SOS24 – jornalismo policial ou policiamento jornalístico?

por SADIQ S. HABIB
em https://www.publico.pt

A acusação do Ministério Público a 18 polícias da esquadra de Alfragide, por alegados crimes racistas contra seis jovens negros da Cova da Moura, forçou a comunicação social a considerar vozes e perspectivas até então ignoradas. Na televisão, o programa criminal da TVI24 SOS24 dedicou particular atenção ao caso, tendo convidado, para o discutir, o activista anti-racista Mamadou Ba (a 11 e 14 de Julho) e o mediador sociocultural Paulo Rodrigues (a 3 de Agosto).

O modo como o assunto foi abordado nesse programa inscreve-se na própria natureza do seu género, o chamado reality crime programming. Possível apenas graças a uma intimidade com as forças policiais, este género exemplifica a articulação entre dois distintos mecanismos de controlo social, o mediático-ideológico e o repressivo-disciplinar. O resultado, invariavelmente, é uma cobertura enviesada, produzindo sentimentos de medo relativamente a “classes perigosas” racializadas, em particular jovens negros de “bairros problemáticos”. Compreende-se então que uma emissão do SOS24 termine, depois de uma discussão do caso Cova da Moura, com a afirmação de que “podemos continuar a confiar na polícia”, assim como o recurso malicioso, durante a mesma discussão, a imagens descontextualizadas de uma detenção de jovens negros pelo Corpo de Intervenção. Tal como se percebe, finalmente, a escolha de Susana Garcia enquanto comentadora habitual do programa.

Não apenas pelo conteúdo das afirmações proferidas, como também, ou sobretudo, pelo seu estilo performativo, os comentários de Susana Garcia no SOS24 tipificam a discursividade mediática do fascismo contemporâneo, com a sua função de exercer poder sobre os interlocutores. Efectivamante, qualquer fascista sabe que as suas palavras agridem psicológica e simbolicamente os seus inimigos e que, a seu tempo, tais palavras serão complementadas pela violência física. Tal como o demonstram, aliás, o assassinato de Heather Heyer na manifestação supremacista branca de 12 de Agosto, em Charlottesville, EUA, ou entre nós os assassinatos de Alcindo Monteiro e de José Carvalho.

Este é então um registo discursivo para o qual a conformidade com os factos tem pouca importância: quando Susana Garcia se refere às segundas e terceiras gerações de afro-descendentes residentes na Cova da Moura como “marginais” e “parasitas da sociedade”, que “fazem reféns a maioria da população do bairro”, está a reproduzir uma representação delirante sem qualquer correspondência com a verdade — representação essa que habilidosamente procurou sustentar divulgando dados confidenciais relativamente à criminalidade no bairro, apresentando números relativos a acusações como se fossem condenações efectivas. Claramente, para esta jurista, os jovens negros da Cova da Moura não estão cobertos pela mesma presunção de inocência que não se esquece nunca de reclamar para os polícias acusados. A este respeito, aliás, importa questionar: como teve acesso Susana Garcia a tais números, uma vez que não estão no domínio público? Se não se trata da estratégia de defesa por parte da polícia em operação, ao menos aparenta.

É, contudo, ingénuo pensar que, da mesma forma que a luz ilumina a escuridão, face à falsidade de tais afirmações o que haja a fazer seja sujeitá-las a um debate que as confronte com a verdade dos factos. Quando diz o que diz, Susana Garcia está a proferir uma declaração performativa visando identificar um “inimigo público” a ser pura e simplesmente extirpado do corpo social. Quando o faz da forma que o faz — com a sua exaltação, o volume estridente da sua voz e as suas interrupções constantes impedindo os seus interlocutores de se fazerem ouvir —, incorpora uma paixão pelos seus argumentos que convoca uma reacção afectiva polarizada e não meramente lógica ou racional.

Este caso em particular mais não faz, contudo, que evidenciar o modo como o medium televisivo se constitui crescentemente como caixa de ressonância dos fascismos. No nosso país, esta sua natureza é reforçada pela branquitude arrasadora do meio, tornando-o particularmente hostil às minorias não brancas. É, porém, de esperar que, à medida que o caso da Esquadra de Alfragide for seguindo os seus trâmites, e que o movimento anti-racista se for fortalecendo com lideranças e protagonismo das próprias comunidades de afro-descendentes e minorias étnicas, venhamos a ser crescentemente interpelados. Se tal vier a suceder, o dever de representação que naturalmente nos compele, dada a nossa exclusão praticamente total da esfera pública, não se deve traduzir numa participação sem critérios. De ora em diante, nos casos em que façamos a escolha, estratégica e ponderada, de falar e representar as nossas comunidades, deveremos fazê-lo com consciência das dinâmicas de poder inerentes ao meio, sem ilusões. Nenhum dos nossos movimentos de libertação alguma vez contou com a simpatia dos meios de comunicação dominantes. Por que haveríamos nós de esperar algo diferente?

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