Comunicado - Pedrógão Grande: é preciso ouvir Cassandra

PEDRÓGÃO GRANDE: É PRECISO OUVIR CASSANDRA

A catástrofe anunciada por Cassandra embateu no muro da incredulidade e imprevidência dos troianos. Será sempre assim?

Desde 1970, e mesmo antes, o movimento paisagista, ecológico, ambiental, conservacionista em Portugal foi a Cassandra perante o estado do nosso território, a quem todos tapavam os próprios ouvidos como Ulisses aos seus marinheiros.

Sim, os responsáveis abanavam sensata e afirmativamente a cabeça. E, com as mãos e com os pés, faziam exatamente o contrário. E em cinco décadas o nosso território foi devastado como Troia sob os golpes de Aquiles.

QUE NÃO FALTE O SEGUNDO MOMENTO
Pedrógão Grande é uma tragédia e o primeiro momento é o da dor e da solidariedade. Faltar ao segundo momento será porém tão grave como faltar ao primeiro.

E o segundo momento é o de, finalmente, ouvir Cassandra. Não se evitou o desastre ao longo de cinco décadas, pelo contrário, agravaram-se continuamente os erros. Que não haja ilusões: cinquenta anos não serão suficientes para corrigir todos os erros praticados. Mas são suficientes para mudar decididamente de rumo, e a guinada no leme deve ser dada de imediato.

O estado do território é tal que irrupções violentas de fogos de maior ou menor amplitude continuarão — oxalá que nunca como a destes dias rubros e negros de meados de junho de 2017 — enquanto a mudança não tiver sido suficientemente concretizada numa alteração profunda do coberto vegetal e enquanto o país interior não for reabitado por gente que se dedique antes de mais a retificar os erros e a sarar as feridas da terra e da paisagem. É preciso porém e inadiável pôr de imediato mãos à obra.

Em pouco tempo ouviram-se já múltiplos apelos à autocensura de quem, num segundo momento, ousa pôr o dedo em certas feridas. Segundo esses, deveríamos limitar-nos a exprimir dor e solidariedade, dizem, no meio de sarcasmos e crítica ácida a quem deteta o erro fundamental: o coberto vegetal caótico reforçado pelo abandono do território. Sobretudo deveríamos ficar calados, dizem os que falam como se tivessem o monopólio da dor e condenam quem à dor queira juntar a razão e o pensamento, ferramentas imprescindíveis para evitar ou mitigar novas tragégias e novas dores.

UMA ALIANÇA PARA O FUTURO
A Campo Aberto - associação de defesa do ambiente, como a generalidade do movimento ecológico, propugna há décadas uma regeneração que passa também pela revitalização da pequena e média agricultura, com base numa clara orientação ecológica. Sob o impacto do desastroso verão de 2016, colocámos, com outras entidades e cidadãos, a primeira pedra de uma Aliança que, à medida das suas possibilidades, contribua para que se torne prioritária a retificação dos erros que estão na base de todos estes recorrentes e sistemáticos desastres. Veja-se:

http://www.campoaberto.pt/?p=1713010

Será uma Aliança que trabalhará para a revalorização da floresta autóctone e para o recuo das monoculturas extensivas e contínuas para produção de pau e pasta de papel, por um lado, e para a revalorização do mundo rural e da agricultura, por outro lado. Para que o abandono do nosso território deixe de fazer dele uma «máquina de acumular combustível pronto a arder» e passe a ser o chão fértil onde crescerão os frutos, os alimentos, a sombra, a água, a árvore sem a ameaça constante da explosão na fogueira.

Campo Aberto - associação de defesa do ambiente
20 de junho de 2017

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