TARNAC - Últimas declarações

Traduzido de https://lundi.am/Tarnac-dernieres-declarations

Senhora juíza, senhoras do tribunal, senhores procuradores,

Por vezes, para compreender uma realidade humana ou uma situação complexa, é suficiente um pequeno detalhe, uma pequena anedota, a priori inofensiva, para que, de repente, aquilo que parecia confuso ou obscuro se ilumine e se torne compreensível.
Ontem ao meio-dia, senhora presidente, depois da audiência terminar, fez uma observação que não sai da minha cabeça desde então. Disse-me o: «Sr. Burnel, nunca, na minha vida, encontrei pessoas tão mal-educadas como você e o Sr.Coupat.» O que estava em causa e que parecia justificar aos seus olhos este juízo, seria o facto de, aquando da defesa da Sra. Timozko, nós termos tido a arrogância de lhe murmurar «48» uma vez que esta se tinha enganado a propósito das declarações do testemunho Nº3: ele admitiu ter redigido o seu processo verbal 48 horas depois da hora indicada e não 36.
Nunca encontrou pessoas tão mal-educadas quanto o Sr. Coupat e eu, esses seres desastrados ou desenvoltos, cujos pais não souberam, aparentemente, ensinar que se deve ficar quieto sempre que um adulto vestido de toga fala ao seu lado. Que mundo anedótico aquele no qual parece viver a senhora presidente.
Repetiram-no várias vezes, as partes civis como os Senhores procuradores sublinharam-no também: esta audiência foi «excepcional». De minha parte, sendo o primeiro processo no qual participo, não possuo nenhum elemento de comparação. Mas isto não me pareceu, de forma nenhuma, excepcional, diria mesmo que me pareceu perfeitamente banal. Partes diferentes, que não estão de acordo, debateram, argumentaram, discursaram de forma enfadonha, enfim, tudo aquilo que se passa todos os dias em todas as agregações humanas. É banal e normal. Aquilo que vocês acharam excepcional é por isso essa banalidade. Aquilo que acharam fora do comum, em suma, é que nós não entramos neste tribunal baixando os olhos nem a fazer vénias. Que não somos submissos a todo esse pequeno ritual teatral de submissão que faz habitualmente parte do vosso quotidiano.
Para vos dizer a verdade senhoras, até ao primeiro dia destas audiências, não estávamos certos da utilidade de cá vir. Não estávamos certos que houvesse grande sentido em participar neste mau sketch a que alguns chamam justiça. Creio que, no fundo, o que nos convenceu apesar de tudo a vir, foi uma certa curiosidade. Conhecíamos certamente a casa, mas não tínhamos nunca entrado neste quarto.
Para sermos ainda mais honestos, não descobrimos grande coisa que já não soubéssemos. Um ritual, um teatro, umas vestimentas, uns dourados e todo essa mise en scène pitoresca. Cada um no seu papel toca a sua pequena música, a sua pequena indignação, a sua seriedade, os seus pequenos artigos da lei, e mesmo a sua grande e justa autoridade. No fundo, eu creio, senhora presidente, que aquilo que tolerou ao longo destas três semanas enquanto nos censurava e que ontem à noite apelidou de má educação, foi o facto de termos sido os únicos, no interior desta sala, a não interpretar um papel, a não fazer como se, a não brincar à justiça. Contentamo-nos em nos defender. Certamente com algum vigor e, tanto quanto, um pouco de falta de jeito, mas defendemo-nos, tão simplesmente. Como é excepcional! O assombro de todas as partes envolvidas quanto a essa liberdade que nos concederam, ou à qual nos arrogámos, diz muito acerca daquilo que vocês consideram «normal».

«Vocês são as duas pessoas mais mal-educadas que alguma vez encontrei na minha vida.» Porque é que esta frase me deixou estupefacto. Penso nela desde ontem à noite e creio que agora sei porquê. Porque, no fundo, esse juízo quanto à qualidade da nossa educação apela a uma questão: quem é você para nos julgar? De onde emana essa misteriosa soberania que a autoriza a qualificar a nossa existência? De que incrível virtude é necessário ser portador para «julgar» os seus semelhantes. Voltarei a este ponto.
O que se passou ao longo destas audiências, e que os menos inspirados jornalistas tomaram como leviandade, puerilidade, insolência ou arrogância, é que nós fomos capazes de suspender, destituir, temporariamente, um certo regime de enunciação, uma certa ordem do discurso, uma certa ideia de justiça. Não proclamamos grandes discursos, não tomamos a postura da ruptura, somente falamos quando nos pareceu necessário fazê-lo. Incomodamo-nos com palavras ou demonstrações aberrantes, rimo-nos quando o contexto era anedótico ou grotesco, fomos pedantes quando pareceu necessário sê-lo. Não brincamos e foi precisamente isso que vos perturbou.
Bem que houveram alguns medíocres jornalistas de jornais com falta de leitores que se acharam no direito, também eles, de nos julgar, de distribuir boas ou más notas. Acreditaram no circo. O polegar para cima ou para baixo segundo a qualidade estimada do espectáculo. «Como ousam eles ser tão arrogantes para com a Senhora Presidente? Como ousam eles cortar a palavra de maneira intempestiva?» Nós os oito arriscamos uma boa centena de anos de prisão e arriscamo-nos ainda a algumas dezenas. Vocês são indecentes.
O que é que se passou, realmente, ao longo destas audiências e que vocês qualificam de excepcional? Uma pequena mudança, uma muito pequena mudança. Vocês tinham algumas expectativas. Vocês esperavam ver esse famoso grupo de Tarnac. Um guru, uma seita, «militantes políticos», «anarco-autónomos», profissionais do motim ou teóricos da revolução violenta, sei lá eu. Mas, finalmente, encontraram-se face a nós: Manon Gilbert, Julien Coupat, Benjamin Rosoux, Elsa Hauck, Bertrand Deveaux, Cristophe Becker, Yildune Lévy… e nós parecemos normais, banais. Fizeram-nos perguntas absolutamente singulares: Manon, ela toca gaita ou flauta transversal? Benjamin, o seu IEP [Institute d’Études Politique], era em Paris? Ah não, Rennes. E você desenrasca-se financeiramente com os 750 euros do seu contrat aidé [salário com comparticipação estatal]?
Essa minúscula mudança, certamente que a provocamos, mas foi em vocês que ela se operou. Compreenderam, creio, ao longo destas três longas semanas de audiência, que o que havia de mais singular nestes revolucionários era aquilo que continham de infinitamente comum.
O Senhor Procurador, aquando da sua acusação, disse-nos que tinha entendido a singularidade das nossas situações. Com uma empatia característica, descreveu alguns de nós como «murchos» face a estes dez anos de luta contra o anti-terrorismo. Não precisamos de empatia; nunca, de forma alguma, nos lamentamos. Aquilo que fizemos ao longo destes dez anos, foi aquilo que sabemos fazer: batermo-nos. É isso que as pessoas como nós sabem fazer: bater-se, resistir. Tratava-se de não abdicar de uma recusa central e soberana: não aceitar ser esmagados. As forças coligadas contra nós eram massivas e poderosas. Foi necessário encontrar os recursos, o tempo, a força e as cumplicidades.
Agarramo-nos a essa ínfima, mas irredutível verdade: vocês não nos esmagarão. Este ‘nós’ aqui, não se limita a nós oito, evidentemente, mas a todos aqueles que estavam indirectamente visados por essa operação política, mediática e jurídica. Nós e os nossos amigos que são numerosos. Seja qual for o assunto do processo, não sairemos ‘murchos’ Sr. Procurador, mas mais fortes, mais fortes que quando aqui entramos, mais fortes que há dez anos.
Foi feita referência, por várias vezes ao longo das audiências, a escritos ou a cartazes. Quisemos assumir-nos em falha: «dizem que não é vosso, mas leu bem esse cartaz Sr. Deveaud?» Quisemos escondermo-nos atrás do nosso pequeno dedo. «Quais são esses pensamentos vis pelos quais o tribunal vos poderia condenar? Qual é o texto inscrito nesse cartaz de 1980, assim tão terrível que nem ousamos ler em voz alta?» Vou lê-lo: [1]
«Se partimos os bancos, é porque reconhecemos o dinheiro como causa central de todos os nossos azares. Se partimos vitrinas, não é porque a vida é cara, mas porque a mercadoria nos impede, a todo o preço, de viver. Se partimos máquinas, não é porque queremos defender o emprego, mas para atacar a escravidão salarial. Se atacamos a bófia, não é para a fazer sair das faculdades, mas para a fazer sair da nossa vida. O espectáculo quis ver-nos perigosos. Nós entendemos ser piores.»
Isto poderia ser um programa.
Várias vezes, ao longo destas audiências, os juízes, como a acusação, felicitaram-se de que um certo número de elementos chave para a acusação pudesse ter sido descartado, graças à defesa.
Mas tal não aconteceu por obra e graça do espírito santo. A desmontagem meticulosa do dossier, o «trabalho mediático», as dezenas de pedidos de acto todas recusadas, o ataque sem hesitação da lógica antiterrorista, tal não aconteceu por magia. Se a qualificação terrorista caiu, se a associação de malfeitores caiu por terra, e se a d104 ficará nos anais da justiça, é porque trabalhamos afincadamente. Essa destruição meticulosa das acusações feitas contra nós, não a empreendemos confortavelmente em belos salões dourados, rodeados de carradas de juristas e de profissionais da comunicação. Não; essa defesa foi levada a cabo por nós, tarde na noite, entre dois biberões, de manhã cedo, antes de ir trabalhar. (…) Oh como estes réus foram pueris aquando dos dias da audiência.
A parte civil qualificou-nos de crianças mimadas aquando da sua argumentação. Ela ignorava, certamente, que a maior parte de nós vem de meios extremamente modestos. Sabemos por isso perfeitamente aquilo que não devemos senão a nós mesmos.
Creio, Senhora presidente, que não vai estar com capacidade para nos julgar. Vai, evidentemente, redigir numerosas páginas apoiando-se sobretudo numa pilha de artigos da lei. Haverá um cabeçalho, selos e assinaturas. Haverá condenações, talvez absolvições, mas eu creio que este não será um julgamento como habitualmente o entendemos. A possibilidade de julgar é, fundamentalmente, um atributo divino. É necessário poder sondar as almas, ser moralmente superior, é necessário ser infalível e, sobretudo, estar o mais distante possível - nos céus - daqueles que pretendemos julgar. Julgar, a não ser que se seja Deus, é sempre uma forma de usurpação. Para nos poder julgar, por isso, seria necessário que muitas condições estivessem reunidas e não o estão. Para nos poder julgar, seria necessário, primeiro, que nos considerássemos como «julgáveis», que estivéssemos dispostos a nos sentir culpados, a nos emendar do mal cometido contra «a sociedade». Eu estou aqui porque recusei dar o meu ADN a um polícia [GAV, gendarme adjoint volontaire] para apurar factos dos quais já tinha sido inteiramente absolvido. Onde poderia eu encontrar em mim o mínimo de peso de culpabilidade? Para nos poder julgar, seria também necessário que tivessem o sentimento, a impressão, a convicção, de «defender a sociedade». Não tenho capacidade para ler as vossas almas, mas estou absolutamente persuadido de que nenhum de vocês está convencido. O que suspendeu, congelou, destituiu o protocolo e o ritual de justiça ao longo destas três semanas, foi o facto de existir a interferência de um elemento terrivelmente humano e que certamente vos perturbou. Tiveram que aceitar sair da forma institucional para manter superficialmente o seu desenvolvimento. Assim que me disse ontem, «Nunca encontrei pessoas tão rudes em toda a minha vida», eu não me queria acreditar, senhora presidente. Eu creio que mentiu. Somente, tentou manter algumas formas, algumas distâncias, sem as quais não teria outra escolha senão despir a sua toga e nos convidar para merendar consigo no Deux Palais.
Não ignoro, senhora juíza, que se espera que os tribunais apreciem diferenciadamente as situações singulares de cada um. É aliás a barreira intelectual que nos impede de chamar a este lugar um matadouro.
Mas como vai poder julgar-me, a mim, senhora juíza? Da sua declaração, como da declaração do procurador, teríamos algumas queixas, suportamos algumas dificuldades quando a polícia antiterrorista veio para nos prender há dez anos atrás. Quanto valem essas «desonras»? O senhor procurador exigiu 1000 euros com pena suspensa contra mim, que piada. Se tiver um grande coração, vai subtrair, no vosso julgamento, o preço das nossas sandes e dos nossos bilhetes de comboio? «Vamos lá para os 750 euros».
Na realidade, senhora presidente, se estivesse, verdadeiramente, em posição para me julgar, bater-me-ia nas costas e diria «Sr. Burnel, você e os seus amigos bateram-se de forma magnífica e tal impõe respeito. Peço imensa desculpa por tudo o que fez a minha instituição. Não é uma condenação que merecem, mas as nossas mais sinceras desculpas.». Mas não o pode fazer. Não me pode absolver, a ofensa está constituída. O Sr. Procurador já tinha advertido: se você for absolvido pelo ADN, estabelecerá uma jurisprudência que será prejudicial para o bom desenvolvimento da colecta de ADN por parte da polícia em França.
É uma das assimetrias gritantes desta audiência, vocês são finalmente menos livres que nós. Nós podemos não jogar ao jogo da justiça, vocês não. Mesmo que, humanamente, vocês saibam que tudo isto não passa de uma farsa, estão presos aí, institucionalmente, simbolicamente. Vocês não nos podem verdadeiramente julgar, podem somente tentar salvar a instituição.

[1] Aquando dos debates, os juízes tentaram colocar em dificuldades certos arguidos confrontando-os com o conteúdo altamente subversivo de certos livros, panfletos ou cartazes encontrados em suas casas. A presidência recusou-se a ler publicamente o conteúdo dos mesmos.

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