Uma conversa com Pedro Pinho...

UMA CONVERSA COM PEDRO PINHO SOBRE “O QUE RAIO É QUE NOS ESTÁ A ACONTECER?”

por Teresa Vieira
em https://www.cinema7arte.com

A saída da sala de cinema, após a visualização de “A Fábrica de Nada”, não é o fim do processo cinematográfico: é, sim, um início para um pensamento, para um questionamento, para uma reflexão sobre inúmeras questões da nossa vida em sociedade. Pedro Pinho lança-nos diversas ideias, diversas pistas e coloca diversas questões sobre o trabalho, sobre a humanidade, sobre a crise, sobre o suburbano, sobre o capitalismo, sobre relações, sobre a vida.

Sentamo-nos com Pedro Pinho. Esta conversa é uma continuação do efeito (intelectualmente) estimulante e contagiante de “A Fábrica de Nada”: é uma conversa sobre cinema, sobre a vida, sobre a humanidade, sobre ecologia, sobre política, sobre filosofia, sobre as inquietações de uma mente que não cessa de questionar o mundo que o rodeia e que procura perturbar as certezas, as ideias, as conformidades daqueles com quem contacta – através de um filme, através de uma entrevista, através de uma conversa -, na esperança de dar origem a uma acção, a uma mudança e (talvez, quem sabe?) melhorar o nosso mundo.

Teresa Vieira: De onde surgiu a ideia para a criação de “A Fábrica de Nada”?

Pedro Pinho: Este projecto nasceu de uma colaboração entre a Terratreme – e minha – com o Jorge Silva Melo, mais ou menos em 2010, 2011. O Jorge Silva Melo tinha feito uma peça de teatro de uma dramaturga holandesa – a Judith Herzberg – que se chama “A Fábrica de Nada”: um musical infantil sobre uma fábrica que fecha. Na altura, o Silva Melo queria adaptar isso para cinema e pediu-me para escrever o argumento. Eu comecei a trabalhar nisso mas, um tempo mais tarde (depois do ano zero do cinema, em 2012), ele, por razões pessoais, deixou de poder fazer o filme. Nós já tínhamos começado a produção e ficámos sem saber o que fazer. Discutimos o assunto com o ICA e a solução que se encontrou foi eu – que já estava inserido no projecto – assumir a realização. A partir daí, apesar de ter sido eu a escrever o argumento, este era um texto, um objecto que não era feito para mim, o que fez com que tivesse de me re-apropriar de todas aquelas ideias. Decidimos escrever entre nós (da Terratreme) um filme. Re-apropriámo-nos de um conjunto de ideias que vinham do projecto anterior: o facto de ser um musical, de se passar numa fábrica que vai fechar, de o drama se centrar à volta de um casal. Mantivemos essas ideias e, como temos uma relação muito forte com o documentário, tentámos absorver o que estava a acontecer à nossa volta, naquele período, e tentar banhar o filme nessas águas.

A Terratreme foi construída assim. Um conjunto de realizadores que abrem uma estrutura para se produzirem a si próprios, numa dinâmica muito baseada na auto-ajuda.

TV: É comum trabalharem dessa forma na Terratreme?

PP: A Terratreme foi construída assim. Um conjunto de realizadores que abrem uma estrutura para se produzirem a si próprios, numa dinâmica muito baseada na auto-ajuda. Se fores ver os filmes, especialmente os do início, toda a gente trabalha nos filmes uns dos outros. Isso permitiu-nos fazer filmes com muito pouco dinheiro, no início (em 2008/2009, em que tínhamos pouco acesso a financiamentos). Tínhamos pouco dinheiro mas depois tivemos filmes que conseguiram ter circulação e que permitiram que a Terratreme crescesse.

Continuar a ler

Comentários

Submeter um novo comentário

O conteúdo deste campo é privado e não irá ser exibido publicamente.
CAPTCHA
Esta pergunta serve para confirmar se és uma pessoa ou não e para prevenir publicaçãos automatizadas