Reportagem - Bairro 6 de Maio: Ordem para limpar

(Ouve aqui a reportagem)

Polícias com proteções nas duas canelas, nos joelhos, no abdómen, nas costas, e na cabeça, com capacetes presos pelo queixo, e com máscaras que lhes deixavam apenas os olhos e a boca à mostra. Sem identificação, quase todos. Excepção feita ao comandante da operação, Resende Silva, de nome ao peito. Com espingardas automáticas nas mãos e pistolas no bolsos. Cercavam o bairro, não deixando ninguém entrar e ninguém sair. Parecia um estado de sítio, uma “zona de guerra”.

Atrás deles, uma série de casas amontoadas entre o entulho das paredes e dos telhados outrora demolidos, permaneciam como se tivessem sido bombardeadas, tal e qual as reportagem que aparecem de quando em vez no telejornal. Viam-se perfeitamente partes daquilo que antes tinha sido uma sala de estar, um quarto ou uma cozinha meia desfeita, onde agora se pendura a roupa a secar.

Ninguém entrava e ninguém saía. Quem lá morava estava à porta do bairro, do outro lado da estrada. Umas preocupadas, sem saber se a sua casa seria a próxima a cair. Outras irritadas, porque queriam ir para o trabalho, mas a chave do escritório tinha ficado do lado de dentro. Outras desconsoladas por, mais uma vez, a luz e a água terem sido cortadas dentro do bairro. Outras com o ar de enfado de quem já tantas vezes sofreu disto. Era normal.

O que parecia também normal era o que acontecia no centro social que, no meio de tanto aparato, funcionava como se nada fosse, entretendo crianças nas férias da Páscoa. As crianças entravam de mão dada com o pai ou a mãe e eram recebidas com sorrisos pelas funcionárias do centro. Tudo normal. Tanto para as crianças como para os pais. Não porque não percebessem o que se estava a passar - sabiam muito bem - mas porque tudo aquilo já acontecera variadíssimas vezes.

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É Apenas Fumaça

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