Democracia, capitalismo e pensamento único

O jornal Expresso questionou “os 5 principais candidatos à Câmara Municipal de Lisboa sobre a estratégia de cada um para o turismo na cidade”. Desta mão cheia de cabeças pensantes, não houve uma que tivesse criticado o avançar da cidade capitalista que o crescimento do turismo necessariamente implica. Da CDU ao CDS, impera uma crença profunda e inabalável no papel central que deve ser atribuído às indústrias turísticas na organização da pólis contemporânea. Apesar de não existir nenhuma forma de turismo independente dos caprichos irracionais do capital (na medida em que não há turismo – no domínio da gastronomia, da aventura, da ecologia, do património, da noite ou do sexo – que não se estruture sobre investimentos, mercadorias e especulação), os cinco pretendentes à liderança do município concordaram em que uma crítica do turismo não deve ser convocada para o debate (acham que basta regular, mesmo que seja superficialmente, os seus impactos). Na verdade, é a crítica do capitalismo que está hoje ausente dos debates políticos, que deixaram de ter a pretensão de querer intervir no rumo da história.

Votar num destes cinco candidatos contribui objectivamente para a reprodução da cidade capitalista, que marca decisivamente o período histórico em que vivemos. A Lisboa turística que, com matizes de opinião, todos abertamente defendem é o paradigma acabado da cidade capitalista. Nela tudo é consumo e tudo é gestão: consumo passivo de cenários mercantilizados e estandardizados; gestão meticulosa dos gestos e das interacções dos utentes da cidade – onde dormem, por onde passeiam, o que vêem, onde se divertem.

Lê o resto

Comentários

Submeter um novo comentário

O conteúdo deste campo é privado e não irá ser exibido publicamente.
CAPTCHA
Esta pergunta serve para confirmar se és uma pessoa ou não e para prevenir publicaçãos automatizadas