ZAD. Carta a todas as que se revêem no movimento contra o aeroporto e o seu mundo

rotulado com

Carta aos comités locais, apoiantes do movimento e a todas aquelas e aqueles que se revêem no movimento contra o aeroporto e o seu mundo

ZAD, janeiro 2018
https://zad.nadir.org/

[Texto escrito por algumas ocupantes da ZAD perante o anúncio do abandono do projecto do aeroporto de Notre-Dame-des-Landes. A ZAD (Zona a Defender) foi ocupada desde 2009, para proteger mais de 1600 hectares de terras férteis, florestas e casas. Há dez anos que ali se constroem cabanas, se travam máquinas, se cultiva a terra, se luta contra a polícia, se experimenta viver de forma mais livre e autónoma. O projecto megalómano dum novo aeroporto em Nantes (onde já existe um em funcionamento) tinha mais de 40 anos, e era levado a cabo pelo Estado Francês e a multinacional francesa Vinci, a maior empresa de construção mundial e dona dos aeroportos portugueses desde a sua privatização em 2012.]

Assistimos nas últimas semanas a um dilúvio de declarações mediáticas em torno da zad de NDDL e do seu futuro - aeroporto ou não, expulsões ou não, novo Larzac, ou não, blablabla. Algumas reacções levam-nos a crer que a situação não é muito clara para as e os membros dos comités locais, apoiantes e simpatizantes, sobretudo aquelas e aqueles que estão mais longe. É a vocês que endereçamos esta carta, para explicar aquilo que entendemos da situação, colocar uma voz diferente daquelas que se fazem ouvir mais alto.

Somos algumas habitantes/ocupantes, de diferentes lugares da ZAD, que não têm sempre as mesmas posições, mas se juntam na vontade de que a zad conserve uma certa radicalidade que não seja apenas de fachada, e de que cada pessoa possa encontrar o seu lugar naquilo que se vive aqui.

Onde estamos?

Durante o ano que vem de passar, as relações entre os diferentes componentes do movimento contra o aeroporto e no seio das ocupantes não se tornaram mais simples. Tem sido um período de crispação, fruto de incompreensões mútuas e desacordos políticos.
Algumas continuam no entanto a manter e criar pontes entre as várias realidades. É mais do que complicado, e ao mesmo tempo apaixonante. Não o trocaríamos em nada por uma vida bem arrumadinha.
Mesmo se estes atritos não são novos, o abandono do projecto de aeroporto mete uma pressão suplementar. O desafio de pensar em conjunto o futuro da zona permanece fundamental para muitos.

As estruturas de organização do movimento também evoluíram:
1) Foi criada uma "assembleia dos usos", na sequência de conversas sobre o futuro das terras. Pessoas dos diferentes, componentes, comités, associações.... participam nela todos os meses. Os objectivos são ambiciosos: discutir/gerir o uso actual dos espaços comuns da zona, as diferentes práticas que aí existem, e os conflitos que possam surgir; e pensar o futuro da zona após o abandono do projecto.
Diferentes comissões trabalham sobre temas diferentes e fazem subir propostas à assembleia. Cada componente conversa depois entre si e faz saber do seu acordo ou das suas contra-propostas na assembleia seguinte, para que uma decisão seja tomada.
Este novo funcionamento responde às expectativas de algumas de nós que o consideram mais eficaz, e a uma certa fatiga ligada às dificuldades de avançar em conjunto. Reflectir e decidir em conjunto exige tempo, e portanto uma capacidade de escapar à agenda imposta pelo Estado.

2) A reunião de quinta-feira era o único espaço realmente comum de conversa das e dos ocupantes. Mas entre o espaço tomado pela organização do quotidiano e o tempo necessário a encontrar acordos à medida da nossa diversidade, tornava-se difícil discutir assuntos realmente complexos. Criou-se por isso uma assembleia mensal das e dos ocupantes, para continuar estes debates de fundo.

"Que história é essa da negociação?"

Nos últimos tempos, ouvimos falar com frequência da "possibilidade de negociar" (entre o Estado e o movimento anti-aeroporto), o que tem levantado muitas questões. Decidiu-se, em assembleia dos usos, a formação duma "delegação inter-componentes", cuja missão seria dialogar com o Estado sobre o futuro da zona sem aeroporto.

Para muitas de nós é importante que nos mantenhamos unidas face ao Estado, enquanto este faz tudo para nos dividir entre boas e malvadas, integráveis e reprimíveis.
É por isso que, após debates difíceis, se decidiu que as e os ocupantes participariam nessa delegação, nomeadamente porque os outros componentes vão de qualquer das formas participar.
Muitas de nós não estão de acordo ou não esperam grande coisa, porque face ao Estado não ganhamos senão aquilo que podemos tomar e manter pela luta, e não aquilo que ele nos queira conceder.
Mas, num momento tão crítico, temos certamente interesse em ver e saber aquilo que nos une e tem unido durante estes anos.
Não queremos crer que neste momento-chave, a que algumas chamam "vitória", o nosso movimento se desagregaria e que nos bateríamos cada uma pela sua parte do bolo, cuja cereja seria o acordo benevolente do Estado. Desejamos pelo contrário mostrar ao Estado, e a todos aqueles que o nosso movimento assusta, que unidas não somos apenas obstáculos aos seus projectos, mas entraves à sua lógica, com ou sem aeroporto.

Que, por meio das negociações, o Estado terá uma influência no que se passará aqui, é um facto. Mas isso não significa que lhe abriremos as portas daquilo que construímos, juntas e sem ele. Ele é e permanecerá, para nós, um adversário político, e nós continuaremos a construir as nossas realidades.

Denúncia dos fantasmas dos média

Os media exaltam-se a propósito de nós. Um jornal intitula uma das suas reportagens "Zadistas, terroristas como os outros?". A desmesura já não tem limites, mistura-se e confunde-se tudo, por criar uma bela imagem grosseira de medo. Porque o medo faz vender clics (ou papel) e faz votar sempre um pouco mais à direita nas próximas eleições.
Os média já lançaram a ofensiva, utilizando todas as ferramentas à sua disposição: mentira, má-fé, desinformação, informação fragmentada e descontextualizada, caricaturas, fotografias roubadas, suposições, preconceitos... para engordar o buzz e o sensacionalismo. As "informações" saídas sobre NDDL são ou comunicados não identificados da polícia ou manipulação grosseira.

Para o Estado, incitar editorialistas sem qualquer conhecimento das lutas sociais a assimilar os movimentos subversivos a terroristas é um estratagema habitual de designação dum inimigo interior. Uma diversão que lhe permite utilizar um arsenal judicial para vigiar e travar as e os militantes. Para legitimar a sua própria violência. A liberdade de expressão tem por fronteiras as noções vagas de terrorismo.

Mesmo se esta diabolização não se baseia em qualquer fundamento jurídico, ela permite facilitar a repressão e a vigilância dos movimentos contestatários.
Então, claro, eles tentarão tudo o que puderem para enfraquecer este movimento. Mas sobretudo, tentarão exacerbar as nossas diferenças para melhor nos dividir. De resto, quando outros redactores nos tiram um retrato liso, integrável e apolítico, nós não lhes agradecemos mais do que àqueles que nos criminalizam.

Em relação à evacuação / expulsões

A zad não tem portanto nada a ver com a imagem dum campo entrincheirado de dementes perigosos, veiculada pelos media para ocultar o fundo político daquilo que aqui é inventado no quotidiano. No entanto, a vida na zona não é tampouco um carta postal de gentis néo-rurais alegres da vida.

Como em toda a parte, há conflitos, stresses, derrapagens. Mas, aqui, tentamos resolver estas questões colectivamente, sem recurso a bófias, juízes ou psicólogos. Metemos imensa energia nisto, porque acreditamos que é possível. Aquilo que alguns chamam "zona de não-direito" é para nós um zona onde os nossos funcionamentos são pensados, discutidos, questionados quotidianamente, e submetidos à prova das diferentes realidades. É a lei deles que pune os pobres e protege os ricos, a lei deles que mete fora-da-lei, que reprime a solidariedade, as pessoas indocumentadas, o habitat livre e tanto mais. Aquilo a que eles chamam "não-direito", nós chamamos "fora das normas". E não é nem a legalidade nem a ilegalidade que nos parece o critério para julgar a justiça dos nossos actos. A invenção dum modelo social em constante experimentação é por vezes caótico e forçosamente imperfeito, mas é uma tentativa legítima mesmo se dá cotoveladas aos enquadramentos e às normas. E essa experiência colectiva, vivida, apoiada por milhares de pessoas desde há uma dezena de anos, dá esperança e sentido numa época em que o capitalismo devasta aquilo que resta de respirável neste mundo.

É por isso que seremos numerosas a defender a zad em caso de intervenção policial, como fizemos em 2012. Sabemos que como então a luta não se travará unicamente no perímetro da zad, mas no seio de toda a constelação de laços, lutas amigas e apoios. E apesar da assimetria da relação de forças anunciada (3 mil polícias de intervenção? 6 mil??), resistiremos melhor com o conjunto do prisma dos nossos modos de acção. Porque a nossa força é sempre essa diversidade complementar, que tanto enraivece aqueles que querem separar os bons resistentes dos maus.
Não esqueçamos nunca que a violência vem e virá primeiramente do sistema e do Estado, que define o seu nível. O governo prepara assim com ajuda dos media a opinião para uma evacuação de extrema violência, indo talvez até ao assassinato, como em Sivens.**

O que queremos: defender a zad para lutar contra o mundo do aeroporto
Desde que o Estado deixou entender que poderia abandonar o projecto, pessoas mais ou menos afastadas da nossa realidade revelam nos media os seus projectos para a zad. Não esperámos por elas para pensar o nosso futuro. O Estado e o sistema que ele defende levam-nos direitas contra o muro e, em vez de contribuir para o desastre em curso, sentimos-nos legítimas para tentar viver aqui de forma diferente.

Como decidido com o conjunto do movimento, queremos o congelamento da situação fundiária, para criar uma entidade saída do movimento que se encarregará destes comuns.
Ouvimos que uma zad após o abandono retornaria à sua vocação meramente agrícola anterior ao projecto. Se esta luta foi desde o início uma luta pela defesa das terras, ela alargou-se, nomeadamente com a chegada das ocupantes. As pessoas vivendo e lutando aqui desenvolveram outras práticas e pretendem bem continuá-las.

Passe a desfeita para aqueles que nos querem tornar uma zona pacificada de comércio justo, nós desejamos continuar a produzir e viver fora de enquadramentos e fora de normas. Queremos continuar a inventar outras maneiras de partilhar e trocar fora da exclusiva ligação mercantil, para sermos menos dependentes do estado e do mercado, mas também para as nossas vizinhas e apoiar outras lutas. Queremos ainda continuar a definir as nossas próprias regras e gerir os nossos conflitos.
Não temos resposta pré-mastigada sobre como viver de forma diferente neste mundo, sobre as contradições que nos atravessam e os compromissos que estamos ou não dispostas a aceitar.

Queremos cuidar em conjuntos dos espaços comuns (bosques, prados, espaços de reunião...) ; reforçar os laços de confiança que nos ligam às nossas vizinhas e desconstruir os preconceitos e fantasmas que nos separam de muitas delas.
Da mesma forma, não queremos uma zad onde só poderiam permanecer aquelas que se apresentariam bem perante os jornalistas, aceitariam adquirir um estatuto legal, ou quereriam/poderiam pagar facturas. Aquelas que não fariam uma nódoa sobre a foto de família.
Queremos que a zad permaneça diversa e surpreendente, que aqui coabitem pessoas com práticas variadas, porque comprometidas com ideias políticas diferentes. Defendemos esta zona juntas, vamos continuar a habitá-la juntas. Queremos que TODA a gente aqui possa ficar, sem excepção. Algumas partirão talvez, outras chegarão, outras virão de passagem. Como sempre aconteceu. Mas que não haja nem expulsão, nem nenhuma forma de intervenção policial visando reprimir algumas de entre nós.
Pensamos também em todas as que já sofreram repressão. Queremos a amnistia para as pessoas condenadas no contexto da luta contra o aeroporto, e estamos determinadas a lutar por ela.

Por fim, e talvez acima de tudo, desejamos que a zad permaneça uma zona de luta. Em conjunto, libertámos estas terras da sua destruição programada, instalámos formas de vida que nos correspondem, mais colectivas e autónomas, e não queremos parar por aqui. Lutamos contra o aeroporto e o seu mundo. E mesmo se o projecto é abandonado, o seu mundo continua a existir, e nós continuaremos a combatê-lo de todas as formas que nos parecerem pertinentes. Combater as infra-estruturas e os projectos de ordenamento do território, as políticas migratórias e o racismo de Estado, ao lado daquelas que mais do que nós sofrem violência sistémica. Continuaremos a tomar as ruas, ocupar edifícios e praças com as trabalhadoras, desempregadas, estudantes, precárias, contra as políticas capitalistas que nos metem mais e mais à mercê da economia. Continuaremos ainda o trabalho de desconstrução das dominações que atravessam a nossa sociedade (sexismo, racismo, especismo...) tornando-as visíveis e combatendo-as, na zad e fora dela.
Enquanto o movimento prevê o triste jogo de negociações com o estado, nós esperamos conseguir preservar em conjunto os espaços de liberdade que fazem da zad uma zona um pouco mais respirável do que o resto do mundo. Esta aposta não estamos de todo certas de ganhar, mas preferimos tentar a deixar-nos dividir.

D281

Quando ao troço da estrada D291 que atravessa a zad, a dita "estrada das chicanes", voltou a ser o centro das atenções. Vozes levantam-se nos media para reclamar a sua "abertura", ou mesmo a sua "liberação". Não há na zad posição consensual a este propósito.
Damos uma importância política ao futuro deste espaço: o questionamento da velocidade, do lugar da viatura nas nossas vidas e no território, uma certa visão funcional do espaço que decide o seu uso desde em lá em cima, e não no terreno. Se esta estrada voltasse a ser uma simples estrada, em detrimento de todos os usos que ali se criaram desde há 5 anos, uma parte do movimento o viveria como o começo da normalização da zona.

O que se segue

Queremos deixar lugar àquilo que nos tornou fortes até aqui: a coexistência num mesmo combate de numerosas culturas de lutas completando-se mutuamente, essa diversidade que não deixa ângulo de ataque ao governo.
Sejamos fortalecidas desse passado comum para construir o que se segue desta narrativa, para continuar as nossas buscas por um mundo mais justo e reflectido mais comunalmente.
A zad viverá, não porque somos "uma meia centena de irredutíveis ultra-violentos", mas porque somos milhares a ter um ligação forte a este espaço, por milhares de razões. E isso não muda com um abandono.

Como o podem ser Bure, a No TAV ou Roybon, este projecto de aeroporto não é senão um sintoma duma sociedade em crise profunda, ao mesmo tempo económica, política e social. Sintomas aos quais outras tentam responder pelo acolhimento de refugiados, a procura duma agricultura respeituosa da vida, ou o feminismo radical (entre mil outras lutas que devíamos citar aqui).
Este mundo está embrenhado de opressões e desigualdades, e se a ideia não é a de o atirar completamente ao lixo, é pelo menos de lhe provocar mudanças, profundas, radicais, ou seja, que se ligam à raiz. Pouco importam os preconceitos a que esta palavra dá origem, há em nós de radical tudo o que procura uma mudança profunda de qualquer coisa. Somos todas radicais.

Nisso, a nossa luta não termina às portas dum aeroporto abandonado. Enquanto betonadores sem escrúpulos continuarem a pilhar os recursos e os espaços, continuaremos a travar as suas máquinas. Sem que para isso queiramos deixar esta zona, que poderá constituir uma base de retaguarda sólida para abrir outras brechas e fazer existir a solidariedade lá onde o estado e o mercado nos separam e isolam.

É claro, o abandono do projecto soa como uma vitória. Ele envia uma mensagens a todas as outras pessoas e colectivos em luta: os estados e as multinacionais não são todo-poderosas. Não temos de aceitar e sujeitar-nos a todos os seus desejos. Podemos dizer Não, organizar-nos par os fazer recuar. As nossas lutas podem ser vitoriosas.
No entanto somos muitas nesta zona a considerar que o abandono do projecto não constitui senão uma vitória parcial. Enquanto tentamos impedir a construção dum aeroporto, mais de outros 400 são em projecto ou em construção no mundo, em menosprezo de qualquer consideração pelas alterações climáticas e os seus efeitos já bem perceptíveis. Sim, o projecto foi enterrado, mas o seu mundo está ainda bem vivo e continuará a sua obra predadora. Seria uma pena que a formidável força colectiva que se constituiu com centenas de comités e milhares de indivíduos implicados nesta luta se apague. Teremos ainda de que lutar juntas para preservar e rasgar as margens de liberdade, aqui e fora daqui. Porque "zonas a defender" existem aos milhares.

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