O poder não tem poder contra o poder da rua

Original em 5dias

A poeira lançada sobre o movimento Geração à Rasca ao longo das últimas semanas teve a virtude de deixar claro quem são as pessoas e os projectos políticos que não cabem dentro das suas margens. Eles tiveram a gentileza de o dizer na primeira pessoa. Dos vassalos socialistas aos barões do capital sem freio, nenhum deles está à rasca. Não estão à rasca as clientelas de anos de governos do PS, do PSD e do CDS; Não estão à rasca aqueles que continuam a apresentar lucros extraordinários, da banca ao petróleo, da guerra à exploração intensiva do trabalho; Não estão à rasca dezenas de presidentes de Câmara, de Junta e de Sociedades Anónimas corruptos e incompetentes; Não estão à rasca os acomodados funcionários da política e os herdeiros fúnebres do entreprise; Não estão à rasca os milionários dos PIN’s e os beneficiados dos PEC’s; Não está à rasca a absoluta minoria de gente que tem a absoluta maioria dos privilégios.

O sucesso e o potencial do movimento que marcou encontro para dia 12, pode ser medido pelo medo que gera nos políticos da dominação. Não devemos cair na armadilha de se achar que o espaço mediático que ele abriu se deve a qualquer tipo de simpatia. A colagem da manifestação a uma dada geração, a ideia que ele seria apenas um protesto de privilegiados com estudos à procura de posição e que seria uma protesto contra a política, latus sensu, e portanto, reaccionário, mais não pretendeu do que criar um clima de medo e suspeição entre todos os que se estão a colocar em rede e a mobilizar numa espécie de dia de raiva à portuguesa.

Tratando-se do primeiro protesto de massas convocado a partir da internet ele é a expressão nacional de um novo tipo de intervenção que parece estar a deixar as organizações tradicionais desnorteadas. Aliado ao facto do grupo de pessoas que esteve na base da iniciativa ter deixado a participação aberta a todo o activismo, o protesto não tem uma direcção centralizada, pulverizando assim com o monopólio sobre o discurso político e a acção colectiva das pessoas. Esta dupla natureza deixa evidentemente o poder com as pernas bambas pois a sua espontaneidade pode extravasar as margens do protocolo e, ao contrário de outras manifestações, será mais difícil de prever se às 17h está tudo de regresso a casa dentro dos autocarros de serviço ou se de repente se transforma o Rossio numa versão nacional da praça Tahrir.

A variedade de activismos que irá estar presente na avenida (“todos os Cidadãos, Associações, Movimentos Cívicos, Partidos, Organizações Não-Governamentais, Sindicatos, Grupos Artísticos, Recreativos e outras Colectividades”) vai levar para a rua a sua agenda mas todos se unificam na exigência de trabalho com direitos e na busca de uma sociedade mais justa. É nessa unidade, nessa fraternidade, entre as diferentes gerações e as diferentes formas de opressão, de exploração e, claro, de organização, que podem ser abertas portas para o futuro. Os que foram deixados sem direitos e sem voz tomaram de assalto a palavra e passaram ao ataque. Praticamente desde o PREC (referendo do aborto à parte) que o movimento social acumula derrotas atrás de derrotas e que as suas lutas são defensivas. O alargamento do campo da luta é fundamental para a formação da maioria social que permite as mudanças estruturais pelas quais se suspira.

Vamos à luta!