NOTA DE REPÚDIO ÀS DECLARAÇÕES DO MOVIMENTO DEMOCRÁTICO DE MULHERES

A Assembleia Feminista de Lisboa, a Assembleia Feminista de Coimbra, a Organização do Festival Feminista Do Porto e o colectivo Parar o Machismo Construir a Igualdade repudiam as declarações da senhora Regina Marques e do Movimento Democrático de Mulheres, dadas em entrevista à rádio TSF Notícias no dia 10 de Março de 2018.

Entendemos a abrangência e visibilidade que as notícias veiculadas no meio digital possuem e, consequentemente, o seu potencial para informar e/ou desinformar os consumidores dessa informação. Nesse sentido, chamamos o MDM à responsabilidade para com o movimento de mulheres pelas afirmações desmobilizadoras que fez publicamente, além de reforçarmos que o Bloco de Esquerda não teve qualquer envolvimento ou apoio nas marchas realizadas no dia 08 de Março.

Em Lisboa, a organização da Marcha 8M esteve sob responsabilidade da Assembleia Feminista de Lisboa, com apoio de outros grupos e coletivos para a logística, mas não do Bloco de Esquerda. Nas demais cidades, igualmente, não foi qualquer partido a organizar o 8M.

Consideramos as declarações de que “não há razões em Portugal para fazer greve feminista” um insulto a todas as mulheres que aqui vivem, portuguesas, imigrantes, refugiadas e estudantes.

Em Portugal, não tivemos apoio dos sindicatos, salvo Sindicatos dos CallCenter e dos Estudantes, para a realização de uma greve trabalhista. Como referiu a senhora Regina Marques, “a greve é algo que está instituída para quem trabalha”. Entretanto, lembramos que a manutenção da palavra GREVE deveu-se ao facto de compreendermos o Trabalho Doméstico, normalmente atribuído às mulheres (também em Portugal), que é abertamente invisibilizado e não-remunerado, apesar de ser um trabalho exaustivo e necessário para que os trabalhadores sejam a força produtiva necessária para a produção de valor económico. Este trabalho é historicamente feito por mulheres de forma não paga, configurando uma evidente exploração de género. Ao declarar que “só metade das mulheres é que são trabalhadoras”, ignora-se, por completo, as mulheres em Portugal que estão ainda presas ao trabalho doméstico nos seus próprios lares, o que não as torna menos trabalhadoras, mas sim mais exploradas, por não ser um trabalho assalariado, do qual a economia tanto beneficia. Além do trabalho doméstico, há que destacar as trabalhadoras precárias que por muitas das vezes não entram para estas estatísticas.

Regina Marques faz também menção às mulheres reformadas, que nas suas premissas, não teriam motivos para fazer greve. Lembramos que cerca de 53% dos reformados, em Portugal, são mulheres e que as mulheres reformadas recebem 274 euros a menos que os homens em média, uma disparidade de 31%, que está entre as maiores da União Europeia. Lembramos também que as mulheres são maioria das pensionistas de sobrevivência. Este é um reflexo directo das desigualdades entre os sexos e da falta de direitos sociais, políticos e civis que historicamente pesa nos ombros das mulheres também em Portugal, não menos que em outros países.

Reforçamos também que as mulheres são maioria nos trabalhos precários em Portugal, bem como a maioria das vítimas de assédio sexual nos locais de trabalho. No nosso país, onde o MDM considera não haver motivos para uma greve feminista, os homens ganham mais 17,8% que as mulheres, sendo o país europeu em que a diferença mais aumentou em 2016. Lembramos ainda que as portuguesas com mais de 65 anos ganham menos 43,4% que os homens, a terceira diferença salarial mais elevada da Europa.

Assim, tendo em vista todos os fatores e estatísticas assustadoras aqui referidas, chamamos a atenção ao Movimento Democrático de Mulheres, que se diz um movimento pelas mulheres, mas que boicota publicamente a própria luta.

Há mais que motivos para uma greve feminista em Portugal e que deve acolher, igualmente, as trabalhadoras, as desempregadas, as reformadas e estudantes, nacionais, imigrantes e refugiadas, uma vez que são as mulheres as mais prejudicadas em todas as instâncias, seja no corte das pensões, no corte das bolsas das universidades, na falta de uma rede pública de creches, no encerramento das fronteiras ou na precarização dos contratos de trabalho.

Apelamos ao apoio e participação massiva de todos os coletivos, organismos, movimentos, partidos e sindicatos para a construção do próximo 8 de Março como um dia de greve intensa assim como se faz em Espanha e Argentina, pois em Portugal há não só razões que cheguem como também uma urgente necessidade de mudança feminista.

Assinam:
Assembleia Feminista de Lisboa
Festival Feminista do Porto
Assembleia Feminista de Coimbra
Parar o Machismo Construir a Igualdade

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