José Pereira sobre o Serviço Nacional de Saúde

"A «empresarialização» de hospitais constitui um vector essencial da reforma da gestão hospitalar em curso (...)”

É assim que começa o segundo parágrafo da Resolução do Conselho de Ministros de 7 de Março de 2002, meses depois de António Guterres, Primeiro-Ministro do XIV governo, ter pedido a demissão. Um governo a 10 dias de novas eleições legislativas aprova, assim, uma resolução que urge tornar os hospitais públicos “mais vincadamente empresariais”.

Mas será que um hospital deve ser gerido como uma empresa?

Luís Filipe Pereira, Ministro da Saúde do governo seguinte, liderado por Durão Barroso, abraçou de uma maneira clara a reforma iniciada pelo seu antecessor. No mesmo ano, 31 hospitais passaram a ter o estatuto de sociedades anónimas de capitais públicos (mais tarde chamadas entidades pública empresariais (EPEs)). As EPEs continuaram a crescer nos anos seguintes, e um processo iniciado também em 2002 levou a que hoje tenhamos 4 hospitais em regime de Parcerias Público Privadas (PPPs).

Ao mesmo tempo que isto acontece, as taxas moderadoras dos hospitais públicos aumentaram drasticamente - em 2016, a taxa moderadora para um serviço de urgência polivalente num hospital público custava o dobro do que custava 6 anos antes. A falta de médicos faz-se sentir por todo o SNS e o uso de médicos que trabalham para empresas prestadoras de serviços é usada como a única forma de manter alguns hospitais em funcionamento. Estes médicos, chamados “tarefeiros”, fazem exatamente os mesmos trabalhos que os médicos do quadro, mas num regime flexível, sem terem contrato com o Estado. “O que o hospital faz neste momento é: entrega uma escala de urgência com buracos às empresas e essa empresa preenche com médicos.”, diz José Pereira, com quem conversamos hoje. Muitas vezes, os próprios chefes de equipa não sabem quem são as pessoas que vão constituir a equipa no próprio dia.

Porque não se contratam os médicos em falta?

Para conversar sobre este assunto, temos hoje connosco o José Pereira, médico interno de um hospital do SNS e ex-dirigente associativo na Associação Académica da Universidade de Lisboa. Quais têm sido as consequências da empresarialização do Serviço Nacional de Saúde? Porque é que o custo das taxas moderadoras têm aumentado drasticamente? O que é a ADSE e porque existe? Porque é que os médicos fizeram greve durante esta legislatura? Porque faltam tantos médicos ao SNS e porque não são contratados?

Ouve aqui este novo episódio.

É Apenas Fumaça

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