COMUNICADO sobre os eventos recentes no âmbito do Festival ¿anormales?

COMUNICADO sobre os eventos recentes no âmbito do Festival ¿anormales?

I. Festival ¿Anormales? (Lisboa)

1.
O Festival ¿Anormales? (Lisboa) decorreu entre os dias 29 de Novembro e 3 de Dezembro, na Disgraça, e contou com o apoio das Panteras Rosa e da TransMissão: Associação Trans e Não-Binária. A Pandorca Distro, plataforma dinamizada pelxs activistas do colectivo Rata Dentata [1], esteve presente neste evento a convite da organização.

Durante o festival, esteve exposta uma fotografia de um torso humano com a cabeça de um porco morto e os genitais mutilados [2]. Esta imagem tinha aproximadamente um metro de altura e encontrava-se em exibição no fundo das escadas que dão acesso à zona de refeições e de convívio. Foi, pois, difícil participar no festival e evitar ser confrontadx com a referida fotografia.
Para o nosso colectivo, a opção *política* da organização de exibir esta imagem subscreve a fetichização dos corpos mutilados/fragmentados de animais não-humanxs para consumo visual, a apropriação simbólica e material das corporalidades não-hegemónicas, a manutenção do pensamento binário e do essencialismo biológico, assim como a reprodução da(s) violência(s) sistémica(s) sobre os corpos.
Na ausência de um protocolo anti-agressões, a Rata Dentata dirigiu-se a uma pessoa da organização a fim de: a) afirmar a sua oposição política relativamente à exibição daquela fotografia e informar que esta entrava directamente em colisão com as suas linhas de acção (anti-especismo transfeminista); b) manifestar o consequente sentimento de desconforto e de agressão que xs activistas do colectivo experienciaram durante o festival.

2.
A resposta comunicada in loco ao nosso colectivo foi para contactarmos directamente x artista e expormos o nosso posicionamento e desconforto. O feedback foi transmitido pela mesma pessoa que foi abordada inicialmente; mais ninguém da organização contactou o colectivo, manifestou interesse, se dispôs a ouvir, se solidarizou [3]. A organização do Festival ¿Anormales? (Lisboa) ausentou-se do debate e remeteu a questão para terceirxs, demitindo-se da sua responsabilidade política de gestão e de resolução deste conflito.
Para a Rata Dentata, esta postura corrobora a lógica cisheteropatriarcal de responsabilização de quem se sentiu agredidx individual, colectiva e politicamente. Desde o privilégio e a prática de autoritarismo, a organização desvalorizou e invalidou experiências alheias. Demonstrou ainda a ausência de uma política de cuidados para com pessoas de identidades dissidentes e a falta de compromisso em construir espaços mais seguros.

3.
No dia 5, as Panteras Rosa publicaram um texto de agradecimento axs participantes e axs organizadorxs do festival, no qual endereçaram x referidx artista: «obrigadx pela participação com a tua arte e por não te furtares ao debate que ela gerou sobre especismo, se tudo fosse consensual e sem conflito e confronto de ideias, este não seria um Festival transfeminista mas sim uma liturgia» [4]. Esclareça-se: a organização do Festival ¿Anormales? (Lisboa) não promoveu nenhum «debate» nem fomentou qualquer «confronto de ideias» sobre especismo com a Rata Dentata. Esclareça-se ainda: a ligação jocosa que as Panteras Rosa estabelecem entre a ausência de «confronto de ideias» e a «liturgia» é desonesta politicamente. Para o nosso colectivo, esta ausência de um «confronto de ideias» poderia simplesmente mostrar que o anti-especismo já faria parte da base política da organização (consensuada!) de uma acção transfeminista e de um movimento que luta pela auto-determinação dos corpos. O machismo, o racismo, o heterossexismo, a transfobia entram na esfera de «confronto de ideias» dos nossos espaços e acções? Não, porque o desmantelamento destes sistemas de opressão já fará parte da sua base política. Porquê então continuar a ignorar, descredibilizar e ridicularizar o (anti-)especismo?

4.
Na caixa de comentários do post de agradecimento das Panteras Rosa [4], o Festival ¿Anormales? e uma pessoa de um colectivo que apoiou a organização deste evento em Lisboa publicaram várias declarações onde:
a) deslegitimaram, de forma reiterada, a posição das pessoas que se manifestaram contra a exibição de determinados materiais num contexto onde não havia uma política de consentimento e de gestão de sensibilidades.
b) se desresponsabilizaram do seu papel político de criar um espaço mais seguro com base no argumento de que a realidade é violenta.
c) se arrogaram ao direito de definir o que é violento e o que é que constitui uma agressão.
d) hierarquizaram causas políticas, ignorando a potência da crítica anti-especista no combate a um tipo de violência que leva à morte sistematizada de mais de 53 mil milhões de animais terrestres por ano para consumo, num enquadramento que invisibiliza a dimensão anti-patriarcal e anti-colonialista das lutas anti-especistas, nomeadamente daquelas que são organizadas na América Latina por vários colectivos transfeministas.

5.
No dia 7 de Dez., no seguimento da discussão no referido post, o Festival ¿Anormales? publicou um comunicado na sua página de fb [5] que refere o seguinte:

a) O Festival ¿Anormales? é um «festival lgbti feminista aberto a todo o público, não apenas a um público ativista, lgbti e/ou feminista, mas também hetero e, naturalmente, heteronormativo».

A Rata Dentata não se revê num festival transfeminista que privilegia a abertura do espaço à heteronorma*tividade em detrimento da criação de condições de bem-estar junto das pessoas lgbti. A Rata Dentata não se revê num festival transfeminista que, optando por estar aberto a uma tecnologia de opressão (a heteronorma), não disponibiliza um protocolo anti-agressões e de gestão de conflitos. A Rata Dentata não se revê num festival que designa de «público» xs suxs participantxs, numa linha que reproduz uma linguagem de lógica capitalista (situando-nos na esfera do consumo) e que nos uniformiza (omitindo a violência exercida contra as corporalidades não-hegemónicas).

b) «Fico espantado também quando falamos de violência de fotografias e desenhos, mas em contrapartida, nenhum comentário sobre a violência dos documentários sobre as pessoas intersexo, nem sobre as violências dos desaparecimentos forçados e das ditaduras da América Latina».

A organização do Festival ¿Anormales? mantém uma confusão (conveniente) relativamente ao material exposto. A exibição de documentários/fotografias sobre as «pessoas intersexo», os «desaparecimentos forçados e as ditaduras na América Latina» inscrever-se-á numa tentativa de denunciar a violência sistémica exercida sobre os corpos. No caso específico deste festival, esta denúncia careceu, de resto, de políticas de consentimento e de procedimentos de gestão de sensibilidades.
Já um “trabalho artístico” que exibe a cabeça de um porco para consumo visual faz uso de instrumentos da opressão, tais como a objectificação, a fragmentação e a apropriação dos corpos. Decidir expô-lo num festival transfeminista é colaborar na (re)produção de violência simbólica.

c) «A Europa é uma grande mudança para mim após 8 anos de numerosos festivais na América latina, no sentido em que não foram os machistas, nem xs lgbtfóbicos que criticam o festival, mas sim pessoas lgbti feministas».

Para a Rata Dentata, a auto-reflexão e a auto-crítica são práticas necessárias para o fortalecimento político de um movimento. Ignorá-las é mantê-lo estático. Deslegitimá-las é limitar a potência transformadora do transfeminismo.

II. Festival ¿Anormales? (Coimbra)

1.
O Festival ¿Anormales? (Coimbra) decorreu entre os dias 9 e 12 de Dezembro, na República Rosa Luxemburgo. A roda de conversa sobre as intersecções entre o transfeminismo e o anti-especismo, que teve lugar no dia 10, foi uma proposta unilateral do colectivo Rata Dentata, submetida online no final do mês de Novembro, na sequência de uma open call. Ao contrário da informação disponibilizada no site deste festival, a Rata Dentata não foi convidada pela República Rosa Luxemburgo.

2.
O Festival ¿Anormales? (Coimbra) decidiu incluir na ementa do jantar corpos mutilados de animais não-humanxs (“carne” e “peixe”). Pergunte-se então: O que é que fazemos aos discursos de auto-determinação dos corpos quando trilhamos os corpos e roemos os ossos dxs animais não-humanxs? Valer-nos-á aqui o essencialismo biológico? O que é que faremos com as críticas transfeministas e queer ao pensamento binário e à lógica de dominação que lhe subjaz? Porque é que a ingestão dos corpos de animais não-humanxs em nome do palato é acolhida como um exercício da autonomia individual e da liberdade de escolha? Onde ficam as críticas ao *privilégio* e às *normatividades*? Como justificar o duplo padrão em relação aos corpos que *importam*?

Para o nosso colectivo, animais não-humanxs, mulheres, pessoas LGBTI, pessoas não-binárias, pessoas queers e outras corporalidades não-hegemónicas experienciam a violência estrutural. O desmantelamento da opressão cisheteropatriarcal será apenas possível se endereçarmos não só os seus sintomas mas também os pilares em que este assenta. Um desses pilares é, justamente, a hierarquização das vidas e dos corpos que *importam* e a suposta legitimidade do grupo dominante para dispor, apropriar-se e controlar as vidas e os corpos daquelxs que são construídxs como x “Outrx”.

3.
Na roda de conversa sobre as intersecções entre o transfeminismo e o anti-especismo, o colectivo Rata Dentata posicionou-se publicamente contra o facto de o Festival ¿Anormales? (Coimbra) ter decidido incluir animais não-humanxs no menu deste evento. Fê-lo porque a reprodução da violência especista neste festival colide com as linhas políticas de um colectivo participante e agride xs activistas da Rata Dentata em termos individuais. Fê-lo porque o colectivo Rata Dentata despreza a cultura do calar e procura intervir a partir de uma política de frontalidade. Fê-lo porque a Rata Dentata não se revê no falatório de bastidores mas na construção de espaços colectivos. Fê-lo porque a Rata Dentata não se reconhece na frivolidade de quem se preocupa mais com a imagem do que com o debate, o intercâmbio e a co-aprendizagem. E, de facto, nessa roda de conversa houve debate, houve intercâmbio, houve co-aprendizagem, e sim, isso pode acontecer também no conflito entre nós. O objectivo não é magoar pessoas nem arruinar a imagem pública de terceirxs, o objetivo é visibilizar no debate público questões que nos dizem respeito.

III. Impedimento ao debate público

No dia 14 de Dezembro, verificámos que o acesso ao evento de facebook do Festival ¿Anormales? (Lisboa) não estava disponível. As publicações feitas pelas Panteras Rosa, as intervenções do Festival ¿Anormales? e os comentários realizados no post de agradecimento das Panteras Rosa [4] por algumxs participantxs no festival foram eliminados, não se encontrando mais disponíveis publicamente. Para o nosso coletivo, esta decisão constitui uma tentativa de encobrimento e uma falta de transparência que vem reforçar a postura assumida pela organização desde o início. Trata-se de uma postura que se pauta não pelo interesse em fomentar o debate público mas sim pelo interesse, por parte das pessoas da organização, em preservar o seu estatuto simbólico, colocando-se numa posição acima da possibilidade de qualquer crítica e da necessidade de repensar posicionamentos políticos.

IV. Por um transfeminismo onde todos os corpos importem

A Rata Dentata lamenta hoje ter participado no Festival ¿Anormales?, uma vez que não sente afinidade com aquilo que, mais tarde, se revelou ser a sua estrutura política. *Festivalar*, para este colectivo, implica desenvolver uma reflexão sobre a opressão que vai além de uma perspectiva antropocêntrica, assim como fomentar o uso de ferramentas alternativas ao sistema (e.g., dinâmicas assembleárias, horizontalidade, espaços seguros, política de cuidados). E não a ausência disto tudo.

Pelo fim das lógicas binárias e hierárquicas, cisheteropatriarcais e especistas!
Pela consideração do anti-especismo como parte da luta transfeminista!
Por acções políticas livres de agressão!
Por uma ética de cuidados e por espaços mais seguros!

P.S.: Agradecemos axs activistas do colectivo TransMissão: Associação Trans e Não-Binária por terem apresentado, desde o início e durante todas as interacções realizadas, uma posição de abertura ao diálogo, de atenção e de cuidado.
Agradecemos também à República Rosa Luxemburgo a abertura que demonstrou para realizar um jantar vegano nos restantes dias do festival, como já estava previsto no programa. Como foi esclarecido na roda de conversa dinamizada pela Rata Dentata, a ausência de uma comunicação prévia sobre a realização de jantares com animais não-humanxs (“carne” e “peixe”) deveu-se a um erro organizativo.

[1] A Rata Dentata é um colectivo não-misto - transfeminista, anti-especista, queer e libertário - cuja acção política interseccional visa contribuir para o fortalecimento do movimento autónomo em Portugal.

[2] https://www.dropbox.com/s/1fwhnwi4zs363pm/Fotografia_Festival_Anormales_...

[3] O colectivo TransMissão: Associação Trans e Não-Binária lançou um comunicado a posicionar-se sobre este assunto no dia 07-12-2017: https://www.facebook.com/TransMissaoATNB/posts/1818259618472372

[4] https://www.dropbox.com/s/ulyalx5fglb5ujh/Texto%20de%20agradecimento%20%...

[5] https://www.dropbox.com/s/4vd3m7zavo9vsl0/Comunicado%20Festival%20Anorma...

https://www.facebook.com/ratadentata/

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