#AltPT Carta de uma companheira à sua entidade empregadora sobre a sua adesão à Greve Geral de Mulheres #8M

«Não se sabendo com rigor histórico a origem do dia 8 de Março, consta que há 161 anos, em 1857, 129 operárias têxteis morreram depois de os patrões terem incendiado a fábrica, ocupada por motivos de greve. Há várias versões sobre a escolha deste dia, até porque no período que se seguiu, até à I Guerra Mundial, organizavam-se os primeiros movimentos de mulheres, sobretudo na Europa e Estados Unidos, nos quais se destacaram as lutas das operárias por salários dignos, redução da jornada de trabalho, melhores condições laborais, e pelo direito das mulheres ao voto e à igualdade. Neste contexto, a ideia de criar um dia Internacional da Mulher ganhou forma, apesar de, inicialmente, ser comemorado em datas diferentes, consoante o país.

Terá sido em 1917, na Rússia, que a 8 de Março (23 de fevereiro no calendário russo) cerca de 90 000 operárias protestaram pela “Paz e Pão”, desencadeando um conjunto de acontecimentos que resultaram na Revolução de Fevereiro e no fim do Czarismo. Surgia assim o dia oficial!

A história deste dia é importante na medida em que nos permite olhar o que temos hoje (e como o conseguimos) e avaliar o que está ainda por conquistar, passados 100 anos. Resgate-se a história para compreender o presente e apontar caminhos para o futuro, sem as flores, workshops de maquilhagem ou jantares com descontos, que nos são vendidos neste dia.

Este ano realiza-se pelo segundo ano consecutivo, a dia 8 de Março, uma Greve Internacional das Mulheres em cerca de 57 países. Há já vários anos que é comum haver manifestações, passeatas ou encontros, no entanto, a diferença é que desde 2016 as mulheres são chamadas a parar para que o mundo, na medida das nossas possibilidades, pare também (afinal constituímos mais de metade da humanidade e da mão de obra existente)! As principais razões, com as especificidades próprias de cada país e da vida das mulheres nesses países, são o fim da violência contra a mulher – segundo a ONU 7 em cada 10 mulheres do mundo são ou já foram violentadas em algum momento da sua vida. Sob o lema “Nem uma a menos!”, pretendemos que se crie um conjunto de medidas que previnam a saga dos femincídios – a expressão máxima da desigualdade ainda vivida entre homens e mulheres. Não paramos só pela violência física mas também pelas desigualdades económicas, sociais e laborais ainda existentes. A título de exemplo, li hoje na primeira página do Público que Portugal foi o país da Europa onde a desigualdade salarial entre homens e mulheres mais se agravou. A nível internacional Angela Davis, assim como outras intelectuais, chamam-nos a entrar em cena e a sair à rua contra a feminização da pobreza, algo estatisticamente visível em todos os países.

Não informo agora que hoje não irei trabalhar pelo factor surpresa ou para complicar a vida dos meus colegas. De facto não tinha pensado em aderir porque sei que é complicado, ao final da tarde, gerir um grupo de crianças com menos uma pessoa; porque, como trabalhadora independente, não é tão fácil colocar um dia de férias e porque, de facto, demorei até encontrar um trabalho de que gostasse. No entanto, hoje acordei e ao pensar em tudo aquilo que deixei expresso neste texto, sinto-me incapaz de não aderir hoje à greve de mulheres. Em tempos “Trumpistas” acredito numa solução e numa resposta colectiva e, com todos os problemas que possam surgir da minha decisão, prefiro agir de acordo com a minha consciência. »

Guilhotina.info

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