Cinquentenário da publicação de "A Sociedade do Espectáculo" (1967)

No dia 14 de novembro de 2017, chegamos ao cinquentenário da publicação de A sociedade do espetáculo (1967), obra magna de Guy Debord (1931-94), o diretor da revista Internacional Situacionista (1958-69), publicada pela organização homônima que ajudou a fundar em 1957 e que se dissolveria em 1972, no refluxo gerado pela derrota da greve geral com ocupação de fábricas e universidades de maio-junho de 1968 na França. Para o filósofo italiano Giorgio Agamben, a obra do situacionista* francês (de quem era, além de interlocutor, um amigo) possui a rara assinatura da “inatualidade” característica de um pensamento que não coincide perfeitamente com seu tempo e é, por isso, nesse sentido, inatual, mas que, justamente através deste anacronismo, “ele é mais capaz que os outros de perceber e agarrar o seu tempo” (2011, p. 8). Debord, é claro, tinha plena consciência dessa característica de seu pensamento. N’A sociedade do espetáculo, ele adverte que “a crítica que vai além do espetáculo deve saber esperar” (1997, p. 141) e, em seu Panegírico, desvia o sentido do famoso imperativo modernista lançado por Rimbaud em 1873 [1]: “quando ‘ser totalmente moderno’ tornou-se uma lei especial proclamada pelo tirano, o que o escravo honesto teme, acima de tudo, é que possa ser suspeito de saudosismo” ([1989] 2002, p. 75).

Com efeito, desde o início dos anos 1960, Debord e os situacionistas apostavam no retorno das tentativas de revolução proletária ocorridas em diversos países europeus no primeiro quarto do século XX [2], na contramão da maior parte dos teóricos críticos e marxistas ocidentais contemporâneos, como o alemão Herbert Marcuse, que se mostrava pessimista, em O homem unidimensional (1964), quanto às possibilidades de uma transformação revolucionária das sociedades tardoburguesas [3], ou como Theodor Adorno que, na introdução de sua Dialética negativa (1966), afirmava que a “práxis transformadora” encontrava-se “adiada por um tempo indeterminado” (2009, p. 11). Publicado na França em 1967, mesmo ano, portanto, de A sociedade do espetáculo de Guy Debord, Posição contra os tecnocratas, de Henri Lefebvre, criticava frontalmente o prognóstico revolucionário dos situacionistas: «Ora, eles [os situacionistas] não propõem uma utopia concreta, mas sim uma utopia abstrata. Acreditam de fato que um belo dia, ou numa noite decisiva, as pessoas irão se olhar de frente e dizer: “Basta! Chega de trabalho e de tédio! Acabemos com isso!“ e que eles entrarão para a Festa Imortal, na criação e situações? Se isso aconteceu uma vez em 18 de março de 1871, ao alvorecer, essa conjuntura não se reproduzirá mais». (1969, p. 169)
2. Entre 1917-21, em países como Rússia, Ucrânia, Hungria, Áustria, Alemanha e Itália.
3. Todavia, em seu “Prefácio político” (1966) a Eros e Civilização, Marcuse avança em relação à sua própria tese da integração total do proletariado nas sociedades tardoburguesas, passando a perceber que “o conflito pode tornar-se explosivo se for acompanhado e agravado por perspectivas de mudança na própria base da sociedade industrial avançada” (1968, p. 22). De fato, como nota Maria Ribeiro do Valle, “o ceticismo presente nos escritos de 1964 de Marcuse começa a ser superado com a emergência de protestos que envolvem ‘novos atores sociais’ – por um lado, as revoluções contra a ‘intolerável herança do colonialismo’ e seu prolongamento pelo neocolonialismo, e, por outro, a revolta da juventude” (2005, p. 103).
Tal aposta revolucionária seria, para a surpresa do professor Lefebvre, verificada no/pelo movimento que, iniciado no fim de 1967 em diversos câmpus universitários franceses, eclodiria com a gravidade que se conhece em maio de 1968. De acordo com o veredicto (pós-68) do situacionista italiano Gianfranco Sanguinetti, «Marcuse, o iludido, pretendia ainda demonstrar-nos o desaparecimento do proletariado, que alegremente se teria dissolvido na burguesia; e Henri Lefebvre, o desiludido, já perorava sobre ‘o fim da história’ [...] Mas a partir de 1968, tiveram que submeter-se à percepção dolorosa da estupidez de que enfermavam: Marcuse resignou-se ao silêncio, e Lefebvre resignou-se a voltar ao redil, falando por conta dos stalinistas franceses». (1981, p. 52)

Em um artigo consagrado à questão das relações entre os intelectuais franceses e o Maio de 68, o sociólogo Pierre Grémion diz que “nenhum deles antecipou os eventos, para todos foi uma surpresa” (2008, p. 24). Com exceção, como vimos, do diagnóstico/prognóstico debordiano de 1967, que acabaria por desempenhar, durante a crise revolucionária de maio-junho de 1968, uma influência considerável que, guardadas as respectivas particularidades históricas, restaurava a relação entre crítica e crise sociopolítica herdada da tradição revolucionária do movimento operário moderno, tal como ela havia sido inscrita, primeiramente, no/pelo Manifesto do Partido Comunista (1847), de Marx e Engels, às vésperas da revolução alemã que eclodiria em fevereiro de 1848, como também nas/pelas Teses de Abril de Lênin, no decurso da crise revolucionária russa, que meses depois culminaria com a tomada do poder estatal pelos bolcheviques em outubro de 1917.

Mas, além de um preciso prognóstico revolucionário da crise de Maio de 68, o diagnóstico apresentado por Debord em Novembro de 1967 se revelaria, com o passar dos anos, também uma acertada previsão de alguns problemas e questões que, ainda em germe no capitalismo welferizado dos anos 1960, tomariam proporções inauditas neste início de século XXI. Em seu Prefácio à quarta edição italiana de A sociedade do espetáculo (1979), Debord lista uma série de advertências sobre a história do livro de 1967 e de seu conteúdo real, nas quais diversos comentadores costumam identificar traços de grandiloquência e megalomania, dentre elas, a seguinte: «Posso me gabar de ser um raro exemplo contemporâneo de alguém que escreveu sem ser imediatamente desmetido pelos acontecimentos. Não estou me referindo a ser desmentido cem ou mil vezes, como os outros, mas a nem uma única vez. Não duvido que a confirmação encontrada por todas as minhas teses continue até o fim do século, e além dele». (1997, p. 152)

Isso porque, no livro A sociedade do espetáculo, Debord apresenta conceitualmente a lógica estrutural de toda uma época histórica: aquela na qual o modus operandi da alienação do trabalho se estende ao conjunto da vida cotidiana. Dentre outros fenômenos contemporâneos, o regime de “pós-verdade” – em que as distinções clássicas entre verdade e mentira, original e cópia, verdadeiro e falso, parecem perder sentido –, recebia, já em 1967, um tratamento histórico (materialista e dialético), no qual era percebido pelo situacionista como conexo ao processo de perda da realidade engendrado pelo desenvolvimento das formas mais avançadas de exploração e dominação do capitalismo.

O conceito debordiano de espetáculo representa, no plano teórico, um terceiro estágio da crítica da economia política, quando esta passa a incorporar a crítica da linguagem herdada das vanguardas estéticas (sobretudo do dadaísmo e do surrealismo do entreguerras) à crítica marxiana do fetichismo mercantil (1872) e à crítica lukacsiana (1923) da reificação capitalista [4]. Representa também, nesse sentido, uma alternativa radical às narrativas idealistas e apocalípticas do sociólogo francês Jean Baudrillard [5] em torno da noção de hiperrealidade [6], na qual o processo histórico real, por ele misteriosamente chamado de “princípio de realidade”, aparece substituído por uma enigmática “precessão de simulacros”. Baudrillard simplesmente inverte causa e efeito quando toma tais fenômenos da aparência fetichista do sistema tardocapitalista pela sua essência. Desse modo, o processo histórico, ao qual diversos especialistas se referem ora como de “desrealização do mundo” (Lipovetsky e Virilio), ora como “desmaterialização da realidade” [7], e que aqui chamamos de “perda da realidade”, ao invés de ser explicado, é tomado por Baudrillard como a própria explicação.

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Revista Punkto

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