[PORTUGAL] Gerações à rasca: " E agora, é voltar. Há ir e vir, há organizar e mudar"

[A Manifestação espontânea de dia 12 de Março, resultante de apelo no Facebook, atraíu meio milhão a Lisboa e Porto. Assembleias populares, a acontecer nas principais cidades, são o gérmen de uma revolta consequente ]

Na sequência dos acontecimentos da Tunísia, do Egipto e de outros países do Magreb, onde os movimentos populares foram iniciados através do Facebook e outras redes sociais, um pequeno grupo de jovens portugueses abriu numa página do Facebook um apelo por um milhão de pessoas na Avenida da Liberdade, a 12 de Março, para a encher em protesto. Identificavam-se como "Geração à rasca"- jovens escravos laborais "pagos" a falsos recibos verdes conhecidos também pela "geração quinhentos euros" tal como na Grécia e Irlanda - desempregados crónicos.

A maioria das pessoas começou por não levar a sério este movimento, mas através de e-mails, no twitters e SMS foram-se multiplicando e o movimento ganhou força, apesar da indiferença quase hostil de partidos políticos, sindicatos e da maioria da imprensa.

Portugal está a atravessar uma crise económica semelhante à da Grécia e à da Irlanda, com o FMI à porta, e tal como o que aconteceu na Irlanda, muito recentemente, o Partido Socialista está em negação,Merkal nega e diz que a Alemanha e a França não estão a forçar Portugal a qualquer acordo, mas tal como na Irlanda, é apenas uma questão de acordar qual a percentagem que o país terá de pagar...

Na abertura de mercados a parada já vai a 7,3%, em Portugal, e a UE pode oferecer 6% - a mesma situação que se verificou na Irlanda, que após as recentes eleições está a tentar renegociar esse valor. A "loucura" económica de Portugal não foi baseada em empréstimos bancários temerários ou na compra de propriedades, de construtores e especuladores, como na Irlanda, mas na "loucura" de investimentos em infra-estruturas como a terceira ponte sobre o rio Tejo a partir de Lisboa, um terceiro aeroporto desnecessários para Lisboa e no TGV, serviço de comboio super-rápido que ligará Portugal a Espanha e a França. Portugal tem agora mais auto-estradas por habitante do que no Reino Unido e outros projetos megalómanos em construção, a custar bilhões e acabando por ser "apenas" grandes elefantes brancos.

Apesar de Portugal aparentemente ser uma "sociedade de consumo moderna", existem muitas bolsas de pobreza escondidas por trás do verniz chamativo de modernos hotéis e campos de golfe - não há emprego. Portanto, aqueles jovens cujos pais eram "revolucionários" em 74-75 durante a "Revolução dos Cravos" não têm para onde recorrer. Eles são uma geração perdida, a "Geração à Rasca um" e não tiveram escolha senão ir para as ruas e gritar em voz alta "basta!". Rompendo o silêncio, o fascismo do silêncio que se tinha instalado nas suas vidas.

É por isso que cerca de 300.000, de acordo com a polícia, na verdade, mais próximo do meio milhão de pessoas, aderiram a uma manifestação convocada no Facebook e na qual ninguém acreditava que iria acontecer. Mas também os menos jovens aderiram, submergidos por um desemprego galopante e um custo de vida assustador e insustentável. A presença das mulheres de todas as idades era impressionante, elas que são as mais sacrificadas, as primeiras e ser desempregadas, as que pagam a crise duplamente...

Em Lisboa, a manifestação começou na Avenida da Liberdade, antes das 3 horas da tarde. Começou devagar, mas de repente transformou-se num caudal de gente. Por todo o lado cartazes artesanais e slogans originais, bem como os slogans que tinham sido sugeridos no Facebook, contra a instabilidade, música e tambores e lentamente a Avenida ficou repleta com "apenas" meio milhão de pessoas. Pura Magia (?)

Provavelmente "tudo" daria em nada, deixaria de ser notícia, submergidas as notícias com o tsunami no Japão ou algum massacre na Líbia…mas não foi "nada"!. Meio milhão de pessoas desfilando indignada numa manifestação organizada através do Facebook é um fenómeno novo. O crescimento da auto-organização descentralizada deixa os partidos políticos e os sindicatos corporativos, a direita e a esquerda, perante a evidência de serem absoletos. A extrema-direita esteve presente, tentando passar a imagem de serem "libertários" nacional socialistas, anticapitalistas… ignorarem-los pareceu ser uma boa solução. E eis que germinou em Lisboa, Porto, Braga e Coimbra a vontade de continuar, o sabor à liberdade de se auto-organizar… as Assembleias populares!

No Porto no próprio dia 12 realizou-se logo uma, no final da manifestação, contando com a presença de cerca de 200 pessoas. Nova Assembleia popular está marcada para a tarde de dia 19.

Em Braga e em Coimbra realizaram-se três dias depois. E em Lisboa uma está marcada para dia 19….

O exemplo do Porto é deveras interessante. Uma plataforma libertária lançou o repto para as Assembleias populares. Constituída pela Casa da Horta, a Casa Viva, o Colectivo Hipátia , anarquista, e a Terra Viva, com a firme intenção de afirmarem um caminho possível. Caminho que passa pela autonomia, a alegria, a resistência crítica, a criatividade, a solidariedade, a democracia directa e participativa. E sem se esquecerem que à rasca está o mundo inteiro e não apenas o nosso umbigo…

O seu Comunicado/Convocatória é deveras elucidativo das suas intenções:!

Sábado, dia 19 de Março, às 14h todos e todas à Assembleia Popular na Praça D. João I, Porto

Após a Assembleia Popular na Praça D.João I no dia 12, em que depois da manifestação cerca de duas centenas de pessoas se reuniram para expôr livremente as suas experiências e apresentar as suas propostas, é aqui proposta a continuação do movimento (directamente) democrático já no próximo sábado, com os objectivos de criar ideias, soluções, respostas, esperança e reforçar a persistência das nossas palavras e do nosso protesto, unindo-nos livremente, sem nenhuma burocracia ou desigualdade de palavra que se interponha entre a nossa opinião e a sua exposição a todos e todas.

A Assembleia é convocada pela Plataforma Libertária que inclui os colectivos Casa da Horta, a Casa Viva, o Colectivo Hipátia, Gato Vadio e a Terra Viva.

“Um dia, a alegria do teu corpo, a liberdade do teu espírito e a acção da tua autonomia vão inspirar terror ao capitalismo”.

“– Precários, não vos inquietais, a solução está nas nossas mãos, trataremos do teus problemas, o teu lugar é aqui, a máquina não pode parar!

Não precarizes o teu imaginário, reclama a vida!”

Sonho Geral, Decrescimento do Capital!

E.C.

MAIS:

Imagens de uma revolta incandescente 1; 2; 3; 4; 5

http://pt.indymedia.org/conteudo/newswire/3941

Reportagem: www.pt.indymedia.org

http://static.publico.pt/docs/sociedade/geracaoarasca/

Comunicado

"A precariedade é o estado normal das nossas vidas sob o domínio do Estado e do Capital "
http://ait-sp.blogspot.com/2011/03/precariedade-e-o-estado-normal-das.html

ASSEMBLEIA POPULAR - SÁBADO, 19 de Março - Pr. D. João I, Porto – 14h
http://ait-sp.blogspot.com/2011/03/assembleia-popular-sabado-19-de-marco...

Galeria
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Comentários

Excelente notícia. Ainda que

Excelente notícia.
Ainda que não partilhe de algumas considerações sobre o estado do país, e de desconfiar que ignorar os fascizóides não seja exactamente a melhor estratégia...

Fazia falta para contribuir para uma análise desta manifestação, e os seus desenvolvimentos, e comunicar a outros camaradas o q se passa em Portugal.

Parabêns.
Saúde e Anarquia

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