O tráfico de escravos na Líbia e o «nojo» da UE

Do «nojo» da UE

Desde o início do ano que várias organizações alertam para situações de tráfico humano na Líbia. Em Abril, em Malta, Frederica Mogherini, alta representante da UE para a Política Externa e Segurança Comum (PESC), afirmava que não havia provas quer das alegações dum advogado italiano quer das acusações que a organização Médicos Sem Fronteiras levara ao Parlamento Europeu. Nesse mesmo mês de Abril, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) informava sobre a existência de "mercados de escravos" na Líbia. «Não havia provas».

De repente, o que a toda poderosa UE não conseguia investigar foi posto a nú pelas imagens dum leilão de jovens migrantes africanos como escravos que foram gravadas por um smartphone num mercado na Líbia e chegaram à emissora norte-americana CNN que decidiu ver o que existia para além daquela situação concreta. Em pouco tempo, e em vários locais no interior do país e na costa do Mediterrâneo, os jornalistas encontraram verdadeiros mercados de escravos.

E o cinismo assassino da União Europeia (UE) apareceu no seu esplendor máximo, ultrapassando todos os limites do admissível. A mesma organização que recebia relatórios e não investigava afirmava-se agora «enojada» com a situação de tráfico de escravos. Governantes, líderes políticos e organizações internacionais, todos tinham conhecimento há muito tempo. Mas enquanto foi possível o business as usual sem grande sobressaltos, as palhas ficaram todas por mexer.

Agora, há «nojo» da UE, «horror» do Presidente Geral da ONU, António Guterres, e «indignação» de Alpha Condé, Presidente da União Africana. Ainda assim, Frederica Mogherini sabe que a manutenção das praias europeias limpas de cadáveres não se coaduna com sentimentalismos. Apesar de Mahamad Issoufou, Presidente da República do Níger, ter pedido pessoalmente ao seu homólogo da Costa do Marfim, Alassane Ouattara, anfitrião da cimeira União Europeia-União Africana (UE/UA), prevista para 29 e 30 de novembro próximo, em Abidjan, que ponha a questão na ordem do dia, Frederica Mogherini interveio vigorosamente, na passada quarta-feira, durante a conferência de imprensa final da Conferência de Alto Nível "Para uma Parceria Estratégica Renovada com África", para advertir que a cimeira de Abidjan não versará sobre os migrantes, mas sobre uma nova parceria renovada com África. Anunciando que uma missão de deputados europeus estará na Líbia de 16 a 22 de dezembro próximo para visitar o célebre mercado de escravos filmado pela CNN. O «nojo» não parece ter pressa em desaparecer.

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