Outono quente no Curdistão

por José Manuel Rosendo

“Quer um Curdistão independente?”, é a pergunta a que os curdos vão responder em referendo no próximo dia 25 de Setembro. É pelo menos o que está anunciado, mas já lá vamos.

Teria de recorrer aos velhos cadernos de notas para ser rigoroso na data, mas nem é isso o mais importante. Foi há cerca de uma dezena de anos, quando andei em reportagem no Curdistão iraquiano que a Turquia bombardeava para atingir as bases do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão), que calcorreei as montanhas na companhia de um camarada repórter de imagem. Valeu-nos um grupo de crianças curdas que nos ajudaram a transportar o equipamento. Não teríamos conseguido, sem essa ajuda, subir aqueles montes atapetados de vegetação seca. E não tínhamos nada para compensar as crianças que fizeram questão de nos ajudar. Mas no final desse episódio, uma dessas crianças estendeu-me a mão aberta: “toma, são nozes do Curdistão”. O gesto marcou-me. Tenho as nozes guardadas, qual tesouro.

Isto serve como ponto prévio a este texto, assim a modos de uma declaração de interesses. Não que o episódio referido seja suficientemente importante para moldar a minha opinião no sentido de ser pró ou contra a independência do Curdistão iraquiano, mas porque respeito o que considero ser o direito dos curdos decidirem o seu destino. Na Turquia, no Iraque, na Síria, e até com os poucos curdos iranianos que conheci, sempre fui tratado com respeito. A simpatia do “outro” só não toca as almas insensíveis, mas esse afecto recebido não me afasta da tentativa de análise honesta e o mais rigorosa possível sobre o que poderão ser os próximos meses num território em que, há muito, “independência” é uma palavra dita com o coração.

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