Era uma vez uma banca...

O palácio contra a rua

Era uma vez um ditador… que acossado pelos seus próprios militares, exprimiu, no estertor da agonia de perder o seu domínio, o derradeiro pavor: que o poder caísse na rua. Que não, disseram-lhe os militares, estivesse descansado, que arranjariam um igual a ele para pôr no seu lugar.

E logo deram ordens: que ninguém saísse à rua (e que toda a gente ficasse expectante para ver no que dava…).

Mas nós... desobedecemos. E as ruas começaram a crescer de entusiasmo e destemor, contra as ordens impopulares, contra os pides assassinos, contra os muros. E as ruas diziam: - Nem mais um soldado para as colónias! - A terra a quem a trabalha! - Casas sim, barracas não, ocupação! - O povo é quem mais ordena! - Abaixo a exploração capitalista! Legalizar o aborto, direito ao nosso corpo!

E foi assim que se fez Abril. Continuado, sofrido, conquistado palmo a palmo contra todos os poderes instituídos.

Se houve cravos eles vieram da rua, desse desobedecer que foi abrindo caminho, arrumando para o lado a “esperança” no que nos tragam de cima, fazendo o seu caminho, laboriosamente e sem cansaço. Foi essa a alegria de Abril, indomável.
A rua, fervilhante de vida, a criar a creche para as nossas crianças, a abrir uma rua sem lama e água inquinada, a ocupar a fábrica para termos pão, a fazer a nossa cooperativa, a criar os centros de cultura e recreio onde juntos pudemos aprender, aprender a fazer... e a jogar. Foi isto o nosso Abril, terra da fraternidade. O poder, por toda a parte tremia, com o medo de cair na rua.

O outro abril, aquele que não é nosso, esse veio primeiro de mansinho, mandou as pessoas para casa, horrorizado com a falta de medo à autoridade, com o desrespeito aos poderosos, encheu a boca de “democracia” e veio embrulhado em palavras enganosas, sem nada que dizer ao concreto das nossas vidas, a prometer que um dia o sol brilhará para todos nós.

Todos à teta da Constituinte!, ainda avisamos nós, por outro lado!

Depois, de repente, ameaçaram-nos: Agora quietinhos! Já temos quem nos represente! O tempo da rua terminou! De tantos em tantos anos venham aqui pôr uma cruz!

E a cruz pôs-se... na urna de Abril, entretanto caído.

Mas a rua não é uma avenida, direta ao palácio, com a sua guarda de honra. E após abril vem outro mês. A rua é sinuosa. E depois de uma curva, podemos ter outra visão: a praia que há debaixo da calçada são braços submersos com pedras na mão.

Viva o 25 de Abril!

GERA - GRUPO ERVA REBELDE

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