O Centenário da Declaração Balfour

No centenário da Declaração Balfour é bom lembrar e esclarecer que a fundação do Estado de Israel nada teve a ver com tudo o que os judeus e não só (alegados comunistas, ciganos, doentes, idosos e tudo o que não correspondesse à "pureza" da raça ariana) sofreram na II Guerra Mundial sob o jugo de Hitler - O Holocausto.

A Declaração Balfour da autoria de Lord Arthur James Balfour, datada de 2 de Novembro de 1917 (em plena Primeira Guerra Mundial), favorável às aspirações dos judeus sionistas e aprovada pelo Governo de Sua Majestade diz o seguinte: "O Governo de Sua Majestade favorece o estabelecimento de um Lar Nacional para o povo judeu na Palestina e dedicará os seus melhores cuidados para facilitar a realização deste objectivo, ficando claramente compreendido que nada se fará que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judias existentes na Palestina, ou os direitos e estatuto dos judeus em qualquer país."

É, pois, uma falácia quando alguém defende que a fundação do Estado de Israel decorreu de tudo o que se passou na II Guerra Mundial - o Holocausto.

A Federação Sionista, a Agência Sionista, o Congresso Sionista, a Organização Sionista Mundial há muito tempo que "cozinhavam" a Ocupação da Palestina, mais precisamente desde antes da Primeira Guerra Mundial. A Declaração Balfour, uma Declaração Britânica, recebeu o aval do Presidente norte-americano, antes da sua publicação e em Fevereiro e Maio do ano seguinte (1918) foi aprovada pelos Governos francês e italiano, respectivamente.

Em "Promise and Fulfilment", Arthur Koestler sintetizou brilhantemente a missiva britânica de Sua Majestade, dizendo que se tratava de um documento em que UMA NAÇÃO PROMETIA A OUTRA O PAÍS DE UMA TERCEIRA.

Em 29 de Novembro de 1947 (é bom recordar que os confrontos finais da Segunda Guerra Mundial na Europa, assim como a rendição alemã aos aliados ocidentais e à União Soviética aconteceram entre o final de Abril e o início de Maio de 1945), a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) votou a favor da partilha do território sob mandato britânico, o território conhecido por Palestina, num Estado Árabe e num Estado Judaico, aplicando as disposições do Direito Internacional consagradas no Mandato Britânico para a Palestina conferido pela Sociedade das Nações (ver a Resolução 181 das Nações Unidas: Partilha da Palestina) que, aliás, acabaria por dar mais terra ao Estado que ainda nem sequer existia.

Em Fevereiro de 1919 (a Primeira Guerra Mundial terminara em 11 de Novembro de 1918), os responsáveis pela Organização Sionista Mundial apresentaram-se perante a Conferência de Paz reunida em Paris, propondo um plano intitulado: "O estabelecimento de um Estado Judeu na Palestina, na vizinhança das regiões Árabes", no qual reivindicavam, para além da Palestina, o curso superior do Rio Jordão, na Síria e no Líbano; o Sul do Líbano até à cidade de Sidon; o Sul do Vale de Bekaa, no Líbano; o Vale de Hauran, na Síria; o controlo do Caminho de Ferro de Hejaz, desde Der'a a Ma'an, via Amman na Jordânia e ainda o controlo sobre o Golfo de Akaba.
Diga-se de passagem que isto estava de acordo com uma intervenção de Max Nordau, no VIII Congresso Sionista realizado em Haia, em 1907 (reparem bem: em 1907, não esquecendo que a Primeira Guerra Mundial começou em 28 de Julho de 1914), intervenção essa que mereceu grandes aplausos das grandes potências coloniais europeias: "queremos ir para a Palestina como portadores exemplares da civilização, com a missão de estendermos as fronteiras da Europa até ao Eufrates".

Isto está também de acordo com tudo aquilo a que temos vindo a assistir no Iraque e na Síria e que vai de encontro às antigas e actuais aspirações dos Sionistas - "O Grande Israel". Pensando bem, tem-lhes dado muito jeito o surgimento e a actuação do Estado Islâmico ou Daesh, como preferirem chamar-lhe. Aliás, não deixa de ser curioso que Israel e a Arábia Saudita nunca tenham sido vítimas de qualquer ataque ou atentado por parte do Daesh. Mas o Daesh já proferiu ameaças sérias ao Hamas.

Adiante!

A própria partilha da Palestina pela ONU obedeceu a um critério no mínimo sui generis: as terras mais ricas e de melhor qualidade ficariam nas mãos de judeus; a zona montanhosa e desértica passaria a pertencer aos palestinianos árabes, a esmagadora maioria dos autóctones, antes das vagas migratórias vindas da Europa Central e Ocidental.

Ainda antes da proclamação do Estado de Israel, na madrugada de 9 de Abril de 1948, foram lançadas bombas por aviões israelitas sobre a pequena aldeia de Deir Yassin. Logo a seguir ao bombardeamento aéreo, uma grande quantidade de artilharia e morteiros anunciou a entrada dos sionistas na aldeia. Quinze blindados apoiavam as falanges terroristas que entraram em Deir Yassin, chacinando à baioneta ou a tiros de metralhadora 254 habitantes da povoação. O mais velho entre os habitantes chacinados tinha 90 anos de idade e o mais novo tinha 18 meses. Entre as vítimas contavam-se vinte e duas mulheres grávidas e a professora que, empunhando uma bandeira da Cruz Vermelha, tentou socorrer os feridos. Nem o cego da aldeia e a sua mulher escaparam, quando retiravam à procura de abrigo.

O comandante das operações foi Menahem Begin que depois foi membro do Governo israelita e chegou a ser Primeiro-Ministro.

Numa análise ao massacre de Deir Yassin, o mesmo Begin disse que "a matança não só estava justificada, como também não poderia existir um Estado de Israel sem Deir Yassin". Com efeito, quando os altifalantes gritavam "Deir Yassin" nas proximidades de qualquer aldeola habitada por árabes palestinianos, era mais que certo que ocorria um pequeno êxodo dos habitantes.

Na Primavera de 1948, segundo os relatórios sionistas, Deir Yassin era a palavra mágica a gritar a um microfone, à beira de qualquer aldeia árabe da Palestina. Misteriosa e rapidamente, os habitantes abandonavam as casas antigas e os campos cultivados pelos seus antepassados. Aos que não fugiam, eram reservados outros massacres.

Cinco dias depois de Deir Yassin, foi a vez de Lajjun. A 17 de Abril foi a vez de Saris, o mesmo sucedendo a 20 do mesmo mês em Tiberias. A partir do massacre de Haifa, a 22 de Abril, o terrorismo sionista actuou em Jerusalém, Jaffa e Acre, em 25, 26 e 27 de Abril.

Depois da matança de Jerusalém, no primeiro dia de Maio, os terroristas sionistas deram por terminada a primeira operação, desencadeada a 27 de Abril, na qual haviam sido tomadas ou destruídas todas as cidades árabes em torno de Haifa.

Uma nova operação designada Matateh, a partir de 3 de Maio, expulsou os palestinianos das localidades que unem Tiberíades à Galileia Ocidental. Dois massacres a exemplo de Deir Yassin: o de Safad, em 7 de Maio e o de Beisan, dois dias depois. A 11 de Maio, Bisan foi ocupada, bem como as cidades árabes dos arredores de Neger, que na sua maior parte foram totalmente destruídas.

A agressão Sionista teve como resultado o êxodo de mais de um quarto de milhão dos seus habitantes árabes que se viram forçados a deixar as suas casas e terras e a refugiar-se nos países árabes vizinhos.

Os acontecimentos que tiveram lugar na Palestina desmascararam as intenções agressivas e os planos imperialistas dos Sionistas, incluindo as atrocidades por eles cometidas contra os habitantes árabes pacíficos.

O drama da gente que era forçada por uma minoria armada a fugir para não morrer foi descrito pelo escritor Juden Nathan Gofshi, onze anos depois:
"Eis um povo que tinha vivido na sua terra desde há 1300 anos. Nós chegámos e transformámos os árabes autóctones em miseráveis refugiados. Mais: não nos envergonhamos quando os caluniamos, quando os envilecemos, quando manchamos o nome deles. Em vez de lamentarmos profundamente o que fizemos, em vez de tentarmos reparar, ainda que parcialmente, o mal cometido, auxiliando esses refugiados na desgraça, justificamos os nossos actos horríveis e tentamos igualmente glorificar-nos".

No dia 12 de Maio de 1948, pelas 16 horas, os Sionistas decretaram o Estado de Israel. A proclamação foi feita por um jornalista que adoptara o nome de Ben Gurion. Quinze minutos depois, os Estados Unidos reconheciam o novo Estado, relativamente ao qual a Assembleia Geral das Nações Unidas tinha já declarado, em 1947: "É um direito natural do povo judeu, com respeito a todos os outros povos independentes, o de viver dentro do seu próprio Estado soberano".

A Comunidade Internacional conseguiu, em 1948, fazer pior do que a própria Sociedade das Nações. Quando Mussolini invadiu a Etiópia, a Sociedade das Nações mostrou-se impotente. Quando os palestinianos começaram a ser expulsos do lar nacional que sempre tinham conhecido, as Nações Unidas foram coniventes.
Dois dias depois da proclamação do Estado de Israel (em 14 de Maio de 1948), o comissário britânico abandonou a Palestina.

No dia posterior à retirada britânica, firmou-se a Acta de Independência do Estado de Israel, uma reivindicação que deve mais à esquizofrenia colectiva que aos dados da História, como se prova pelo primeiro parágrafo: "o povo judeu cresceu na terra de Israel, aí formou a sua personalidade espiritual, religiosa e política, aí exerceu uma vida política independente que produziu os tesouros da cultura nacional e humana que deu ao mundo inteiro o eterno Livro dos livros".

Insiste-se na "conexão entre o povo judeu e a terra de Israel", bem como no "direito" daquele a "restaurar a sua existência nacional na sua terra". Tal reivindicação baseava-se, nos termos do documento assinado por Ben Gurion e outros, na Declaração Balfour, na ratificação desta pela Sociedade das Nações e no facto de "os cidadãos hebreus terem pago por inteiro, durante a última Guerra Mundial, na batalha que opunha os partidários da Liberdade e da Paz com as forças nazis do mal," - uma factura que, à data, era endossada aos palestinianos.

Dia 2 de Novembro de 2017, no centenário da Declaração Balfour, o primeiro-ministro do Estado Terrorista de Israel Benjamin Netanyahu comemorou num jantar com a primeira-ministra Theresa May, em Londres, a Declaração Balfour.

Comité de Solidariedade com a Palestina

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