‘The Florida Project’, a América esquecida de Sean Baker

por João Estróia Vieira
em https://www.comunidadeculturaearte.com

Noam Chomsky, no seu mais recente livro Requiem Para o Sonho Americano, diz-nos que nos Estados Unidos da América as desigualdades nunca foram tão profundas e as oportunidades tão restritas como nos dias de hoje. Sean Baker, disruptivo como sempre, ruma novamente contra a maré de Hollywood e depois de em 2004 nos ter trazidoTake Out, sobre imigrantes ilegais,Starletem2012 abordava a pornografia e em 2016 o refrescante Tangerine,mostra-nos agora um pouco dessas desigualdades que Chomsky fala. Na altura filmado nas ruas de Los Angeles com recurso a três Iphones 5S, Tangerine contava-nos a história de duas prostitutas transgénero onde, na véspera de Natal, uma delas, acabada de sair da prisão, descobre que o seu namorado (e chulo) namora com uma não transgénero. Em 2018, a mesma intimidade que a câmara irrequieta de Baker nos trouxe em obras anteriores, leva-nos agora até ao “projecto” inacabado que é a Florida.

É irónico que ao lado do “happiest place on earth”, como Walter Disney idealizou e nomeou o seu parque temático, à beira da estrada, em motéis ou em barracas, milhares (milhões?) de pessoas vivam de meros subsídios, sobrevivendo com extrema dificuldade no limiar de uma pobreza ignorada por quem está simplesmente de passagem. Emparelhados com vistosos placares publicitários, evocando escapatórias de sonho, existem motéis com nomes como Magic Castle ou Futureland, nomes que de locais fantasiosos. Mas essa fantasia acaba precisamente onde começa: no seu nome e na sua fachada de cor apelativa. Dentro desses edifícios coloridos estão pessoas que lutam por ter o que comer, pessoas que se drogam e se prostituem com os seus filhos em divisões contíguas e a passar dificuldades gravíssimas, deambulando de vez em quando entre motéis por não poderem fazer dos mesmos a sua estadia permanente (um “lar”, portanto).

Sean Baker filma com pureza e realismo (a fazer lembrar o neo-realismo italiano) a América esquecida e os seus outcasts. Tal como The Florida Project, tivemos também no ano passadoAmerican Honey que se atreveu a trazer essa América ao grande ecrã, mas cometendo dois erros na altura: a sua duração excessiva de quase três horas e, sobretudo, o romantizar da sua história. Em The Florida Project não temos uma mensagem romantizada; não temos sequer uma mensagem clarificada ou imposta. É filmado porque é assim, e é por ser assim que é filmado. O olhar exterior da inglesa Andrea Arnold, realizadora de American Honey deu lugar ao olhar de Sean Baker, um olhar que tão bem conhece as ruas (como já nos havia mostrado em Tangerine) que quer percorrer de forma anárquica, como uma criança o faria em busca de algo tão simples como um gelado.

Essa criança é Moonee, interpretada por Brooklynn Prince naquela que é uma das prestações mais memoráveis de uma actriz tão jovem em muitos anos. Moonee e os seus companheiros, Dicky (Aiden Malik), Scooty (Christopher Rivera) e Jancey (Valeria Cotto) vão-se divertir a fazer o que todas as crianças gostam de fazer: correr, brincar, comer doces e preparar algumas partidas a Bobby (um Willem Dafoe nomeado ao Óscar para Melhor Actor Secundário), o gerente de um dos motéis, ou simplesmente cuspir para o capô de algum carro novo ou descobrir e explorar novos sítios, a celebrar a vida, vivendo todos os dias como se fossem uma aventura. Além das interpretações infantis, há outras a destacar, sobretudo as de Mela Murder (a mãe de Scooty, Ashley) e da mãe de Moonee, Halley (Bria Vinaite), que, com a sua filha faz uma dupla absolutamente dominante em ecrã.

Filme de contrastes, The Florida Project ganha com o facto dos seus actores serem praticamente todos estreantes (Bria Vinaite foi descoberta através do Instagram), dando ao filme um cunho de frescura, de verossimilidade, e a nós, que não estamos habituados a ver as caras, ajuda-nos a transportar para esse Mundo de outsiders da sociedade. Só Willem Dafoe destoa, mas destoa também numa personagem riquíssima, alternando entre o gerente que tem de tomar decisões difíceis em relação aos seus hóspedes, como também, numa vertente mais humana, aquele que está sempre disposto a dar a mão aos que mais precisam.

Moonee, já na recta final da obra, diz a Jancey que a árvore onde se encontram sentadas é a sua preferida pois apesar de ter tombado continua a crescer – uma alegoria que podemos fazer em relação a todas as Moonees, Janceys, Dickys e Scootys por esse Mundo fora, que continuam a crescer e a viver a vida de sorriso nos lábios apesar das dificuldades. The Florida Project é um filme brutalmente honesto, gracioso e descarado, como a idade dos seus principais protagonistas assim obriga, e com um dos finais mais marcantes do ano. Um verdadeiro grito de socorro e de despertar de consciência.

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