E se aos 73 anos estivesse a 2 meses de ser despejada?

A Maria mora na mesma casa há 63 anos. Agora o senhorio quer o prédio para alojar turistas e a Maria tem de sair.

Estávamos em Fevereiro e o tribunal decretou a data: 31 de Julho.

Que crime cometeu Maria? Nunca falhou uma renda. Nunca danificou o apartamento. Pelo contrário, pagou várias obras do seu bolso.

Mas o tribunal decretou. Maria, sem conhecer todos os seus direitos, viu-se obrigada a aceitar a decisão e começou a procurar nova habitação em Fevereiro. A Junta e a Santa Casa disseram “não há nada, fale com a Câmara”. A Câmara disse “fale com a Junta”. As semanas foram passando.

Maria tentou junto do mercado privado, aquele que supostamente tudo resolve. Visitou a Associação Lisbonense de Proprietários, mas tudo era demasiado caro para a sua reforma, com a agravante de uma enormidade de exigências sobre a fiadora, que considerou o nível de intrusividade dos senhorios inaceitável e temia pela sua habitação. Hoje é impossível arrendar em Lisboa sem fiador, excluindo à partida toda a gente que não tenha a sorte de ter um familiar ou amigo proprietário ou com rendimento fixo.

Consultou as imobiliárias mas, pelos 400€ que pode oferecer e ainda restar dinheiro para a comida, água, luz e gás, querem-na mandar para Sintra, no mínimo. Mas Maria sempre viveu em Lisboa. Como ia fazer para ter acesso aos serviços de que depende, ao Hospital e às consultas que precisa para manter a sua saúde? Só em viagens ficaria sem dinheiro para o resto, já para não falar no tempo e desgaste – e a crueldade de exilar alguém que vive desde os 10 anos no centro para a periferia, onde não tem quaisquer laços sociais.

Por múltiplas vezes foram-lhe sendo prometidas visitas a casa, ficando à espera da marcação do dia. Mas a chamada nunca mais chegava. Quando ligava, era sempre o mesmo “já foi arrendada”.

Finalmente apareceu uma casa promissora, na Amadora. Tudo parecia estar encaminhado para conseguir mudar-se antes de 31 de Julho. Mas então o agente da imobiliária disse que nada feito – a senhoria não arrendava a reformados porque “depois era um problema para os tirar de lá” – a mesma senhoria que antes havia pedido um jeitinho para não pagar às Finanças.

Com o tempo a escassear, Maria espera agora para saber novidades de uma outra casa, em Carnide, um apartamento de porteira. Será que é desta vez que lhe concedem o privilégio de pagar para arrendar uma casa?

Maria fez tudo segundo as regras – as regras dos senhorios, do Estado e do mercado. Mas tem 73 anos e faltam 2 meses. A Rede de Solidariedade irá lutar para que Maria não seja mais uma vítima da selvajaria dos nossos dias.

https://rededesolidariedade.wordpress.com/2017/05/25/73-anos-2-meses-des...

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