Padaria abandonada é ocupada e distribui pão grátis
Hoje, 25 de Abril de 2011, nós, padeiras e padeiros livres, convidamos todos à padaria da calçada da bica - Travessa do Cabral nº 37, libertando-a do abandono a que foi votada pelas dinâmicas económicas da cidade.
Perguntamo-nos onde estão os proprietários desta padaria que não resistiram à economia de supermercado que dominou as nossas cidades e que tornou a actividade desta e de muitas outras padarias insustentável. Fazemo-lo por todas as actividades do nosso quotidiano, cada vez mais sufocadas por politicas de regulamentação que na verdade não são mais do que instrumentos para o domínio da nossa sociedade pelos grandes grupos económicos.
Quando crescemos, ainda conhecíamos pelo nome o padeiro, o talhante, o merceeiro. Esta vizinhança abria espaço para uma solidariedade que se esfumou no anonimato das cidades actuais. Ainda assim, não é um fascínio romântico pela vizinhança que nos move, mas a necessidade de nos organizarmos frente às dificuldades da situação em que nos encontramos.
Em horas difíceis como as que atravessamos, achamos que à ideia de propriedade se devem sobrepor conceitos de comunidade e de solidariedade, sobretudo numa cidade tão marcada pelo abandono. A cidade a quem a vive e usa, a quem dela precisa. Acreditamos que juntos somos mais e que todos devemos ter uma palavra a dizer e um par de mãos para construir o futuro das nossas vidas.
Por isto, convocamos todos os vizinhos, próximos ou distantes, a pensar o que fazer desta padaria, e a partir dele, do bairro, da cidade, do mundo. A assembleia acontecerá à mesma hora da manifestação convocada para a Avenida da Liberdade, não como forma de oposição a esta manifestação, mas com a revolução dos cravos no coração, tentando celebrá-la da forma mais viva que encontrámos.
Iremos distribuir pão gratuitamente desde as 8h da manhã, até que se nos acabe a farinha. Durante a tarde, iremos servir sandes, esperando para o lanche todos os que, depois da manifestação, se nos queiram juntar. Queremos construir um forno nesta padaria, para activá-la em todo o seu potencial. A forma como o faremos será um dos pontos que iremos apresentar à discussão na assembleia de vizinhos.
Unidos Venceremos!
Um velho slogan, herança do 25 de Abril que hoje se comemora. Queremos celebrar o entusiasmo que juntou tanta gente, na ilusão da construção colectiva de um novo mundo. Guiados pelo sonho, a todos o que nos vierem pedir pão, oferecemos esta padaria. Que haja pão para tanta mão.
PS: Por comodidade utilizamos o masculino genérico neste manifesto. Não que seja nossa intenção excluir as mulheres, que para nós estão naturalmente incluídas.
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Comentários
Linguagem e discriminação
A linguagem que utilizamos, cuja regra gramatical manda sobrepor o masculino ao feminino é dominante para o lado de quem a balança mais pesa. Neste caso de quem a fez: os homens. Quando a linguagem - que existe para dizer - se refere à humanidade como Homem, fá-lo porque vem dos tempos bem recentes em que a mulher não existia oficialmente.
Desde então que a linguagem continua a dizer o que muitos homens não ousam dizer, mas que ousam disfrutar: continuam a ser eles quem mandam. Mudar quem manda é mudar a linguagem. Aceitar a linguagem dominante é aceitar a dominação. Neste campo pelo menos.
Eu não quero aceitar dominação nenhuma nem dominar ninguém. Por isso mudei a minha linguagem. Ultimamamente, desde que me dei conta de que vivo com pessoas, passei a tratar-nos no feminino, em vez de usar xs ou @s... E gosto da reacção que isso provoca.
isso é uma historieta que não corresponde à realidade. a gramática é descritiva e não prescritiva. A maneira como nas diferentes línguas se lida com esse problema é variada. Isto mostra bem o carácter de seita dos ambientes onde anda esta gentinha. este lixo mal arranje emprego fora da universidade deixa-se destas tretas, a não ser que arranje emprego na "medicina" alternativa a extorquir dinheiro às pessoas à custa do seu sofrimento, e para promover a banha da cobra lá terão que ter um discurso convincentemente alternativo, seja com pseudo-linguística seja com misticismo.
esta realidade não corresponde ao garrano. ele é um ditadorzeco de trazer por casa e não um revolucionário. A maneira como, nas diferentes línguas, insulta e oprime tudo o que discorda dele é variada. E isto mostra bem o carácter trauliteiro do ambiente onde se movimenta praticamente sozinho (porque já ninguém o atura). este lixo mal arranje emprego, coisa que evita a todo o custo porque prefere viver à custa da mamã e do papá, deixa-se de tretas, a não ser que arranje emprego na reescrita histórica a apagar das fotografias as pessoas que dele discordaram, e para promover a sua ditadura triste lá terá que ser educado e utilizar argumentos, seja com gramática seja com marxismo.
Acho piada à revolta que causa um x ou um @. A linguagem é secundária, claro, e não espelha, obviamente, qualquer forma de poder nem contribui para ler ou construir a realidade. Só quem é estranho à língua portuguesa é que não vê, por exemplo, que a palavra genérica "colaboradores" exclui a palavra "trabalhadores". Obviamente que a linguagem não é ideológica.
ironia alvar. há uma grande
ironia alvar.
há uma grande diferença entre o uso de palavras, sujeito a modas, à cultura, etc, e a sintaxe. qualquer pessoa que não seja estranha à língua, se for mulher, não se sente excluída tanto na expressão colaboradores como trabalhadores. o facto de ambas as expressões também poderem referir-se apenas a trabalhadores masculinos, não cria ambiguidade, já que para isso há o contexto. coisas bem mais complicadas se resolvem com esse recurso da língua. querer forçar qualquer pessoa a dobrar a língua, isso sim é que é completa imbecilidade autoritária digna de activistóides masoquistas e policiais.
ironia não alvar:
A Korrektpol e a Língua Portuguesa (extracto)
(…)
Já que a Korrektpol considera as concepções, ideologias e preconceitos, de facto, todos os produtos da consciência, aos quais atribui uma existência independente, como os elos reais que ligam os homens, é evidente que a Korrektpol tem que combater apenas essas ilusões da consciência. Como, de acordo com a sua fantasia, as relações entre os homens, todos os seus feitos, as suas cadeias e limitações são produto da consciência humana, a Korrektpol logicamente apresenta ao homem o postulado moral de trocar a sua consciência presente por uma politicamente corrigida. Assim esta exigência na alteração dos espíritos resume-se a exigir que se interprete a realidade de outra maneira, a que se a descreva com outras palavras. E é assim que as suas mais recentes e maioritárias acções são esforçados combates no sentido de que se confunda género na acepção linguística com género na acepção sexual (não entendendo nós por sexo uma mera determinação biológica mas um mais vasto concurso de factores que se interpenetram alegremente e com generosa sociabilidade para gerar, numa louca síntese de múltiplas determinações, o concreto que aí se vê encantando por toda a parte), e que passemos todos a ter tento na língua (nem os philosophes sugeriam tal aos déspotas iluminados e futuros campeões republicanos do estado centralizado), como por exemplo, quando reclama que não se deve manjar nem perus nem peruas, já que é pecado da gula. Depois deste entremez dietético voltemos ao negócio que nos ocupa, que é tão ou mais dialéctico que as águas turvas do Tejo, essa pequena verdade onde o céu se reflecte.
A Korrektpol pensa que com as suas invectivas está a combater o mundo realmente existente, quando em realidade mais não faz senão opor-se às frases deste mundo. Mas as suas descobertas, de uma notável quantidade de importância nula, em algum lado as foi desencantar. Para percebermos a Korrektpol enquanto estrutura mental temos pois que inquirir sobre a relação que existe entre o que ela afirma e o aspecto geral do comportamento dos seus sequazes. É que do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar este arremedo de crítica do mundo pela sua expressão consciente, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta expressão pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção, ou melhor pela vida que lhe passa ao lado e pelo lado em que se posiciona na vida.
Este nosso propósito foi realizado sob a forma de uma crítica da filosofia correcional pós-derridaziana. O manuscrito – dois grossos volumes in octavo – já estava há muito tempo na Baixa da Banheira, no lugar em que deveria ser editado, quando nos inteiramos de que novas circunstâncias imprevistas impediam a sua publicação. Em vista disso, entregamos o manuscrito à crítica roedora dos ratos, de muito bom grado, pois o nosso objectivo principal – esclarecer as nossas próprias ideias, já estava alcançado. Como bem se sabe a humanidade só se propõe objectivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre, que esses objectivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para a sua realização.
Ah, falávamos da Korrektpol! Por que estamos nós falando disso ainda? Ora isso mesmo é que eu ia perguntar a essas senhoras…
Parabens Padeiros...Viva Portugal...Avante Portugueses...Abaixo o Capitalismo que rouba e tira o Pão de cada dia para todos os Portugueses...!!! Viva a Ocupação da Padaria...!!! Vivam os resistentes que continuaram a cantar no 25 de Abril...!!!
Esperemos bem que a ideia de propriedade, seja ou não com solidariedade, desapareça do mundo.
Quanto ao masculino genérico: só quem é estranho à língua portuguesa vai achar que isso exclui as mulheres. É uma idiotice de todo o tamanho ver sexismo nisso.
sugeria então: Unidxs Venceremos!
e se fosses dar banho à cadela? esta gentinha nem vê o absurdo das suas pseudo revoltas.