A extraordinária saga da família de Zeca Afonso

A infância e a juventude do cantor da liberdade chegam num documentário que regista a história da separação da sua família no final dos anos 1930. Um olhar de Luís Filipe Rocha a partir dos depoimentos dos irmãos de Zeca Afonso, João e Mariazinha. «Rosas de Ermera», para ver nos cinemas a partir do próximo domingo.

Texto Rui Pedro Tendinha

Não é o filme que Luís Filipe Rocha esteve para fazer nos anos 1970 sobre o amigo Zeca Afonso. Esse nunca será feito. Rosas de Ermera tem Zeca como protagonista, mas explora a história inacreditável da sobrevivência da sua família. Um filme com relatos na primeira pessoa sobre destinos cruzados e um Portugal marcado pelo fascismo.

Tudo começa na infância de Mariazinha, João e Zeca Afonso, três irmãos filhos de um juiz português em Lourenço Marques, a atual Maputo, em Moçambique. Uma infância, perceberemos, cheia de belas memórias e de uma liberdade constante.

Mais tarde, meses antes do começo da Segunda Guerra Mundial, o pai decide candidatar-se a um posto em Díli, Timor, e a família separa-se: os dois irmãos são enviados para Coimbra, ao cuidado de uma tia severa, e a irmã e os pais seguem para a distante Timor.

E é em Timor que encontram o maior desafio das suas vidas: a chegada das tropas japonesas, entretanto em guerra com os americanos. Passado pouco tempo, estão isolados do mundo e sem forma de comunicar com Portugal, atirados para um campo de concentração. Paralelamente, Zeca e o irmão, estudantes em Coimbra, tornam-se quase órfãos e entram num mundo de adultos numa Coimbra salazarenta e sem notícias da irmã e dos pais.

Luís Filipe Rocha junta os irmãos sobreviventes e através de fotografias de família reconstitui a dolorosa separação, ao mesmo tempo que viaja até aos locais da infância de Mariazinha em Timor, de Díli a Ermera, passando por Baucau e Liquiçá, sempre com a presença da própria, que, com mais de 80 anos, volta a um local onde nunca imaginou voltar. Um reencontro tão fascinante como comovente. Para o realizador de filmes como Sinais de Fogo (1995) e Cinzento e Negro (2015), a proximidade com esta história de uma família que se separa durante seis anos explica-se pela amizade forte com Zeca Afonso.

Rocha sempre acompanhou de perto esta família e nunca se esqueceu das circunstâncias tão complexas em que Zeca e o irmão foram criados em Coimbra e Belmonte com uma educação germânica e férrea num contexto de asfixia nacional. Dois jovens cujo pensamento nunca esqueceu a irmã e os pais que lhes tinham dado uma infância feliz.

«Para mim, Rosas de Ermera não é um documentário. É um filme exatamente igual àqueles que eu fiz anteriormente. Para já, tem uma estrutura narrativa aparentemente ficcional. Durante duas horas temos uma história com princípio, meio e fim. Além do mais, tem um trabalho sobre o tempo, a imagem e a montagem que respeita a matéria cinematográfica.» O realizador pensou-o para cinema e exorta todos a vê-lo numa sala de cinema. «Não tem rigorosamente nenhum condimento para que as duas horas passem bem em televisão», diz.

Para Luís Filipe Rocha, esta história é também um testemunho de um país em pleno cinzentismo colonial, cá dentro e lá fora. Para o espetador, fica sobretudo uma tocante prova do poder que as memórias têm no exorcizar de fantasmas, sobretudo através de Mariazinha, que nos dez dias de rodagem nos vários locais de Timor, onde sofreu na pele uma invasão, viveu grandes emoções.

«Setenta anos depois, ela tem uma memória muito precisa e forte daquilo que sentiu naquele tempo. Ela própria considera que a sua estada em Timor naqueles anos, a despeito do isolamento que viveu no campo de concentração, foi absolutamente fundadora da pessoa em que viria a tornar-se», conta o realizador, lembrando que a irmã de Zeca Afonso também não se esqueceu da relação com a natureza, com os animais e dos cheiros daquelas florestas.

E será que o espírito de Zeca está presente, mesmo quando não ouvimos uma única frase sua? Está e muito, embora Rocha não tenha querido entrar em tentações de evocar a sua música por todo o filme. A única canção que ouvimos (duas vezes, em locais bem precisos) é Endechas a Bárbara Escrava, a partir de Camões. E chega, se chega… Aliás, a teoria de Rocha parece certa: «Quanto mais ausente está o Zeca mais presente ele está pela voz dos irmãos.»

Se esta odisseia tem matéria de cinema, a vida do nosso maior músico não terá?, perguntamos ao realizador que foi amigo de Zeca. Antes da resposta, lembramo-nos de que o documentário em que chegou a trabalhar nos anos 1970 estava a ter ajuda do próprio: «É claro que pode haver alguém que queira fazer esse filme, mas o que vai ficar não é a vida do Zeca mas sim a sua obra artística.»

Recorde-se que Luís Filipe Rocha, na primeira metade da década passada, escreveu a adaptação para cinema de Até Amanhã, Camaradas, a partir do livro de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal, posteriormente realizada por Joaquim Leitão. E é natural que nos confidencie o seguinte: «Para além de um grande músico, o Zeca é um grande poeta. Para mim, é uma figura muito importante da cultura portuguesa da segunda metade do século XX. Quanto mais tempo passar, melhor veremos as suas qualidades artísticas. O seu legado continua bem vivo.»

Em Rosas de Ermera, entramos literalmente no seu álbum de família e vamos vê-lo como nunca o vimos, sobretudo de sorriso aberto numa infância feliz e de grandes aventuras com o irmão João Afonso dos Santos.

Uma estreia não convencional

A estreia de Rosas de Ermera tem um caráter inovador. Não vai para as salas comerciais no habitual esquema de exibição permanente. Terá antes um figurino de tour por diversas salas e sempre com apresentação do realizador. De alguma forma, um esquema que dá a esta obra figura de acontecimento, quanto mais não seja porque as evocações destas memórias permitem uma série de debates e a chance de o espetador poder conversar com Luís Filipe Rocha. Deixamos os horários e os locais das projeções com debates:

Cinema Medeia Monumental, Lisboa:
11 de novembro, 19h00, Conversa com Luís Filipe Rocha e João Afonso
14 de novembro, 21h30, Conversa com Luís Filipe Rocha e Ana Sousa Dias
Teatro Campo Alegre, Porto:
12 de novembro, 18h30, Conversa com Luís Filipe Rocha
Teatro Académico de Gil Vicente, Coimbra:
13 de novembro, 21h30, Conversa com Luís Filipe Rocha e João Afonso
Cinema Charlot Auditório Municipal, Setúbal:
17 de novembro, 21h30, Conversa com Luís Filipe Rocha
Theatro Circo, Braga:
20 de novembro, 21h30, Conversa com Luís Filipe Rocha
Centro de Artes e Espetáculos, Figueira da Foz:
1 de dezembro, 21h30, Conversa com Luís Filipe Rocha

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