e ideologia e onde os seus missionários (técnicos) se propagam e ocupam um espaço cada vez mais inquestionável no quotidiano de todos os seres vivos. É a partir da necessidade de questionar este presente (e inevitavelmente um futuro) de morte a que nos tentam conduzir estes timoneiros da verdade científica, que na BOESG se organizarão três conversas centradas em três dos principais “estragos” que tornam as nossas vidas e o meio que nos envolve numa história sem qualquer final feliz possível: Combustíveis Fósseis, Mineração e Energia Nuclear.”

A Península Ibérica prepara-se para ser o ponto de entrada de energias não convencionais (areias betuminosas e gás de xisto) na Europa e, juntamente com a França (que fica a caminho), para os armazenar e distribuir. Ao mesmo tempo, ambos os governos ibéricos apoiados pela União Europeia e pelos EUA, assinam contratos de concessão para prospecção e exploração petrolífera para fontes de energia não convencionais.

Do lado de Portugal, J.Vinagre, aka Frack M’Isto (Gásnaturalnão), que vive no meio da zona com mais interesse para o gás de xisto (Zona Oeste), falou dos trabalhos das petrolíferas desde 1900 até aos dias de hoje, os seus nomes, interesses, locais de concessão, alertou para a importação vinda dos EUA – não só das petrolíferas como da sua mentalidade de progresso – e abriu uma porta para a discussão da importação moral, ética e intelectual das soluções ambientais propostas por ONG’s americanas, canadianas e mesmo europeias e do papel de Fundações Filantrópicas nos movimentos Anti- Energias Fósseis e Pró Renováveis.

A intenção era demonstrar que a procura de petróleo em Portugal e a continuação na aposta em fontes de energia fóssil sempre foi, e ainda é, baseada em interesses meramente económicos típicos da mentalidade Ocidental; que as petrolíferas estão preparadas para acções contra elas próprias, principalmente porque se foram munindo de respostas para as críticas e legitimam-se ao aparecerem já de braço dado com ONG’s sob o seu controle, e também porque dezenas de anos de lobbing, corrupção e solidariedade política deram os seus frutos… Como, então, demonstrar o impacto social mundial da total dependência do petróleo no séc. XX e do gás natural para o séc. XXI?

Sendo um evento ibérico, não se podia deixar de falar nas semelhanças e diferenças entre o caminho das concessões em Portugal e nos territórios autónomos da Península. J.V. descobriu, em 2012, a intenção de se procurar gás natural não convencional, o que levou à criação do blog Gasnaturalnão (https://gasnaturalnao.wordpress.com/) para guardar e divulgar informação. Um pouco antes, na Cantábria iniciara-se um movimento contra o Fracking, depois de, em 2011, um jornalista ter divulgado documentos que comprovavam a intenção de multinacionais irem procurar Gás de Xisto (Shale Gas) nos territórios autónomos da Cantábria, País Basco e na área de Burgos. Um movimento com raiz popular que trabalha de perto com os aldeões e citadinos, não descurando o trabalho institucional/político nas assembleias municipais, e junto do governo local e nacional.

Edu (de Burgos), que vive na área do rio Urbel e do rio Rudron, ameaçados pelo Fracking, demonstrou como as concessões se alastraram rapidamente depois da primeira ter sido iniciada, como as petrolíferas e governos aliciam as populações com promessas de riqueza local, emprego e desenvolvimento e como o trabalho junto das populações é importante para desmistificar as «verdades petrolíferas» e desconstruir a demagogia que o lobby tecnocrata utiliza a favor da exploração de energias fósseis.

Edu, depois da explicação do que se passa do outro lado da fronteira ao nível de concessões e acções contra a exploração petrolífera levadas a cabo pelas assembleias populares e moradores locais, falou de como o referido Grupo de Cantábria foi importante no modo como hoje se organizam.

«A assembleia é constituída por pessoas que falam a título individual e não representam nenhum movimento. As vozes das pessoas presentes na reunião contam por igual. Algumas pessoas da assembleia que integram outros colectivos não representam o seu colectivo. A sua voz vale o mesmo sem levar em conta todo o colectivo que está por trás da sua opinião. (…) Evitamos ter caras que se identifiquem como porta-vozes ou líderes da Assembleia. Funcionamos horizontalmente e acreditamos que é importante que todos se sintam parte importante da assembleia. Estamos convencidos de que só o trabalho em conjunto de muitas pessoas pode evitar o Fracking. Cada pessoa é necessária e envolve-se segundo as suas possibilidades.» (2)

Tanto o Grupo de Cantábria como o de Burgos rejeitam identificações ideológicas ou partidárias, o que dizem que facilitou o trabalho ao evitar interpretações ideologicamente cegas. A sua principal mensagem é: No al Fracking. Ni en tu Pueblo ni en Ningún otro Lugar!

Desde 2015, depois da Frackanpada (3), encontro internacional anti Fracking, algumas pessoas com afinidades, de Portugal e Zonas Autónomas Peninsulares, ameaçadas pelo Fracking e não convencionais começam a pensar em realizar um encontro peninsular contra o Fracking e as petrolíferas. Depois da participação, em 2016, na 2ª Romaria contra o Fracking, com a população de Masa (Burgos, Castilha e Leon) e a Asemblea Vecinal de Urbel e Rudron, este foi o primeiro passo, em Portugal, para um encontro peninsular.

No dia 6 de Maio, na BOESG, não houve tempo para falar de tudo. Mas, nos dias precedentes, houve muita conversa e chegou-se à conclusão de que, além de possível, é necessária uma União entre populações peninsulares. Pontos em comum não faltam.

Decidiu-se que a primeira colaboração poderá ser sobre os Rios Urbel e Rudron, e a bacia Hidrográfica do Douro. De facto, o início dos trabalhos de prospecção, em Burgos ou mesmo na Cantábria, pode contaminar as águas do Douro, um rio comum com um problema comum. Outro ponto de colaboração terá a ver com as tentativas de aumento de extracção, através de estimulação de gás e petróleo no já existente campo petrolífero de Ayoluengo (4), em Sargentes de la Lora, Burgos, um campo único na Península e um exemplo perfeito de como as petrolíferas mentem e não cumprem o que prometem. Edu mostrou fotos de derrames, pequenos incêndios e, principalmente, de problemas nas infraestruturas e suas «soluções», nomeadamente a forma como os responsáveis pelo campo remendam as torneiras, os buracos e outros locais de fuga de gás, petróleo ou produtos tóxicos, sem realmente estarem a resolver o problema. Explicou ainda como este campo petrolífero trouxe desertificação e pobreza à zona, ao contrário do que as petrolíferas prometiam há 40 anos atrás… Juntamente com a contaminação, o cheiro e a desertificação, as petrolíferas que exploram o Campo de Ayoluengo edificaram, perto do local, um Museu do Petróleo, em plena zona protegida do Parque Natural de las Hoces del Alto Ebro y Rudrón. Edu passou um vídeo de água a sair do chão que pega fogo. Uma água estava contaminada com hidrocarbonetos das prospeções dos anos 60 e uma pequena fonte onde a água borbulhava devido à quantidade de gás que se encontra no lençol freático por causa dos trabalhos no campo petrolífero.

De seguida, Edu levantou a questão dos sismos provocados pela indústria, mostrando gráficos do aumento de 200% dos sismos em Oklahom devido à extracção de gás de xisto e à injecção de fluidos tóxicos resultantes dos trabalhos. De notar que a área perto de um dos locais onde querem utilizar a fractura hidráulica, está perto da maior fábrica de explosivos da Península, a Maxam Beyond Performance, a empresa que nasce no seguimento da Sociedad Española de la Pólvora Dinamita, criada por Alfred Nobel em 1872. Em Portugal, apresenta-se como fornecedora de “produtos para detonações e prestadora de serviços de assistência técnica para mineração, exploração de pedreiras e obras de infraestrutura de âmbito mundial.”

Houve ainda a oportunidade para se ver algumas das acções levadas a cabo com as populações locais, como assembleias populares nos povoados, manifestações nas cidades, bicicletadas, passeios, concertos, visitas geológicas, etc…

As petrolíferas encontraram, desde o início, uma resistência permanente. Neste momento, quase todas as concessões estão em avaliação ou foram abandonadas pelas corporações. Existem casos onde as empresas dizem já não ser necessário o Fracking para extracção como, por exemplo, na concessão em Victória, País Basco, onde se realizou a Frackanpada, e onde as corporações pretendem de novo investir na prospecção.

Em Portugal, a resistência só agora está a começar, quando parece que, do outro lado da fronteira, tudo aparenta estar a acabar, ou assim querem fazer parecer as corporações. Como salientou Edu, ninguém acredita, são muitos anos, muito dinheiro investido e muitos interesses internacionais e locais…

Ambos ficaram com a força e a energia que, esperemos, nos dê mais alento para continuar uma luta cansativa. Levaram também uma ideia mais clara do que se passa em Portugal ao nível das multinacionais portuguesas com investimentos em gás em Espanha e dos seus projectos para controlar o mercado do gás natural europeu, através da construção de mega infraestruturas na Península. Exemplos como a EDP e REN que, tal como corporações espanholas, a Fenosa, a Iberdrola, a Gas Natural Fenosa, etc., investem tanto nas energias fósseis como nas energias renováveis, ou como a Repsol que quer explorar no onshore espanhol como também no offshore português, continuando a sua exploração no Golfo de Cádiz, alargando-a para o Sul do Algarve até quase aos Açores. Não só para Deep Off Shore como também para a extracção de Hidratos de Metano, as políticas europeias de energia são outro assunto a desenvolver em conjunto.

Mas, os problemas não se limitam às energias fósseis e há mesmo uma outra questão que as ONG’s não querem trazer a público: são os impactos das fontes de energia renovável, nomeadamente as eólicas, grandes infraestruturas de energia solar, rede de alta tensão, barragens, etc..

Na sessão organizada pela BOESG, o debate que se seguiu depois das apresentações, foi iniciado por um elemento da Plataforma contra o TTIP e o CETA (5), este foi outro assunto que veio fortalecer a ideia de união ibérica entre movimentos, quando muita gente ainda não se apercebeu dos efeitos destes acordos no futuro.

A caminho de casa, passámos com os activistas de Burgos pela Zona Oeste, área (em terra) de interesse fundamental para as petrolíferas, parámos em Enxara do Bispo e visitámos o local de prospecção de petróleo (1970/1980), onde ainda se mantêm as infraestruturas do furo.

Foi a primeira acção ibérica conjunta no terreno em Portugal. Uma quantidade de pessoas com um interesse comum ficaram a conhecer-se e reforçou-se a necessidade e a vontade de um encontro ibérico com vários grupos anti Fracking, que junte também outros movimentos sociais e artísticos. Até lá, continuar-se-á a manter o contacto e a partilhar experiências.

Fractura Hidráulica nem aqui, nem em lado nenhum

J. Vinagre

Comentários

Submeter um novo comentário

O conteúdo deste campo é privado e não irá ser exibido publicamente.
CAPTCHA
Esta pergunta serve para confirmar se és uma pessoa ou não e para prevenir publicaçãos automatizadas