SOS Racismo: nova denúncia de agressões na esquadra do Bairro Alto, em Lisboa

No seguimento dos relatórios que ficaram conhecidos nestes dias (Comité Europeu para a Prevenção da Tortura e Tratamentos Degradantes ou Desumanos (CPT na sigla inglesa), como para confirmar os tristes informações sobre a violência policial, tortura e os maus tratos praticados pelas nossas policias, seguem aqui abaixo mais casos dessas práticas que ainda há pouco tempo tínhamos denunciado Vale de Judeus, em Dezembro e Fevereiro, e que continuam, pelos vistos, sem que nada nem ninguém se preocupe a não ser os próprios que, quase todos os dias nos enviam novas queixas, ou na Vidigueira e Vila Verde sobre a comunidade cigana), eis que a Esquadra do Bairro Alto volta à carga.

Segue em baixo um depoimento do ocorrido à precisamente uma semana nesta tristemente célebre esquadra onde dezenas de pessoas iam, sistematicamente caindo das escadas quando por lá passavam. Na altura em que também um dirigente do SOS Racismo "tombou" ao tentar ajudar outros três cidadãos angolanos que não havia meio de atinar com .aqueles degraus e que por isso foram todos parar ao hospital, a nossa associação sugeriu ao ministério "alterar a estrutura da esquadra".

Ora finalmente com uma esquadra nova qual será agora a desculpa para que as agressões, perdão "as quedas", continuem a acontecer?

Pelo SOS Racismo
José Falcão

Eis o depoimento

26/02/2018 - depoimento

Na sexta-feira de manhã entre as 6h e as 6h30, eu estava no Cais do Sodré em frente ao Mercado da Ribeira. Eu estava a conversar com a minha amiga Michelle (testemunha) e outras pessoas que não conheço, éramos à volta de 10/15 pessoas, estávamos à espera do café abrir para tomarmos o pequeno-almoço.

De repente apareceu um carro de policia que parou à nossa frente. Saíram dois polícias e perguntaram o que nós estávamos a fazer ali. Nós respondemos que estávamos a relaxar e beber. Depois eles pediram os nossos documentos. Eu disse que não tinha os documentos comigo mas que eu lhes podia mostrar no meu email o documento da SEF que comprova que tenho marcação com a SEF. Puseram-me logo as algemas com as mãos atrás das costas e eu reagi perguntado porque me estavam a por algemas, que não sou nenhum criminoso. Eu não me lembro se as outras pessoas mostraram os documentos ou não, aconteceu tudo muito rápido. Puseram-me a mim e outro jovem dentro do carro da polícia. O outro jovem também é negro, baixo, à volta de trinta e tal anos. Eu conheço o outro jovem de vista mas não sei o nome dele.

Quando estava dentro do carro da policia, ainda estacionado no mesmo sítio, eu estava nervoso e voltei a perguntar porque me estavam a tratar como um criminoso. Em reação, um dos policias bateu-me na cara com o bastão, mandou-me calar e tapou-me a cara com o meu goro. A partir desse momento os policias mantiveram a minha vista tapada com o meu goro à frente dos olhos. Os policias tinham aspeto Português, olhos e cabelos escuros, um pouco mais altos do que eu, eu penso entre 30 e 35 anos de idade. Eu mal tive oportunidade de os ver, não sou capaz de os identificar.

Enquanto conduzíamos para a esquadra eu continuei a fazer o mesmo tipo de perguntas, não percebendo porque me estavam a tratar assim. O outro jovem que também estava em algemas tentava acalmar-me, a dizer para eu falar mais em Português com eles e a insistir que ele queria ir para casa e não queria confusão.

A certa altura o carro parou, os policias tiraram-nos do carro e levaram-nos para dentro da esquadra. Quando me tiraram do carro levantaram o meu goro e eu pude ver que estamos a entrar para a esquadra do Bairro Alto. Dentro da esquadra levaram-nos muito rapidamente para uma sala na parte posterior da esquadra. Assim que chegámos à outra sala voltaram o por o meu goro por cima da minha cara com a boca a sangrar. Sentaram-nos num banco, o outro jovem continuava ao meu lado. Eu
continuei a perguntar porque nos estavam a tratar assim. Assim que entrámos os policias pediram o meu nome e a minha morada. Eu dei-lhes os estes dados. Os policias também controlaram os meus bolsos e tiraram o que eu tinha lá. Como eu sou asmático fiquei com falta de ar porque o goro estava a tapar o meu nariz e a minha boca.

Fiquei aflito e cai no chão, ainda com as algemas nos pulsos por trás das costas. Os policias gritavam comigo para me levantar mas eu não conseguia porque as algemas estavam muito apertadas e não conseguia respirar. A certa altura eu percebi que deixaram o outro jovem ir embora, não me lembro exatamente se o outro jovem ainda estava lá quando eu cai no chão. Eu fiquei deitado no chão durante muito tempo, eu penso entre uma a duas horas.

Eu continuava deitado no chão, calado, quando de repente um policia chega ao pé de mim e põe Pepper-spray no meu goro à altura dos meus olhos e da minha boca, três vezes. Eu reagi a isso e comecei a gritar que aquilo era desumano. O policia chutou-me nas costas e comentou «Se calhar devias ter ficado em Moçambique.». Deram-me pontapés nas costas umas quantas vezes. Deixaram-me ali deitado no chão e eu comecei a tossir sangue e a ter falta de ar – continuava com o goro em frente à cara. Os policias diziam «Queres morrer aqui? Queres morrer aqui?». Eu lembro-me de os policias se riram à minha custa, não sei exatamente a que altura foi.

Depois um policia disse-me que tinha chegado a ambulância. Os policias puseram-me sentado num banco onde os técnicos da ambulância me encontraram e me ajudaram a ir até à ambulância. Antes de ir na ambulância, um dos policias disse-me que se tinha informado na SEF e confirmou que eu tenho marcação em agosto. Depois disso disse-me que a SEF lhe informou que eu tenho 20 dias a partir desse momento para sair do país ou eu tinha que ir para à SEF para resolver a situação com eles. O policia disse para eu levar as minhas coisas, eu disse que não conseguia ver nada por causa do Pepper-spray, ou seja, tive de procurar as coisas às cegas apalpando e penso que o resto fui ajudado pela equipa médica da ambulância. A meu saber, não me acusaram oficialmente de nada.

Dentro da ambulância a enfermeira fez a triagem,disse-me que quando eu apresentasse queixa me poderia ajudar.

Uma vez no hospital São José, fiquei somente sentado num banco até voltar a conseguir ver. No hospital não fui observado por nenhum médico. Eu penso que eram à volta das 11h da manhã quando sai do hospital.

via Portal Anarquista (Facebook)

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