Geração à rasca (AP Dores)

Depois das manifestações de hoje, dia 12 de Março de 2011, a democracia, a sociedade, o povo voltaram a estar na ordem do dia, após se ter chegado a pensar que tudo isso eram conceitos do passado – e ainda há muita gente que assim o entenda, só que teme fazer provocações a tal tsunami.

O povo da unanimidade contra a situação fez-se mostrar. Hesita entre ser contra o regime – quando relembra o 25 de Abril de 1974 – ou contra o Sócrates, bode expiatório da desgraça nacional. A sociedade reclama por “medidas” – o que fazer? Onde trabalhar? A quem servir: a economia portuguesa ou a economia alemã? Mas é da democracia que todos sabem não existir que os comentadores mais reclamam a misteriosa existência.

Gostam de chamar à colação os povos do Norte de África para explicar – porque é precisa, sim, uma explicação – que as ditaduras eram lá que moravam. Porque aqui mora a democracia. Mas de que democracia falam os comentadores? Para usar uma expressão hipócrita muito utilizada na análise das decisões judiciais, falam de uma democracia formal. Parece uma democracia! Na substância a política tornada profissão exclusiva de seitas secretas e especialistas de pacotilha tem uma forma de enxotar observadores inconvenientes sobre o modo como os portugueses têm vindo a ser roubados faz décadas. É por querem ficar com tudo e não deixarem nada, como diz a canção, que fizeram dos partidos aquilo que são hoje: esquemas de compadrio, promotores da empregabilidade dos seus apaniguados, alimentador do terrorismo ideológico (como o dos temores lançados de haver entre os manifestantes aproveitadores para organizar distúrbios que só interessariam aos poderosos – pelos vistos nem a esses interessaram).

Não. É preciso dizer claramente: não estamos nem vivemos em democracia! A prova disso é que estamos sem alternativas. Os ladrões que tornaram o ambiente em Portugal irrespirável e se dizem peritos em política não são democratas: são políticos, isto é, para o povo efectivamente ladrões.

Esta verdade por ser simples não é demagogia. É só a verdade. E é uma verdade sem a qual não se poderá fazer política em Portugal.

A principal responsabilidade dos políticos democratas numa democracia é assegurar a perenidade do regime democrático. O regime democrático significa que em alturas de crise estejam disponíveis ao povo alternativas de governação capazes de resolver problemas como aqueles que hoje manifestamente enfrentamos. Na verdade os problemas que hoje enfrentamos têm vindo a ser escrupulosamente escamoteados de modo a evitar que esta reacção popular se tivesse produzido mais cedo. Aqui chegados, pergunta o repórter, que reclamam os manifestantes? Onde está o projecto alternativo que querem ver implementado? Isso é como perguntar ao político se tem emprego! É uma pergunta encomendada pelos políticos para os jornalistas imbecis fazerem às pessoas para as continuarem a amesquinhar.

A democracia não é isto! Se tivesse havido democracia em Portugal nos últimos anos, a desmobilização popular não teria sido aproveitada para o saque do tesouro e para impedir qualquer transparência e regulação da vida política. Os não votantes teriam sido considerados gente a conquistar para a participação em vez de inculpados do desgoverno. A democracia não é chantagem sobre os populares. É serviço ao povo, mesmo quando ele não se manifesta.

Agora ao povo resta a revolta. E muito trabalho dos democratas – se é que eles por aí existem – para reorganizar a vida política, na sua forma e na sua substância. Será possível fazê-lo a bem?

http://iscte.pt/~apad/novosite2007/blogada.html

Comentários

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