À rasca estamos todos (todos não, mas quase)

por João Pedro Cachopo

Há dois aspectos no movimento “geração à rasca” que merecem atenção.

Em primeiro lugar, o facto de a expressão constituir um ligeiro deslocamento de uma designação com sentido pejorativo: “geração rasca”, a dos meninos (mal)criados no pós-25 de Abril, a dos que têm “o rabinho lavado com água de malvas”, a dos mal-agradecidos mesmo se pobres e à rasca, a dos que se estão nas tintas e, por isso, não contam e (presume-se) não querem contar para o que quer que seja. Passa-se de “rasca” para “à rasca”, o que, no entanto, não impede que subsista uma ligeira afinidade: realmente, não deixa de ser um bocadinho “rasca” estar “à rasca” (andar sem guita, sair menos, trazer comida de casa – ora vêem, “trazer comida de casa” é mesmo roscof)

Dá-se o caso - sendo este o segundo aspecto a que me refiro -, de que não são poucos os que estão à rasca. Em todo o caso, não são certamente apenas os da tal geração rasca. À rasca estão os desempregados, os precários, os mal pagos, os endividados, tanto os que pagam propinas, quanto os que não chegam a pagá-las porque desistem de se inscrever, tanto os que têm empréstimos para pagar, quanto os que não podem sequer pensar em pedi-los...

Ou seja, a “geração à rasca” aparece como um nome de um sujeito que, na verdade, não identifica uma geração (por favor, não me venham com a história de que se trata de uma geração a vitimizar-se), mas uma situação de precariedade generalizada. Até um pensionista que esteja à rasca – parece que brinco, mas não é o caso – pode subjectivar-se na “geração à rasca”.

Generalizada, sim; mas não de modo equitativo, o que é, como sempre, o busílis da questão. Nem todos, é verdade, estão sequer à rasca (o que até conviria aos que entendem que todos têm de fazer sacrifícios, sendo que, a bem dizer, é duvidoso que tenham bem a noção do que “sacrifício” quer dizer em certos casos)

Os mandatários do status quo lançam pois as suas palavras de ordem. Esta é muito bonita: “saber muito, fazer melhor”.

Acontece que quem sabe muito e faz melhor também pode estar à rasca. Em alternativa a admitir isto, quem se ensimesmar em pensar o contrário (i.e. que têm é “o rabinho lavado com água de malvas”) tem apenas o desprezível desprezo pelos que estão à rasca que dificilmente se esconderá sob a capa de um encorajamento a fazer melhor.

Quem está à rasca sabe bem que tem de fazer melhor e faz.

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