Real Ficção vai ser despejada da sede onde tem funcionado há 20 anos

Fundada em 1986, a Real Ficção é uma produtora que nasceu de olhos voltados para o exterior. Ao longo de trinta anos de actividade dedicados ao cinema e ao audiovisual, não só ao nível da produção como ainda da divulgação, edição e distribuição, a demarcada identidade da produtora tem vindo a construir-se em estreita relação com as várias comunidades lusófonas. Preservando um espírito interventivo sobre o presente, esta companhia tem encarado o cinema como uma permanente arma para responder à realidade social, política e económica. Se a Real Ficção é um pequeno agente de meios e receitas modestas, a vitalidade do seu corpo de trabalho é a sua concentração na intervenção social: a sua filmografia agrupa estudos sobre a vida nas periferias, sobre os grupos mais desprotegidos da sociedade, sobre as minorias étnicas e raciais, sobre a relação de Portugal com o seu passado africano ou sobre vultos emblemáticos da cultura nacional.

No número 26 da Rua da Emenda, uma escadinha desce-nos para uma cave subdividida, onde todo o espaço é potenciado. Ao lado das várias salas de montagem, uma sala de arquivos repleta de betacams e bobines, de cassetes mini-DV e HDV, de CDs e DVDs, aloja a tela vazia onde se costumam assistir aos filmes em projecção. Ao fundo, a luz natural entra, pela transparência das telhas, no estúdio multiusos, constantemente adaptado às necessidades do cinema. Simultaneamente base de trabalho, oficina e arrecadação, aqui arrumam-se equipamentos e materiais, montam-se cenários para cinema ou fotografia, ensaiam-se textos e gestos com actores, montam-se unidades de caracterização e de guarda-roupa e tudo o que for preciso. No dinamismo desta reocupação sucessiva, é também aqui que nasce a APOR.DOC (Associação pelo Documentário) e que a APCA (Associação de Produtores de Cinema e Audiovisual) se reúne regularmente. É também aqui, ao lado de uma vasta biblioteca de publicações e periódicos especializados, que os jovens realizadores que acabaram de chegar ao cinema improvisam, de portátil debaixo do braço, as suas pequenas mesas de trabalho. Apoiando os cineastas e artistas emergentes, a história da Real Ficção é também a história de uma produtora que, pela agência de Rui Simões, recebe quem chega com vontade de filmar, disponibilizando o seu espaço, os seus meios e a experiência da equipa técnica que ali trabalha diariamente.

Se a Real Ficção ocupa este espaço há cerca de 20 anos, esta morada tem sido consagrada às artes há muito mais tempo. Com o foco no contemporâneo e a missão de dar a ver as vanguardas, o espaço funcionou como Galeria Graça Fonseca até à hora em que Rui Simões comprou a sociedade, dando continuidade a um modelo de aluguer que só se modificaria em 2012, com a Nova Lei do Arrendamento Urbano. A revisão de Assunção Cristas passou a prever que os contratos de aluguer durem um prazo máximo de 5 anos até à sua renovação - ou falta dela. Assim aconteceu e a Real Ficção vai ser despejada da sede onde tem funcionado há 20 anos, presentemente dispondo de apenas alguns meses para organizar uma saída para lugar incerto. Com a crescente inflação imobiliária e a exploração do centro de Lisboa com objectivos turísticos, o que acontece aos negócios locais dinamizados pelos próprios lisboetas? Sem estruturas de apoio, sem benefícios logísticos e sem intervenção camarária, as pequenas companhias acabam a ser empurradas, sem planeamento, para as periferias. Aos vários níveis, a demissão institucional é transversal: onde seria necessário ver surgir programas de preservação e concessão ou planos de defesa dos organismos certificados da cultura nacional, nesta hora, há apenas incerteza.

Num dia em que a comunidade artística sai à rua para, em conjunto, lutar pela verba de 1% do Orçamento de Estado para o tão necessário investimento na cultura, o sector afirma-se como área de intervenção estratégica para o desenvolvimento de um País e para a preservação de uma identidade. Procurando a redefinição da Política Cultural portuguesa, hoje defendemos a criação de um Novo Modelo de Apoio às Artes e apelamos à responsabilidade da nossa governação para intervir na protecção da cultura portuguesa e dos seus agentes.

Real Ficção

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