A história de Errekaleor Bizirik, o maior bairro ocupado da península ibérica

A história de Errekaleor Bizirik, o maior bairro ocupado da península ibérica.

Estivemos em Vitória-Gasteiz para encontrar um companheiro da Hala Bedi, uma rádio auto-organizada basca, que nos convidou a conhecer aquele que é o maior bairro okupado da península ibérica, de seu nome Errekaleor Bizirik.

A chegada ao bairro torna-se facilmente perceptível quando encontramos o primeiro mural proclamando em basco “Herri Boterea” ("Poder Popular"). A história de Errekaleor em nada se parece com a história de um "bairro normal". Ali, desde 2013, resiste um projeto comunitário em constante construção e evolução, auto-gerido por 150 pessoas. Antes de aprofundar a história deste projecto, devemos conhecer a história do bairro.

O NASCIMENTO DE ERREKALEOR

Foi construído durante o período franquista, no final dos anos cinquenta, como solução para alojar as milhares de pessoas que então se deslocavam como mão-de-obra para a indústria pesada que se instalou na cidade. Não existindo uma alternativa habitacional para toda esta gente, a igreja iniciou a construção de vários bairros obreiros, que são intitulados de "Mundo mejor". É entre estes bairros que nasce Errekaleor, um bairro com 32 blocos e 192 habitações, que permitem alojar aproximadamente 1000 pessoas.

Nos anos 70 foi organizada uma associação de moradoras e moradores que lutou por melhores infraestruturas para o bairro, que até ao momento contava com zonas verdes, uma praça com um parque infantil, uma igreja e um bar que foram construídos por quem ali vivia. As exigências centravam-se na construção de um centro social e a instalação de um cinema, entre outras melhorias nas infraestruturas. Em 1976, no dia 3 de Março, em plenas lutas operárias acontece um dos momentos que marcam a história de Errekaleor. Cinco trabalhadores foram assassinados pela polícia, um deles com apenas 19 anos. Chamava-se Romualdo Barroso e era um dos moradores de Errekaleor, do qual o pai era presidente da associação de moradores.

Nos inícios dos anos 2000, a câmara municipal de Gasteiz cria um "novo plano urbanístico" e condena Errekaleor à demolição. Em 2002 cria-se uma sociedade municipal para se dedicar à "renovação urbanística" e em 2005 começam os primeiros acordos para expropriar as pessoas que ali habitavam e realoja-las noutros pontos da cidade. Muitas das pessoas viram-se obrigadas a aceitar a mudança.

Em 2013 restam neste bairro pouco mais de 5 famílias que resistiram às pressões camarárias e à especulação imobiliária, continuando a habitar no bairro, já com muitos espaços fechados e condenado a um abandono forçado.

A NECESSIDADE DE HABITAÇÃO E O MOVIMENTO ESTUDANTIL

Em 2013, um grupo de cerca de 10 jovens provenientes do movimento estudantil basco começa a debater questões mais além dos problemas estudantis, e procuram expandir a sua luta para um contexto estrutural. Tomam conhecimento do bairro de Errekaleor, onde iniciam contatos com a vizinhança que ali restava com o objectivo de ocuparem um bloco de casas, de forma a iniciar um projeto comunitário que permitisse reavivar o bairro. Depois de chegarem a acordo com as últimas pessoas que habitavam na zona, ocupam o primeiro bloco de casas, ao mesmo tempo que lhes são cedidas as chaves para os poucos espaços comuns que ainda restavam no bairro. Começam então a chamar o bairro "Errekaleor Bizirik" (Errekaleor Vivo).

As 10 pessoas iniciais rapidamente se tornam 150 que, dia após dia, organizam os destinos do bairro e tratam as diferentes questões necessárias ao seu normal funcionamento. Trabalham divididos entre várias comissões, que vão desde a economia às infraestruturas, da horta à realização de actividades sociais/culturais, comissão de boas-vindas, relações externas entre outras que possam surgir quando forem necessárias, levando propostas à assembleia geral que se realiza de 2 em 2 semanas.

Quatro anos depois, este projecto que encontrou um bairro entregue ao abandono, desenvolve com sucesso a sua tarefa de reabilitá-lo, tendo já um largo terreno cultivado, cozinha comum, biblioteca, pavilhão desportivo, tipografia, espaço para fazer pão e conseguindo reabrir o cinema, que agora se chama "Cinema Romualdo Barroso", em homenagem ao jovem trabalhador habitante do bairro que foi assassinado pela polícia.

Outros espaços necessitam ainda de ser recuperados, assim como muito blocos de edifícios que, fruto de anos de abandono, se encontram degradados ou entaipados. Vários são os projectos que neste momento se encontram forçosamente parados, devido à intensa repressão e ameaças de despejo que Errekaleor sofre de momento.

A REPRESSÃO ESTATAL E AS TENTATIVAS DE DESPEJO

Sob um falso pretexto de “condições de segurança precárias”, o último golpe da repressão estatal aconteceu no passado dia 18 de Maio. As suspeitas de que algo estava para acontecer começaram na noite anterior, quando pessoas que ali viviam encontraram trabalhadores de uma empresa subcontratada a tentar manipular o transformador de luz que alimenta o bairro.

Na manhã seguinte, chega um forte dispositivo da polícia anti-distúrbios a escoltar um grupo de trabalhadores da Iberdrola com o objectivo de cortar a luz a todo o bairro. Formou-se um muro humano para impedir que chegassem ao transformador de luz ao qual a polícia respondeu com violência, de forma a romper o muro humano. Quando este foi rompido, a polícia encontrou várias moradoras/es acorrentados a estruturas junto do transformador. Frustrados por não conseguirem realizar o seu objectivo, a estratégia dos trabalhadores da Iberdrola passou por manipular os postes de eletricidade junto às habitações, para desligar a luz de todo o bairro. Durante esta intervenção registaram-se três detenções e várias pessoas feridas, fruto da violência policial.

Também em Março de 2015, técnicos da companhia de energia, acompanhados pela polícia municipal e de intervenção, retiraram parte dos cabos elétricos que faziam ligação ao bairro.

O corte de luz não desanimou quem ali vive, que segue com mais energia do que nunca, depois de conseguirem um gerador que pode fornecer luz durante algumas horas às habitações que mais o necessitam, ao mesmo tempo que aceleraram o processo da instalação de painéis solares em todo o bairro. Como parte do seu projecto de auto-suficiência e como forma de não serem dependentes de outros meios de energia, há alguns meses este bairro criou uma campanha de crowdfunding com o objetivo de instalar aproximadamente 500 painéis solares em todo o bairro. Em conjunto com outros projetos “faça você mesmo”, que serão fontes de energia alternativa. Já conseguiram arrecadar o dinheiro necessário e já estão a instalar os painéis solares.

Mantendo-se alerta para as suspeitas de despejo que poderão acontecer nos próximos meses pela mão da camâra de Gasteiz que pretende levar em frente a demolição do bairro.

QUATRO ANOS DO BAIRRO ERREKALEOR BIZIRIK

Celebrou-se há duas semanas o 4º aniversário do bairro Errekaleor Bizirik que contou com várias actividades ao longo de 3 dias de muita animação, com concertos, um jantar feminista, oficinas de teatro e outras actividades culturais. | http://bit.ly/2yydZXH

Este projecto, que se iniciou como uma procura de alternativas habitacionais, utilizando a acção directa na forma de ocupação como forma de fazer frente ao mercado de habitação inflacionado. Fugindo aos destinos de um "bairro normal" ao resistir ao sistema que pretendia que fosse mais um bairro ao abandono, ou na "melhor das hipóteses" mais um bairro a ser demolido para na sua ótica mercantilista se tornar em mais um bairro a demolir para especulação financeira. Neste bairro resiste Errekaleor Bizirik na sua luta diária pela soberania nos mais diversos aspectos das suas vidas.

Errekaleor Bizirik!

Guilhotina.info

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