Labor improbus omnia vincit! - De Pedrógão não ardem só eucaliptos

Labor improbus omnia vincit!

De Pedrógão não ardem só eucaliptos

E além dos carvalhos, dos castanheiros e dos vidoeiros, também aquelas árvores de fruto terrivelmente miraculadas de que falam os poemas irados de quem meteu as mãos pela garganta da neve.

Estamos pobres. Queimaram mais do que matas, mais do que as camarinhas selvagens, as bagas agri-doces onde a brisa do Atlântico vinha morrer, mais do que as sardaniscas esquivas e o último melro. Queimaram a esperança de uma ideia humana e colectiva viver acima de um discurso de verdade que, da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, se alicerça na absoluta rendição a uma burocracia estatal e a um aparato mediático. Mega-máquina, separada da realidade e que nos mantém a nós dela separados; solfejo na boca de uma classe profissional e de técnicos que mesmo antes de enfeitiçarem, distribuindo beijos e discursos, antes mesmo de abrirem a boca, são um insulto à inteligência e à autonomia, um encómio à nossa domesticação e paralisia.

Deixámos que limitassem o nosso horizonte de pensar e agir. Fizeram-nos crer que não há aceiros por onde deixar correr e escapar a liberdade, outra liberdade. Que ser inepto é esse em que nos tornámos, que não só acredita numa solução baseada numa parafernália técnica e nas decisões de uma classe separada, e na tecnologia infalível da SIRESP, agora bode expiatório, como nem sequer vê aquém e além disso? Esse ser inepto, que não reconhece em si próprio e no outro a capacidade de definir o destino e transformar a realidade, somos nós.

Para lá dessa prisão, eu vi gente levantar-se por outeiros e várzeas com o rumor da terra, saltando muros e cercas que o tempo impôs, arrancando eucaliptos e pinheiros nesciamente plantados para que vingassem os carvalhos e a flor da cerejeira. Foi ontem, ontem mesmo. Traziam um legado de séculos, gente que dependia de si mesma, ensaiando erros e sucessos, para refazer o mundo.

A cada instante, não ardem só florestas, a garça purpurea e o tojo, arde o presente, escapando a cada um de nós, intensificando a perda da noção de futuro. Atomizados e isolados nesse instante que consome em permanência, desesperadamente incapazes, perde-se o devir colectivo. Constrangidos pelos valores do imediatismo e do utilitarismo, pilares do tempo actual, cúmplices de uma dinâmica de terraplanagem dos horizontes.

Pode haver amor à vida livre e ao uso da consciência, amor ao ser humano, onde não há cólera contra a estúpida injustiça que causa sofrimento humano?

A eucaliptização não se reduz ao dragão da maldade, mas opera como um símbolo.

Não é como espectadores, assalariados e cidadãos exemplares, peças de museu da falsa democracia, que decifraremos o enigma do fogo e desta realidade que arde há duas décadas.

A propósito de uma petição que circula na rede virtual propondo que os reclusos sejam cooptados para limpar a floresta, ouvimos a esquerda, radicalmente cristalizada pelas fronteiras onde o tempo as quis integradas, clamar: prisioneiros a limpar matas não, trabalhadores sim! Vinde pois operários e operárias ganhar o vosso quinhão sob a punção de que só assim se refaz este mundo infernal e quiçá, vergando a mola e arrecadando uma gavela para matar a fome, não morra mais gente neste país!

Ó esquerda progressista que aceitais limpar a soldo os campos e a campa, como o bom cangalheiro, para irdes parar ao paraíso do capital!
Ó esquerda que aguardas pelo relatório da enésima comissão para tirares conclusões especializadas para que dessa forma a evidência do simples saber e a sensatez de séculos de conhecimento popular, colectivamente gerado, preservado durante anos e anos a fio e democraticamente executado, seja triturado pela tua ideia de desenvolvimento. Essa gente de antanho, cuja sabedoria e resistência veio muito antes da Carta dos Direitos Fundamentais da UE, essa gente que ignorava que uma carta de direitos lhes seria útil para ergueram a casa, nutrirem o campo e o corpo, e fazerem a festa, decidia em comunhão e liberdade. Eles tinham a consciência dos seus limites. Eles sabiam onde terminava o horizonte, e outro podia ser imaginado. Sei. A carta de direitos, ó esquerda impante em salvaguardar os direitos da teoria burguesa, é-te útil porque assim podes crer, podes religiosamente porfiar, que o mais raso e aviltado dos trabalhadores, o mais humilhado e esgotado, possa resolver a equação entre a tua ignorância dos limites e a tua ausência de horizonte. Assim bate tudo certo. Para o ano há mais. Menos 26 mil hectares e menos 64 pessoas para morrer. Ao menos, se do alto da tua arrogância ainda te sobrar um pingo de humildade, pede um relatório à secretaria de Estado para que te indiquem que limites te roubaram ontem, que horizontes deixaste de poder ver, que tipo de adaptações securitárias precisarás amanhã para que a tua luta continue e, dessa forma, possas regular a luta de classes e contribuir para a manutenção da cultura de poder técnico e mercantilizado, nas mãos dos amos de sempre, para que estes floresçam e tu, espectador, fiques mais sossegado.

É pouco e é brando. O ideal da esquerda radical é poder escrever melhor o Diário da República e sentir-se cumprida postando no Facebook o decreto de cada dia. Cada dia uma valsa, um passo atrás, outro à frente, para que tudo fique na mesma, no teu abraço geral com o poder.

Assim, esquerda radical, ajudas a repor a linha que traça a mentira lucrativa, a ideologia patrilinear do direito e a resposta tecnocrática a la garder, hóstia sagrada da igreja do desenvolvimento sustentável. São as tuas certezas. Para cá dessa linha, eu vi a possibilidade do equívoco, gente que em conselho aberto tomava nas mãos o seu destino e responsabilidade, e fazia da entreajuda e da horizontalidade das decisões a sua mais sólida ferramenta. O legado do equívoco continua à espera, em aberto e amplo, para que o humano se complete com o outro e rasgue outro futuro.

Na hiper-lírica dos naufrágios mediáticos, não concebes outra táctica senão a de adiar o desastre e não concebes outra visão que não reforce as coerções dos decretos, dos diplomas, dos plebiscitos, das petições, para que cada qual e todos no seu conjunto se submetam ainda mais a estruturas de poder, separadas de cada um de nós e da nossa realidade. Sociedade de polícias, militares, políticos profissionais e mercenários da falsa democracia. Carta dos Direitos Humanos, esses direitos nunca garantidos nem no nosso castelo de fadas ocidental enquanto tu comes melancias encortiçadas da China e eu escrevo sobre o cobre da fibra-óptica arrancado por meninas fair-trade da Índia. Elas conhecem o preço da tua carta de direitos. Esses direitos que estão sempre a favor do vento e contra nós, contra a luta pela libertação humana, almejando limitá-la e reprimi-la dentro das vias institucionais, legais e neo-liberais-social-democratas, enfarinhando-nos com o direito à greve, com o direito ao trabalho, com a liberdade de imprensa, com a liberdade sindical. Reaccionários e progressistas, enquanto falam em termos de liberdade e igualdade, não fazem mais do que reforçar as teias da burocracia estatal, sua mega-máquina de destruir e refazer o jogo da existência, semeando o caos, o medo, a destruição, a injustiça. Não precisamos de mais liberdade outorgada em cartas solenes mas de outra liberdade, não precisamos de mais direitos e mais justiça por decreto, mas de comunidades de iguais que a deixem obsoleta.

Alguém predisse que o estado de necessidade e de penúria que se vai ampliando na sociedade da abundância material e virtual empurrariam o ser humano a reclamar novas formas de servidão, “a submissão sustentável”, na expressão da dupla Semprun/Riesel.
Ó Guerreiro que falas em neologismos (“As catástrofes e as políticas imunitárias”, ver aqui: https://www.publico.pt/2017/06/23/culturaipsilon/noticia/as-catastrofes-... ) o que em 1733 alguém concluía na Arte da Mentira Política, e outro alguém resumia nestas palavras: “É o caso das mentiras costumeiras que prognosticam catástrofes, destinadas a assustar o povo pintando-lhe um futuro negro, levando-o assim a contentar-se com um presente obscuro”.

Ó Guerreiro, terminas o teu artigo (ó sim, foste mais longe que a caterva de artigos do coro de corifeus!): “A grande catástrofe do fogo no centro do país suscitou imediatamente legítimas reclamações e todos os fantasmas de imunização, mas tais reacções ignoram as catástrofes lentas, o que acontece sem espectacularidade e de maneira mais serena. É o que está a acontecer mais a sul (...)”.
Ó Guerreiro, com tanta perspicácia, acumulas meios de conhecimento como o capitalista acumula meios de destruição, mas não retiras a conclusão do teu razoado: a catástrofe não tem geografia, não está a norte ou a sul; é o ser humano que perdeu a sua própria bússola, é esse ser incapaz de ser e realizar-se. É esse ser sem pontos cardeais.
O que está a acontecer desde há muito, a norte e a sul, no centro e na periferia, é o enraizamento de um modelo de provedoria de ideias – em número limitado e especializado, e em serviço controlado – e de um consumidor de soluções em estado passivo. Este modo de pensar é o eucaliptal mais enraizado no imaginário social e causa do imobilismo e domesticação social. É preciso sair dessa noite. Sim, cara esquerda, sem a tua colaboração, a era do neo-liberalismo não teria implantado esta cultura que toma conta de todos e dos mais ínfimos aspectos da vida humana.
Porém, lembremo-nos, os teus avós não alugaram a técnicos e profissionais a realização da casa, do milho e da colheita, da festa e da convivialidade, da regeneração e reprodução dos ciclos da terra. Nem a arte dependia de subsídios. Eles e elas dispunham do seu próprio corpo, eram senhores da sua condição.

Submetidos ao critérios da rentabilidade, à acção dos sirespes e à decisão das troikas de esquerda, cresce uma mancha de vazio. A falta de perspectiva corresponde à falta de um projecto social e humano, erguido na autonomia, na autogestão, na cooperação e numa visão que transcenda o presente infernal do mercantilismo e a cultura de valores políticos da esquerda radical, assente na profissionalização de toda a decisão politica. Não escamoteiem mais o livre arbítrio de pensar e agir em comunidades de iguais, essas sociedades de quem ainda hoje podemos ouvir o riso de escárnio face às mil astúcias da tecnofilia, dos ambientalistas profissionais, da tecno-ciência, e que vituperavam as ameaças reais e imaginárias do Estado como zurziam no mais inofensivo charlatão de feira.

De forma perversa, apareceu um ser sem forma definida, sem história, sem projecto, acabando por cumprir de maneira cínica a profecia do novo homem, tão ardentemente romantizado pela esquerda e realizado pela cultura neo-liberal. Diga-se, sem história, mas realizado na história, marioneta dos poderes dominantes.
A ironia negra deste processo é esse ser não se reconhecer como um fruto maduro da cultura dominante mas celebrar-se como um projecto identitário, meritocrático, emancipado e progressista... fruto do seu próprio trajecto: o inepto equipado; o independente acorrentado a uma miríade de estruturas tecnocráticas; um pós-alienado ligado, seguramente ligado, à solidão global.

Esta espécie exótica não vem da Austrália. Tem como pano de fundo, séculos de dominação de classe cercando-nos com espécies endémicas e destrutivas. Mas, neste admirável mundo novo, a grande neo-espécie invasora és tu, porque pela primeira vez na história o eucalipto do deserto nasce dentro de ti, tu, primeira espécie biónica a não ter de gritar “tenho fome”, “não sei ler”, és a espécie exótica que grassa de dentro para fora. És um koala fofinho de trazer por casa no jardim zoológico onde te queres enjaular. Meu querido koala, os nossos bisavós não perderiam tempo com a vergonha de 27 mil assinantes virtuais mandarem a massa carcerária lerpar. Mas talvez tu corasses ao observar a liberdade de decidir em colectivo, a força da ajuda mútua, a febre da comunhão, a felicidade de cumprirem a sua liberdade juntos e autonomamente. “De quem é o Carvalhal? É nosso!”.

Consegues imaginar o dia em que todos desertássemos do carreiro? O dia em que desertássemos do mantra, “é preciso adaptar-se às circunstâncias”?

Sei, querido koala, vais querer ver aqui idealização e romantismo. Enganas-te. Não quero voltar ao passado. Mas recuso este presente, recuso a obsolescência programada do ser humano que tu já não vês.

Ó esquerda que apenas consegues vincular a solução para a morte de 64 pessoas com o vínculo do dinheiro.

Ó marxistas, quantas voltas deu Marx no túmulo, com a vossa crença de que a propriedade privada dos meios de destruição são sagrados!

Ó esquerda em bloco cujo ideal é o pleno emprego da Suécia apoiando a indústria nacional da celulose, sim, eu sei, vós sois realistas e alguém cuidará de vós.

É preciso sair dessa noite. Insultai este caule de palavras e ideias por utópico e romântico. Voltemos a repor a medida do humano, façamos de novo das faculdades críticas um esforço colectivo feito lá, à nossa volta, onde estamos, onde vinga o eucalipto privado e podem grassar os carvalhos comuns. É nesta direcção e a este preço que se poderá bosquejar uma outra libertação.

(Júlio do Carmo Gomes)

Comentários

Submeter um novo comentário

O conteúdo deste campo é privado e não irá ser exibido publicamente.
CAPTCHA
Esta pergunta serve para confirmar se és uma pessoa ou não e para prevenir publicaçãos automatizadas