Já ouviram falar de racismo ambiental?

Os protestos da população de Flint, no estado do Michigan, Estados Unidos da América (EUA), começaram em 2014. Queixavam-se da água que saía das torneiras: castanha, mal-cheirosa, impossível de beber. Segundo as autoridades estava tudo bem.

A cidade estava sob um processo de resgate financeiro e era gerida por um burocrata nomeado para sanear as contas cujos olhos fixavam apenas as folhas de excel. Gastava-se muito com o abastecimento de água, então trocou-se de captação: em vez do rio Detroit e do lago Huron, a mais de 100 quilómetros, passou a ir-se diretamente ao rio que batiza a cidade. Só que o Flint tinha sido durante décadas o esgoto da pesada indústria automóvel e metalúrgica, como a General Motors, aí fundada, e fluía nele água bastante corrosiva. A tal ponto que destruía os velhos canos de chumbo da rede de distribuição. Das torneiras passou a sair um líquido tóxico que só parou de correr quando o resultado de análises detetou no sangue de algumas crianças locais concentrações de chumbo estratosféricas. Entre 6000 a 12000 menores podem ter sido expostos. Flint tem cerca de 100 mil habitantes, o equivalente à população de Setúbal. Durante quase dois anos, a sua população esteve a ser envenenada com o conhecimento das autoridades, que o negavam.

O estado de emergência foi decretado por Barack Obama, em janeiro de 2016, e só aí foi reconhecido oficialmente o problema. A água passou a ser captada no local de antigamente. A substituição das redes de abastecimento está em curso, mas só ficará concluída, na melhor das hipóteses, em 2020.

A maioria da população de Flint é negra e pobre.
Poderia uma situação tão grave ter acontecido numa cidade de gente branca?
A resposta mais provável é não.
A isto, chama-se racismo ambiental.

Nos Estados Unidos da América é tão verdade hoje, como há 30 anos. Em 1987 o relatório “Toxic Wastes and Race in The United States” concluía que havia uma relação direta entre locais onde eram despejados resíduos perigosos e onde viviam comunidades pobres negras ou hispânicas.

Esta semana, foi a vez da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) revelar um estudo que volta a confirmar que é mais provável pessoas pobres, não-brancas respirarem ar poluído ou viverem perto de fábricas ou instalações poluidoras que pessoas brancas, mesmo que pobres. As histórias sucedem-se.

As comunidades étnico-raciais mais vulneráveis ou minoritários são alvos fáceis. O contestado oleoduto Dakota Access, que ameaçava a reserva indígena de Standing Rock, em Dakota do Norte, também nos EUA tinha, na verdade, um traçado que passaria muito perto de Bismarck, a capital do Estado, cuja população é maioritariamente branca. O seu percurso inicial foi alterado propositadamente, depois de vários protestos dos moradores. Assim, mudou-se a localização e o problema deixou de ser dos caucasianos, para passar a ser das várias tribos índias.

Lá, como cá, o racismo existe e manifesta-se. Seja intencional ou resultado de situações de privilégio e poder. É sobre isso que o Ricardo Ribeiro e a Maria Almeida, com som do Bernardo Afonso, conversam com o Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo, na entrevista desta semana. Falam ainda do vergonhoso e inaceitável relatório do Comité Anti-Tortura do Conselho da Europa [ podem ler aqui a versão completa, em inglês], onde se acusa Portugal de ser um dos países europeus com mais violência policial. Aponta-se o dedo às forças de segurança pela discriminação racial praticada, identificando afrodescendentes e estrangeiros como os grupos que correm mais risco de sofrer abusos às mãos da Polícia. Um nojo.

Mamadou Ba sobre racismo e violência policial

"Nos últimos 15 anos, mais de dez jovens negros morreram nas mãos da polícia.”. Mamadou Ba, dirigente da SOS Racismo, falou-nos da cultura de impunidade que se sente nas forças de segurança portuguesa e dos casos de violência policial por que sofrem negros em Portugal. Falámos também sobre as lutas travadas sobre a memória, o mito do Portugal não racista, o racismo no acesso à habitação, a recolha de dados étnico-raciais e a Lei da Nacionalidade. Ouve aqui.

É Apenas Fumaça

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