O Povo Enrascado e os Poderes Rascas

O POVO ENRASCADO E OS PODERES RASCAS

Perante a brilhante iniciativa da “geração à rasca”, parece oportuno chamar a atenção para outras “rasquices” por cá existentes.
De facto, não é só essa geração que, uma vez terminados os estudos, se encontra sem emprego, com trabalho precário ou em actividades totalmente diferentes da sua formação académica. Na realidade a grande maioria do povo português encontra-se completamente à rasca. É este o caso de outros jovens que, provenientes de famílias pobres, não tiveram a mínima possibilidade de se dedicarem ao estudo. Desde muito jovens, quase crianças, que buscam emprego, uma qualquer saída que permita a obtenção dos recursos mínimos que lhes assegurem a sobrevivência no seio desta sociedade competitiva e exigente, onde os apelos ao consumismo, ao “cartão jovem” e outras manobras políticas, não têm a mínima correspondência com a realidade profissional em que se procuram integrar.
O que lhes aparece é o trabalho, sempre precário e mal remunerado, destinado aos pobres. Vão para as obras ou para as fábricas que ainda restam, “aprender um ofício” e trabalhar duramente sob ritmos brutais. Empregam-se em lojas, supermercados, pizarias, hotelaria, pequenas oficinas, em mil e um negócios e expedientes, onde são explorados até ao tutano, onde nem sequer a esperança lhes resta. A obrigação é trabalhar arduamente e obedecer, recebendo o ordenado mínimo ou ainda menos. São muitas centenas de milhares de jovens, de que pouco se fala, que, tal como os seus antecessores, se arrastam em busca da pretensa felicidade consumista prometida pelos políticos e media dominantes, mas que jamais chega.
Mas, além destes, temos os seus pais, cansados e desiludidos por um trabalho estupidificante, mal pago e em grande parte vitimas da precariedade, quando não do desemprego. Na maioria, vivem em casas antigas da cidade maior ou em subúrbios distantes, que lhes acrescentam 2 a 3 horas diárias de labor, ou mais, ao volante em filas sucessivas ou transportes públicos superlotados. A sua existência está permanentemente condicionada pelo garrote das prestações mensais, sobretudo da casa e muitas vezes do carro, que lhes levam uma enorme fatia do rendimento. O tempo para o lazer, a cultura, o divertimento, a família, a intervenção social e as amizades, é mínimo. Resta a bola e a senhora de Fátima., como escape quotidiano. Os mais velhos, já reformados, sobrevivem na maioria com reformas miseráveis, que são, em grande parte, encaminhadas para os laboratórios farmacêuticos e tratamentos que lhes mantém uma triste existência.
É esta a realidade da maioria da população à rasca, nas condições de vida degradantes determinadas pelos políticos e capitalistas que subjugam o país. Estes poderes rascas, exímios sucessores da “pátria de negreiros” que fomos, mantém a mesma mentalidade de poder autoritário, exibicionista e ignorante, perante um povo que dominam sem vergonha com métodos propagandísticos e repressivos dignos dos senhores de escravos seus antecessores.
Semelhantes poderes rascas estabeleceram um consórcio infame entre o capital e a política, saltando de um lado para o outro sem qualquer vergonha. É uma prática corrente a recruta dos políticos do poder nas maiores empresas e, retirados dos postos de comando, correrem a albergar-se na direcção dessas mesmas empresas. As fraudes, desvios, burlas e trapaças de toda a ordem, fazem parte do cardápio dos privilegiados do mando e dos “grandes” empresários. A fuga aos impostos, através de off-shores, incluindo o da Madeira, e mil e um expedientes, é não só permitida como encoberta. E, se por acaso, algum escândalo maior é posto a nu, logo a justiça se encarrega de encobri-lo através de meras questões formais. No caso dos pobres e trabalhadores, deparamos com uma situação completamente diferentes. Títulos e vozearia estridente, tratam de estigmatizar um pobre que roubou um saco de laranjas, um desempregado que recebeu um subsídio indevido., ou um morador num bairro pobre, apodado de “problemático”. A mentalidade dos negreiros de há dois séculos persiste entre os grupos dominantes, que se pavoneiam e intrigam entre futilidades e gastos sumptuários, face a um povo pobre, trapaceado, anestesiado e enrascado. Só a luta e auto-organização dos explorados pudera mudar esta situação.

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