Carta aberta ao Dr Gentil Martins

Bom dia Dr Gentil Martins.

Surpreendentemente, talvez para si e para muitos, esta carta de rede social é um reencontro de alguém grato por ter estado nas suas mãos aos 4 anos de idade num bloco de operações do hospital dona Estefânia. Grato por chegar de Angola e não precisar de ir à África do Sul fazer uma correcção de hipospadias quase severa - uretra a meio do canal peniano hoje relativamente fácil de corrigir -, possibilitando-me a capacidade boa ou má de fazer amor com prazer, puro sexo ou uma filha como a que desejei com a minha ex mulher. Creio que ela também lhe está grata. A ex mulher e claro a filha! Posto isto, lamento imenso que o talento que tem com as mãos e que tanto tempo dedicou a estudar (separou gémeos siameses pela cabeça, salvou crianças moçambicanas sem possibilidades económicas, entre tantas outras coisas) desiluda hoje quem salvou e a sociedade decente sem presunção. Eu poderia ter sido um dos anormais de que fala. Por favor, até Darwin e uma criança de 3 anos explicariam isto melhor. Lamento que as crianças todas e as escolas, envolvidos num processo de memória para perceberem os erros baseados em ignorância e luta contra eles, desde a escravatura a doença mental, desde o racismo à tortura, tenham de assistir a um espectáculo criado por si de forma leviana.

Sabe... Na sala do Dona Estefânia, os seus meninos eram chamados de anormais. Mesmo. O quim era gozado por não ter rins nem cartilagem suficiente, o António era o pelo de cão porque na ferida dele não havia mais nada se não uma floresta, o João era o queimado e havia por lá um mau que molhava todos com uma seringa de água de quem não me lembro nome. Lembro-me com certeza do Moisés, sexo masculino com reconstrução total da bexiga por não existir orifício por onde urinar e lembro-me de si aos domingos. Visitava um por um e não sabia os nomes mas sabia o que tínhamos para ser tratado e seguirmos vida gostando de pessoas do mesmo sexo ou não gostando de ninguém. Mesmo discordando de si na questão do aborto, consigo compreendê-la e respeitar até se preciso for, mas não nisto veemente de dizer que a homossexualidade é uma anomalia. Não vou ler nada mais da entrevista, recuso-me a fazê-lo ainda na ressaca de um fim-de-semana maravilhoso proporcionado por si também, ao permitir curiosa e gloriosamente em volúpia, que a minha ejaculação fosse em frente em vez de cair num lençol para depois ser lavado pela melhor marca de detergente de máquinas.... que estarei para descobrir qual é. Tenho uma pequena cicatriz sua, tenho tesão ainda mental e físico por mulheres, essas castigadas por si em aborto.... mas não sei se um dia destes não terei de me mutilar, mutilar os filhos, amigos e demais por eventuais pensamentos ou desejos.

Por favor não seja teimoso, pense nos seus de sangue e nos seus que devem ser o Moisés, as gémeas, o quim e todas as "aberrações" normais e lindas que saíram há 40 anos daquelas camas e hoje olham as suas palavras.

Todos nós aprendemos naquelas camas, uns mais dias anos e meses do que outros, a respeitar a diferença... E eu não falo de uma coisa que nem nome devia ter. Durma um sono descansado, pense na menina Lila, responsável dos brinquedos, na médica assistente sensual hoje senhora idosa que trabalhava consigo, no padre sem religião e nas pulseiras de animais para dividir os quartos e identificar em caso de fuga. Pense o que lutou para que o meu pai a soldar o dia inteiro soubesse que o que eu tinha não era nada de mais e pense no que pode deitar tudo a perder se não pedir desculpa. Não tenha medo, é apenas uma incisão no ego, não tem nada a ver com credibilidade. O que fez não foi num acto de liberdade nem de libertino sequer.
Nós, os anormais, hetero ou não, exigimos mais de si saiba.

Nuno santos, 42 anos
Nuno pai
Nuno, nascido com hipospadias corrigidas e feliz com a sua glande para amar quem quer
Nuno cash - nome artístico de pseudo rock star e director de uma televisão k não é televisão

Por Nuno F. Santos Cash

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